terça-feira, 21 de julho de 2009

As quatro estações

Primavera

Sabeis quem sou? - Primavera;
riso do ano;quimera
feita de luz e de flores!
É tamanho o meu poder,
que até no peito da fera,
que é fera,semeio amores!

Por saudar-me,o Céu veste
do mais puro azul celeste
salpicado de estrelinhas!
Brilha o Sol com mais fulgor,
foge,corrido,o nordeste,
visitam-me as andorinhas!

Estio

Da Primavera sou filho.
Chamo-me Estio,e perfilho
as intenções da mamã!
Ela fecunda,e eu crio;
dou forma ao trigo e ao milho
e adoço a verde maçã!

A todos dou agasalho!
Sou capa de órfãos e espalho
por toda a parte alegrias!
Imponho tréguas à dôr,
canto louvores ao trabalho
e ao pão de todos os dias!

Outono

Eu sou quem parte e reparte,
com equidade e com arte,
o prémio do bom labor!
Dou alento a pobre e a rico
e faço que em toda a parte
reinem a paz e o amor!

Sucessor do quente Estio,
tenho, também o meu brio,
meu valor,minha magia!
Nas colheitas,nas vindimas,
há cantares ao desafio,
há mil estos de alegria!

Inverno

Chama-me o rico - O Inverno;
o pobre chama-me Inferno
feito de agudas tristezas.
Sou frio, ásp’ro,severo,
e,contudo,o Padre-Eterno
quis que eu tivesse belezas!

Deu-me as festas do Natal,
Deu-me os Reis,o Carnaval,
deu-me os serões em familia...
Como vêdes,não mereço
que me queiram nenhum mal
nem por mim tenham quisília!

Autor - A.Serra e Moura
(em Outubro de 1926)

E quem era Serra e Moura?
Vivia em Montemor-o-Velho nesta data,penso eu...
Escreveu estes versos (a que deu o nome de As Quatro Estações) numa tira de papel almaço, e ofereceu-os ao meu pai que os guardou.Muito,muito,mais tarde é o meu pai que mos mostra e oferece,e que eu guardo também.Hoje,ao reler esta poesia,ver a letra "desenhada"que se usava na época,o papel já amarelecido,mas conservado,e saber que 82 anos passaram sobre este trabalho,decidi colocá-lo no blogue.Quero dizer que transcrevi na integra,exactamente como o autor escreveu.
Eu serei uma exagerada,talvez valorize,sem motivo... "é pouco mais que um papel com 82 anos"... dirão os mais práticos! E terão razão também! Mas para mim,tem o valor que eu sinto. Só lamento,não saber quem foi Serra e Moura.

"Montemorences,quem era Serra e Moura ?"

domingo, 19 de julho de 2009

Diálogo


A Lua já não era visível.As estrelas confundiam-se com a claridade do alvorecer,amanhecia.O sol subia no horizonte e afagava os ornatos superiores do maior edifício de Montemor-o-Velho - os Paços do Concelho.O sol chamou-lhe Palácio e enquanto o acariciava com o seu calor e despertava para mais um dia,disse-lhe:
- Sabes Palácio,tenho pressa em iluminar-te,sabes porquê?
- Não,diz-me...
- Porque és bonito! És um Palácio soberbo!
- Gosto do galanteio - retorquiu - eu já tenho muitos anos,estou de pé desde 1892.Já vivi muito,tenho muitas recordações,boas,menos boas e,saudades.Mas os teus elogios não apagam as minhas mágoas...
- Mágoas? Tu?! - inquiriu o sol - queres desabafar?
O grande palácio,um tanto austero,tomou então da palavra com uma calma triste:
- Esta Praça,que se chama da Républica,está mais desolada que um largo duma pequena aldeia remota.E no entanto,tem um desenho tão belo,dela até se vê o Castelo,que é a coroa da Vila ! Mas tão árida,nem uma flor,nem uns jactos d’água que a enfeitem,nem população,apenas um largo,que tristeza...
- Ora,Palácio,são os efeitos da crise,que há-de terminar... Não! O que te digo é anterior à crise.Sou velho mas ainda consigo destrinçar. Aos domingos e dias feriados esta Praça é sinistra de tão vazia. Nem calculas a tristeza que me invade nesses dias.Nem um restaurante,nem um café aberto...Lembra um suicídio colectivo,um êxodo total! É então que na minha solidão recordo o passado,quando os bancos à minha porta eram poucos para os trabalhadores que aí se sentavam para descançar e conversar,nas tardes de domingo! Nos passeios que me contornam,acomodavam-se também as mulheres que vendiam tremoços e castanhas,e os engraxadores com a respectiva caixa para o seu trabalho. Formavam-se grupos,que falavam,havia vida... No café Girão,pequeno mas acolhedor,os homens preguiçavam na explanada sobre o passeio,enquanto o empregado,(o Manel do Café),impecável no seu casaco branco e no seu trato,os servia incansável.Será que ainda vive? Mesmo na minha frente,o Café Mondego,pequenino,o Café do Henrique,o inventor das Espigas Doces,essa delicia!
- Um inventor? Em Montemor?
- Há! Sim,ele devia ter lido o Fernando Pessoa - "quando Deus quer,o homem sonha,a obra nasce!" Sonhou e tornou realidade um doce para Montemor,como era então conhecido.Que saudades desses tempos.O meu coração de velho não esquece,nada me alegra...
- Queria animar-te,meu amigo.Mas as minhas histórias são iguais às tuas.Como sabes,eu,um amigo dos turistas,vi há tempos um carro cheio deles quedar-se à entrada da Vila para as fotografias da praxe ao magnífico Castelo.Depois dirijiram-se para o centro da Vila.Era Domingo e tudo estava fechado.Deram meia volta.Segui-os num dos meus raios até Tentúgal,onde se sentaram a uma mesa de café a saborear pastéis e queijadas.
- Não digas mais...
- Voltas amanhã?
- Claro,todos os dias!
- Mas promete-me uma história mais feliz....

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Ser Honesto parece mal ?


Eu não sei se foi sempre assim...porque a tentação e o pecado,vêm já da noite dos tempos. Também a informação era deminuta,e "amordaçada"...Por isso é dificil para mim tentar a comparação com o ontem e o hoje. Mas fico admirada com o numero de figuras da alta sociedade,a viver mais que desafogádas,e nem assim "arrumam" a ambição desmedida! Parece que só o dinheiro lhes interessa, venha donde vier! Não é aquele dinheiro"ganho com o suor do rosto"porque esse nunca é muito... E muito é que dá conforto ao corpo,e sobretudo ao ego! Retiram do pensamento palavras cujo significado passou de moda (respeito,honra,palavra,dignidade,
vergonha,seriedade)...e, vivem felizes ! O silêncio é cumplice,tudo são rosas! Mas um dia lêmos e ouvimos,corrupção,fraude,importâncias enormes desviadas, perdidas, e os nomes dos personagens envolvidos,e ficamos atónitos com a revelação,quáse incrédulos perante a falta de dignidade e respeito,pelos outros e por si próprios.
É então que os mais velhos usam a expressão "o mundo está cada vez pior"...mas eu permito-me contrapor com as palavras do poeta brasileiro,que diz : O MUNDO NÃO É MAU,NÃO É RUIM ; A GENTE É QUE FAZ O MUNDO ASSIM !
(neste caso eles,os prevaricadores)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Voando a Sonhar


Já algumas vezes ouvi dizer "quem não aparece esquece"!
Quem sou eu para negar afirmação tão enraizada... Se calhar é certo, e o melhor é aparecer.Então cá estou eu,desta vez com mais umas rimas (despretenciosas).

Recolhi-me cêdo
P’ra ir descançar
Só que o meu sossêgo
Foi só a sonhar.

Sonhei que voava...
O ar me impelia,
Do alto eu mirava,
E subia,subia.

Subindo ligeira,
Como águia ou afim,
Fui aventureira,
Esqueci-me de mim.

Qual ave perdida
Pelos altos cèus,
Voei decidida
Cheguei até Deus...

Ninguém lá chegou:
E eu não sou excepção.
Meu sonho acabou,
Voltei à razão.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Crianças a apanhar lixo na praia


Isto também podia ter sido um sonho,mas não foi,é real "infelismente"...
Diáriamente leio o Diário de Coimbra e ali encontrei algo que me deixou pasmada.Crianças dos jardins de infância, numa acção de recolha de lixo nas praias de Mira.Igual acontecimento em Montemor;aqui a apanha dos detritos foi na via pública. Os responsáveis realçam o facto como positivo,"foi tudo de boa vontade"e as crianças aprendem que não se deve sujar o ambiente. Pois ! E para isso, para ensinar, é necessário sujeitar as crianças a esta porcaria ? Sim, porque são pequenas e não sabem proteger-se; na sua inocência andaram expostas a perigos no que refere à sua saúde,e admiro-me também que os familiares consentissem num programa destes.As escolas já não são o local onde se ensina ? Não chega a palavra ? Faz-me lembrar aquele epitáfio "AQUI JAZ UM HOMEM QUE ACENDEU UM FÓSFORO PARA VER SE O BIDON TINHA GAZOLINA" (e tinha...)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

A Procissão que eu não vi


Já faz algum tempo que não escrevo,nem pouco nem muito; e contudo escrever como ler, é um dos meus passatempos favoritos,mas a perguiça ganhou vantagem e até as cartas para as amigas estão em atrazo; "isto é mau"... mas hoje resolvi contrariar a apatia e recordar.

Eu tinha uma meia irmã com idade para ser minha mãe, que residia no Barreiro com os filhos,era divorciada e operária fabril na C.U.F. no tempo em que esta emprêsa "era um mundo" com milhares de trabalhadores,os quais tinham algumas regalias,nomeadamente férias,(estavamos em 1950).A minha irmã como montemorense que era,vinha passar esses dias à nossa terra,na minha casa.Era ainda nova e como tal,alegre.Numa dessas estadias entre nós,que eu nos meus 13 anos adorava,ela desafiou a minha mãe para irmos à festa da Raínha Santa a Coimbra,à procissão do dia. Da ideia passaram á prática,fizeram o farnel e no dia seguinte logo de manhã lá vamos nós para o apeadeiro apanhar o combóio,ainda seria uns 40 minutos a andar a pé,o que para nós miudos (eu e o meu sobrinho da minha idade)foi uma festa, assim como a viagem de combóio á janela.Chegámos cêdo,vagueámos pela cidade,comêmos calmamente no Parque,e como a minha irmã queria ir á Igreja de Sta.Clara,rumámos nesse sentido.Um calor infernal,e nós a pé, ponte fora porque ela enjoava no troley; nunca mais me esqueci da ladeira de Sta. Clara... Depois das orações na Igreja,caminhámos e achámo-nos no claustro
onde pequenos grupos de pessoas descançavam sentadas no chão.Nós fizemos igual,tinhamos de arranjar força para voltar à cidade. Daí a pouco surge um Padre, dirije-se a um dos grupos ,fala em surdina, e as pessoas erguem-se de imediato e caminham mas com energia,os outros grupos seguem-nas,e dum instante para o outro já era uma multidão que avançava cada vez mais rápida,o que fez rir a minha familia,pois não percebiam aquele levantamento.
Não demoraram muito a dar a volta ao claustro,e quando alguém tentava juntar-se à cabeça da fila,o Padre feito sinaleiro de braço estendido gritava, não,não,têm de ir dar a volta primeiro! Finalmente lá chegou a informação; nesse ano estava exposta a mão da Raínha Santa,e tinha começado a visita.Lá fomos também dar a volta "da ordem"no meio da multidão que já não tinha ordem nenhuma,nem silêncio sequer. Mas o pior era entrar nos acessos ao altar-mor onde está o túmulo com o corpo desta Santa.São muito estreitos,e escuros,e a multidão estava ali comprimida e sufocada com calor: então a minha mãe não aguentou,sentiu-se a desmaiar,e só queria sair dali depressa,e aflita gritava,deixem-me sair,deixem-me sair... eu morro aqui ! As pessoas mostráram compreensão,mas foi muito dificil chegar á "liberdade"... Voltámos ao claustro.(não vimos a mão da Raínha) Acalmados os nervos com descanço e um copo de água oferecido por mão piedosa,regressámos á cidade novamente a pé, com o propósito de ver passar a procissão.Ficámos nas imediações das Escadas de São Tiago,por ser mais rápido o acesso para o combóio,e esperámos... nos passeios dos dois lados da rua a multidão era um facto, mas tudo ordeiro e respeitoso; mas há sempre alguém diferente... aproveitando o aglomerado de pessoas,um rapazote passou rente e deu um beliscão á minha irmã;ela rápida prega-lhe um valente murro nas costas,acompanhado de censuras: logo as pessoas á volta tomam o partido dela e fazem côro de protestos,e lamentam não o terem agarrado... entretanto o tempo passava,e procissão nada de sair.Já se viam pessoas a consultar o relógio porque o combóio não esperava:connosco era igual teríamos de regressar de dia,havia ainda a estrada do apeadeiro depois do combóio,os tais 40 minutos a pé.Até que finalmente ouviu-se uma voz ,lá vem agora a procissão; esperámos e de facto eu vi e recordo; os bonitos cavalos e cavaleiros devidamente trajados que dão inicio á procissão... E foi tudo,porque de seguida "corremos" para o combóio.Esta é a história da minha ida á procissão da Raínha Santa.Para um adulto teria sido uma frustração: para mim foi uma fartada de riso...
Como é bom ser creança !

domingo, 3 de maio de 2009

EM Familia


Depois dum espaço de tempo sem escrever nada,em que aproveitei os serões para vizitar outros blogues,volto hoje com mais umas rimas.

Encontro em familia

O sol acordou cedo: hoje é Domingo,
Chama-lhe o povo "o dia do Senhor".
Confraterniza-se,neste dia lindo,
Nos lares onde ainda existe amor.

Amor,ternura,uma familia unida:
Forte cadeia que importa não quebrar.
Uma das coisas boas desta vida
É um bom repasto,no sossegado lar.

Há festa à mesa,há risos e finezas
Que se recebem e dão de modo igual:
Ali não há lugar para tristezas,
Triunfa o bem em desfavor do mal.

A vida é curta,apenas só passagem:
P’ra quê vivê-la só em confusões ?
Há que sentir o bom desta"miragem"
E nela só deixar boas recordações.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Saudações


Hoje vou escrever pouquinho porque o sono está a impor-se com insistência e confesso que não resisto. Vou colaborar com ele. Assim apenas quero cumprimentar e agradecer aos visitantes que me têm deixado comentários.Á minha conterrânea que deixa transparecer a estima que me dedica,eu quero dizer que continue a tratar-me por Dilita; esta forma trás-me à memória a minha juventude e muitas pessoas queridas que assim me chamavam. "Ó tempo volta p'ra trás"... por uns momentos apenas... Beijinhos.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Os mêdos,noutros tempos...

Há muitos anos atrás no nosso Montemor, a maioria da população era dada à superstição,quase toda a gente tinha algo de sobrenatural para contar,que alguém tinha visto... Falavam mesmo na presença das creanças,que retinham esses "episódios",e depois os contavam ás suas amiguinhas,já com o mêdo instalado.Eu também me recordo de ouvir apontar os locais,onde apareciam "coisas"... um caixão a atravessar a rua principal da Vila pelas 10 horas da noite ( hora tardía) e a sumir- -se num boeiro grande que havia encostado à casa do fidalgo Sr.Fortunato: hoje tudo desaparecido,casa, boeiro e fidalgo. Outro local de mêdos ficava na beira da estrada que liga a Vila à Barca,já perto da velha ponte,numa propriedade com um poço de água e que pertencia ao mesmo fidalgo.Também a "baixeira do cano",frente à Quinta do Cano,a caminho do Areal,Moinho da Mata,era apontada como tal,e é aqui que começa a história... Mariana era costureira,costurava em casa das clientes;levava e trazia à cabeça a máquina com que costurava,e começava o dia bem cedinho acabando ao anoitecer.Neste dia tinha estado a trabalhar no Moinho da Mata e regressava a casa na Vila,com as primeiras estrelas a pontilharem o céu, acompanhada por uma vizinha que também ali se havia deslocado,e juntas encetaram caminho apressadas,já que à baixeira do cano ninguém queria passar de noite.Como era de esperar a conversa entre elas recaiu de imediato nos mêdos,que "aconteciam" naquele lugar (o cano) onde elas iam passar.Ambas acreditavam,e como tal tinham mêdo, e repetiam o que tinham ouvido, que aves pretas enormes, fenomenais, ali tinham aparecido,e mais coisas...Como a noite se aproximava,o filho da costureira ignorando que a mãe tinha companhia,resolveu ir ao seu encontro.Ao vê-la ao longe e acompanhada,pensou esconder-se atrás duma árvore e assustá-las;deixou-as passar, e ainda percebeu algo da conversa,o que o fez sorrir...Em passo leve acercou-se delas,e colocando as mãos em concha sobre a boca fêz um valente assôpro; ambas deram um grito,a Mariana deitou a mão à máquina,e em simultâneo agarraram-se, para logo se largarem e desatarem a correr,sem sequer olharem para trás.O rapaz já arrependido,bem se esforçava, párem,párem, esperem sou eu,esperem...Não esperaram nunca,só quando a estrada terminou e a Vila estava a seus pés, pararam exaustas,e a mêdo olharam para trás...Logo se sentiram fortes para o natural "ralhanço",mas foi entre desculpas e risos que caminharam para casa.Foi uma diabrura do filho,mas nunca a Mariana se livrou dos mêdos,e das histórias que ouvira desde a meninice e que sempre considerou reais.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Na Procissão


Depois dum alheamento de alguns anos em relação às procissões denominadas do Senhor dos Paços,que acontecem em Montemor pela Quaresma,e sem motivo para ter deixado de comparecer,decidi voltar.Devo confessar que a ideia me agradou,e até me deixei tomar por um certo entusiasmo.Assim à hora marcada lá estávamos frente à Igreja da Misericórdia eu e o meu marido,trocando cumprimentos com os nossos "irmãos",e tenho esta expressão,porque pertencemos á Irmandade.Pouco depois já todos seguiamos acompanhados com a Filarmónica,em direcção à Igreja dos Anjos onde ia ser celebrada a Missa e cantado o tradicional Miserérie.( Eu devo penitênciar-me,porque na verdade a minha fé,não me leva para lá do real... Respeito estas celebrações repetidas ano após ano, e vejo ali a representação dum facto verídico,uma crueldade,bem ao estilo romano.Eram poderosos,mas sentiram mêdo de Cristo... daquele jovem que não usava elmo nem lança,nem com palavras magoava; nada exigia,apenas pedia que todos se amássem como irmãos, e falava dum reino,mas no Céu. Os Romanos não entenderam,sentiram-se em perigo e cruxificaram-no.) Gostei da interpretação do Miserérie,vozes bonitas afinadinhas,e depois segui na procissão no ponto destinado à nossa Irmandade; e caminhando lentamente pensei "como a minha Vila está triste"... tantas janelas fechadas, e como tal, sem o simbolismo duma pequena luz... e pensando encontrei a resposta,o tempo passou,os moradores partiram na viagem sem regresso ; e recordei-os a todos. Já perto do Castelo eu perguntava-me, quem está mais triste ? a Vila ou eu ?

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Alves Barbosa e o azar


Gostei do comentário do Osvaldo.Fez-me recordar o que era a Volta a Portugal naquela época,uma festa esperada com ansiedade.Os ciclistas passavam a Montemor ao fim da tarde,mas após o almôço o nosso lugar era a rua,para ver bem de perto e aplaudir.Muitas moradoras na encosta do castelo,traziam o cântaro para levar água para casa depois da corrida passar ,(não havia água canalisada) "juntavam o útil ao agradável"; assim junto á bomba havia sempre um numero considerável de mulheres "a torcer" pelo Tó. Começavam a passar carros da volta,e não vencendo a ansiedade as pessoas gritavam "ainda vêm longe?" A resposta vinha sempre com um sorriso e entusiasmo,mas naquela volta foi diferente... uma voz ampliada por um microfone,fez-se ouvir com nitidez "rezem pelo nosso Tó"...E foi repetindo estas palavras que o carro do Sangalhos atravessou a Vila. As mulheres na bomba ajoelharam de imediato,e de mãos postas encetaram uma oração,logo interrompida porque se ouviu a sirene dos batedores e logo surgiu um grupo de ciclistas.Mas o camisola amarela não vinha ali.O que teria acontecido? Todos se perguntavam mutuamente.Entretanto novos silvos estridentes e logo todo o pelotão a boa velocidade... Olhos bem abertos,mas desilusão total; o Tó não passou.Já se falava em tragédia, tudo conjecturas,mas com certa razão... Passaram alguns minutos,e lá surge o Tó; sózinho,filado à biciclete a pedalar a sério,muito moreno do sol daqueles dias,e com um ar amargurado. Ainda vestia a camisola amarela,mas já a tinha perdido. A consternação era visível entre a população,após a passagem dos ciclistas.(Soube-se que não tinha sofrido queda e estava bem; parou para beber água,numa fonte na beira da estrada,facilitou,e depois surgiram uns precalços que o fizeram atrazar demasiado).Mas no dia seguinte voltou a alegria, pois na etapa contra relógio,com uma velocidade extraordinária para a época,o Tó recuperou o tempo perdido,a camisola amarela e ficou de novo em primeiro lugar.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Recado


Recordei a historieta dos compadres e a morte,uma espécie de brincadeira,mas que não foje muito à realidade... A partir de certa altura da vida, todos nós coleccionamos "avisos"; eu já tenho vários,mesmo sem ser comadre "dela"...
E como me deu para escrever sobre este teor,fiz umas rimas dirigidas ao meu mais que tudo,que como se depreende é o meu marido.

Recado

Quando eu morrer,mantém a calma:
Não penses em rezar,nem tenhas dó,
Eu não creio na existência da alma
Mas que a vida acaba e o corpo é pó.

Flores à minha volta,também não:
Elas são vida,merecem outra sorte,
Que não aquela,que é só ilusão
Méro capricho,ou hábito na morte.

Guarda para ti a minha imagem.
Morrer é natural,não há opção.
Eu tomo a dianteira,vou nessa viagem,
Mas tu irás também,noutra ocasião.

Comadre...


Há alguns anos estava eu a aguardar a minha vez para uma consulta médica, e ouvi uma historieta que achei engraçada.É em geito de brincadeira,mas no meu entender aponta o real.No entanto encarar o menos bom com um sorriso,também não faz mal...já dizia o grande actor Vasco Santana,"se tem que morrer que morra a rir"! Vou então recordar.
"Era uma vez"...
Um casal que vivia feliz e aguardava o nascimento do seu bébé.Cheios de esperança desejavam viver muitos anos, para criar o filho, os netos,e se possível os bisnetos,ansiavam mesmo ter uma vida longa.Mas como realizar tão forte desejo ? A esposa disse que ia pensar... E daí a dias informou o marido que já tinha uma ideia;ansioso logo se acomodou ao lado dela pronto para ouvir.Ela já decidira,iriam convidar a Morte para Madrinha do filho, ficariam assim com o laço de Compadres,e claro da parte da Morte sempre haveria uma atenção,ela não deixaria de os "avisar" com antecedência... E tudo aconteceu como idealisara; o bébé cresceu foi jovem,depois pai e também avô.Entretanto o tempo tinha passado e o casal já idoso,há muito que tinha queixas no que refere à saúde.Um dia, de surpresa a Morte apareceu,vinha buscá-los,estava na altura...O marido nada disse,mas a mulher argumentou: então Comadre Morte vem assim, sem nem sequer nos avisar? E a morte respondeu; sem avisar ? como assim? Há quanto tempo lhes estou a mandar avisos. Avisos ? responderam ambos sem perceberem... Então a Morte explicou ;há quantos anos começaram a sofrer dos ossos,a ver mal, a perder dentes,a cansar,a ter de parar ao subir ladeiras,a ver o cabelo a branquear,a pele a enrugar...estes foram os avisos que lhes mandei,e creiam que fui amiga,fui Comadre,mandei muitos,não tenho culpa da vossa distração. E indiferente porque tinha avisado, cumpriu a tarefa,que ali a levou.

terça-feira, 17 de março de 2009

Tó Barbosa, o Ciclista

Na passada sexta-feira dia 13/2 o Diário de Coimbra publicou um suplemento com uma entrevista dedicada a Alves Barbosa, que foi um grande ciclista,e que na conversa com a jornalista recordou alguns pontos marcantes da sua carreira de êxitos. Modesto como sempre foi, não fez alarde do seu valor,falou com naturalidade,igual a si próprio. Li com interesse mas acabei um tanto decepcionada. E porquê? Então o popular Tó nada recorda da sua terra adoptiva ?( Montemor-o-Velho ); desta terra,o tema apenas refere que actualmente ali reside. Sim é certo; e onde residia em 1951, e até ao fim de 1965 ? Durante a sua carreira de ciclista ele viveu sempre em Montemor,e com ele os Montemorences viveram em euforia as suas conquistas,e com apreensão os maus bocados que também os teve.Eu recordo quando ele foi excepção,vestindo a camisola amarela do inicio ao fim da volta,os Montemorenses homenagearam-no numa sessão solene no Teatro Ester de Carvalho, enaltecendo-o, todos vaidosos por ele... E quando daquele insólito acontecimento nos Carvalhos, já perto do fim da volta que ele ia ganhar,o agarraram impedindo-o de continuar,e por isso não ganhou;uma onda de tristeza atingiu os Montemorenses como se tivessem sido feridos colectivamente.E logo foi promovida uma recepção de homenagem a efectuar no dia do regresso a casa.Enfeitou-se a rua principal por onde ele iria passar, com flores de papel e colchas nas janelas.Compareceram todas as colectividades com respectivos estandartes,os ranchos folclóricos,pessoas importantes,e gente simples (ninguém se alheou).Foram esperá-lo ao limite da vila,e seguiram em cortejo a pé até à Praça da Républica onde na Câmara no salão nobre, foram proferidas as saudações, e discursos.A sala foi pequena,mas o sistema sonoro préviamente instalado,permitiu à multidão que enchia a praça,ouvir o que era dito,e até aplaudir (tal era o entusiasmo).Mais tarde o azar marcou-lhe encontro, e um grave acidente "atirou-o"para uma Casa de Saude com prognóstico algo reservado.Era o assunto do dia...os Montemorences entristecidos, manifestavam-se entre si,num misto de receio e esperança e sempre a incondicional estima. Depois da tempestade geralmente surge a bonança, o Tó recuperou a saúde,e continuou o seu percurso.Alguns anos depois em Dezembro de 1965,o povo voltou a juntar-se ! Mas desta vez para ver o Tó (mais feliz que nunca) saír da Igreja de Sta. Maria dos Anjos dando o braço à sua espôsa a Dra.Rosa Maria,no dia do seu casamento.E agora permitam-me,não merecia Montemor ter uma referência, mesmo pequenina, naquela entrevista ?

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Sobre a vaidade

A vaidade prega partidas terríveis à nossa memória.
Joseph Conrad

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Sexta-feira negra

Ontem o calendário marcava dia 13 e era sexta-feira.Embora a maioria da população não adira à superstição,é como aquela máxima acerca das bruxas:eu não acredito mas que as há,há. Penso que esta afirmação vem dos nossos irmãos espanhóis, mas nós também nos identificamos com ela. Porém é mais comum utilizarmos a palavra azar,(sexta -feira é dia de azar),e se for dia 13 pior ainda. Mas reparem,desta vez o azar foi mesmo facto! Então alguém contava com aquele "presente" que o Ministro das finanças nos proporcionou através da T.V. ? Só mesmo numa sexta 13,haveria tal brinde... E preparemo-nos porque em Março temos outra sexta-feira 13, e em Novembro quando estas já estiverem esquecidas,nova sexta -feira 13. É o ano dos azares? Eu não quero acreditar,mas contra factos,onde estarão os argumentos?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Serenata


Volto a falar do Montemor do meu tempo,pequenino,bonito sem dúvida,mas pobre,com caracteristicas de aldeia.Viam-se cães pelas ruas, galinhas,e até ninhadas de pintainhos: passavam o dia na rua de trás e na feira da madeira,e só à noite recolhiam a casa.Também era um modo de produzir algum dinheiro,pois as carências eram mais que muitas,e não havia subsídios.Assim as pessoas viam na possibilidade de ter "criação"um bem a aproveitar.(Tempos difíceis)
Existia a vala,curso de água que atravessava a vila,e que além de lavadouro,nela nadavam patos e gansos propriedade de vários residentes naquela zona; só vinham a terra quando o característico "liro,liro,liro"pronunciado em voz alta pela dona,e conhecido pelo grupo como sendo comida à vista, os fazia correr para ela; comiam com sofreguidão,para logo depois regressar ao seu paraíso aquático: à noite recolhiam a casa de livre vontade;excepção apenas em ocasiões de cheias quando a vala desaparecia, engolida por um estuário de alguns kilómetros;então ouviam-se ao longe os seus estridentes "quá,quá,quá, no silêncio da noite,e por lá ficavam assim como também os ovos "graúdos" das patas. Numa dessas cheias (grandes) em que a água cobriu toda a rua principal e também o muro que ladeava a vala,as bateiras (barcos de madeira) entraram ao serviço para a entrega de pão,artigos de mercearia, ou comprimidos para atenuar sofrimento.As casas do lado direito da rua,tinham saída para a encosta do castelo;as do outro lado tinham a rua de trás com mais água ainda,pois o pavimento era ligeiramente mais fundo. Havia a vala,separada pelo muro,e a paisagem das terras de cultivo divididas por vegetação alta e algumas árvores,mas agora só a água predominava.Estávamos numa ilha,e digo estavamos porque eu estava lá...e assim me sentia bloqueada,e até apreensiva.Os homens que assim vogavam naquelas "cascas de noz" para ajudar,nada cobravam,era um auxílio expontâneo fruto da situação; certamente que haveria alguma gratificação por parte de quem vivia melhor,mas o que era isso em relação ao bem que faziam... Aconteceu numa dessas noites estar um luar maravilhoso,(eu não sei se seria o luar de Janeiro),que se projectava nas águas e inspirou um grupo de rapazes a agir; no meio do silêncio só quebrado pela vara que impulsionava os barcos,elevaram-se vozes,cantando fados de Coimbra.Todos nós corremos para as janelas; os barcos avançavam lentos pelas águas ao largo, frente à Vila, e os fados sucederam-se um após outro, melodiosos como só a balada Coimbrã sabe ser.Durou bastante tempo a serenata,foi bonito o gesto daqueles jovens,ficou a recordação e posteriormente a saudade.
No dia seguinte a água tinha baixado um pouco,já estava a descoberto o cimo do muro (de suporte da vala),mas ainda impossível sair de casa,viriam de novo os barcos.Talvez"atraídos pelos fados," os patos acercaram-se das casas nessa noite e as patas poedeiras,colocaram os ovos em cima do muro,frente à minha casa;dois aqui, três além,ao todo eram 14;que rica fritada em prespectiva!Ainda era cedo e já vinha o nosso vizinho sr.Joaquim Ferreira num barco e perguntou:-É preciso alguma coisa? A minha mãe respondeu:-É sim; é preciso ir buscar aqueles ovos,são 14, metade para mim e metade para o sr.Joaquim levar p’ra casa. Ele logo efectuou a manobra, e ainda colocou os referidos num cesto,que preso por um cordão os içou para a minha janela.Durante alguns anos,quando a água subia,ele, a esposa e a minha mãe,entre sorrisos recordavam o facto,(único) pois jamais se repetiu.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O livro de receitas

Em Dezembro cozinhei uma lampreia e o facto teve honras de livro.Não sei bem os detalhes mas acho que foi uma iniciativa colectiva que reuniu receitas de diversas pessoas que têm blogs.Um dia a minha filha mais velha que não gosta de cozinhar,veio perguntar-me como se cozinhava o bicho feio,como ela lhe chama.Queria saber tudo,e até tomou notas.Depois é que me disse que era para um livro,que ia ser publicado na internet.Até telefonei à minha amiga Arminda para confirmar um pormenor.Depois ela traduziu para inglês.E no dia da preparação apareceu com a máquina fotográfica e fez a reportagem.O livro tem 38 receitas,e está à venda na internet.O produto da venda reverte para a caridade.Também vão sortear 1o livros,é ver aqui.E entre tantas receitas está a minha receita da lampreia!

Pode ser encontrado aqui:http://www.blurb.com/bookstore/detail/485233

A solução da adivinha"complicada"

Esperei,mas concluo que não querem dizer a solução. Refiro-me à ultima adivinha.
Não gostaram? Acharam mórbida? Pois é o inverso,querem saber?
Poderíamos chamar-lhe até, elementos necessários para variações... em dó, ou ré, ou...
Pois: são as 12 cordas da guitarra e os 5 dedos da mão.

Um conselho

Reflexão
Para conseguir efeitos grandes,e para levar a cabo empresas dificultosas,
mais segura é uma ignorância bem aconselhada, que uma ciência presumida,
(Padre António Vieira)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Terrivel mania

Hoje voltei às rimas,simples, coitadinhas,apenas para falar das minhas manias,que são muitas,mas por agora só conto esta:

Mas que terrivel mania
Eu fui encaixar na tóla,
De vir a acertar um dia
Nos treze do totobola.

E assim presa à quimera,
Lá fui jogando,jogando,
Mas acertar,quem me dera...
Será que acerto,mas quando?

Decerto nunca: que esperava?
A esperança me vai fugindo,
Mas que gostava,gostava...
O dinheirinho é tão lindo!

Mas não quero abandonar,
Tentar está-me no gôto...
Como este me está a falhar,
Vou mudar p’ró totolôto.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A paciência

A paciência faz contra as ofensas o mesmo que as roupas fazem contra o frio; pois, se vestires mais roupas conforme o inverno aumenta, tal frio não te poderá afectar. De modo semelhante, a paciência deve crescer em relação às grandes ofensas; tais injúrias não poderão afectar a tua mente.

Leonardo da Vinci

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Adivinha

Hoje não estou bem de saúde,por isso não vou escrever sobre recordações ou sonhos... Mas quero dizer que gostei dos comentários que deixaram para mim. Continuem,agradeço. Para a Lenita que comunga comigo as recordações do Montemor antigo, um beijinho.

A adivinha anterior refere-se aos livros,a resposta são as respectivas folhas.

E de novo outra adivinha:

Doze mortos estendidos
E cinco vivos lhes dão
Os mortos soltam gemidos
E os vivos calados estão.

O que é ?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Não há bela sem senão


Hoje é Domingo e, embora o sol já tenha feito uma aparição fugaz,nesta altura a chuva cai forte, mas é natural que faça frio e chova porque é Inverno.
Agora eu "não gosto"deste tempo escuro,torna-me mais melancólica ainda, mas há muitos anos atrás eu recebia o Inverno com boa disposição, e a chuva com alegria. E porquê ? Porque havia a perspectiva das cheias.A neve acumulava-se na serra e por vezes a chuva a seguir (que os mais velhos diziam ser morna)derretia a neve ,e aí vinha a água engrossar o Mondego que por sua vez alagava não só os campos,mas também alguns bocados da rua que atravessa ainda Montemor,e entrava no rés do chão da minha casa e nas outras.Não era muita água,por isso é que eu gostava,porque podia sair e andar descalça naquela água tão fria.Os adultos desejavam que ela fosse embora e quando eu ouvia dizer "já está a baixar",então é que eu ficava com pena.O tempo passou,apurou a mentalidade,e as enchentes deixaram de me fascinar,até porque ganharam maior volume,cobriam a rua inteira (do princípio ao fim),e impediam as pessoas de sair de casa.Instalava-se até uma certa apreensão e tristeza,especialmente quando a noite chegava. Tentava-se minorar fazendo um pouco de serão à janela conversando com as visinhas olhando a àgua e falando dela... uma a uma iam-se despedindo,ali ficava o silêncio,e dentro de casa um sono pouco tranquilo.E foi assim igual durante muitos anos,até ser possível alterar o curso do rio,e então acabaram as cheias.Não há bela sem senão,perdeu-se a beleza do rio,(sempre tão cantado por onde passa) perdeu-se a paisagem envolvente do Casal Novo do Rio,e a Vala que tão maltratada era,mas sendo um fio d´agua que atravessava a Vila podería ter sido aproveitada. Acabaram as cheias,na verdade não se pode ter tudo.

Sonhos politicos


Ainda não sei se sou ou não supersticiosa. Por vezes estamos convencidas que estamos acima disso e quando reparamos já não temos a certeza... mas a verdade é que nunca dei valor aos sonhos como sendo premonições.É raro lembrar-me do que sonhei,mas quando consigo, e o caso é fora de propósito, descabido,dá para sorrir...
Há uns dias atrás sonhei que caminhava para uma festa (não sei qual),mas devia ser importante a avaliar pela minha "indumentária".Vestido comprido de seda de côr clarinha,lindo,e pasme-se, quem me levava pelo braço? O dr. Ferro Rodrigues! Mas acordei durante o percurso... Ontem voltei a sonhar; os pintores tinham acabado de me pintar uma sala e eu fui ver como estava a obra; e quem é que eu encontro todo atarefado a colocar as sanefas de madeira? O engenheiro Sócrates... e ansioso pela minha aprovação, em relação à qualidade do trabalho...desta vez até ri alto!
(Querem ver que nalguma outra vida anterior eu era mulher de algum ministro ? )

Bordado à máquina


Desta vez um naperon bordado à máquina...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O Carnaval dos anos 50


No Domingo e Terça-Feira Gorda as raparigas evitavam sair à rua porque os rapazes empoavam-nas.Esfregavam-lhe a cabeça com farinha deixando o cabelo fortemente empoado, a necessitar lavagem imediata.Eles entravam mesmo nas residências,era permitido,era tradição.As raparigas trancavam as portas,e gozavam-nos das janelas,mas por vezes os mais ousados iam buscar uma escada de mão,subiam, entravam e empoavam.Elas barafustavam e eles saíam triunfantes dum acto que só o Carnaval permitia.Animação na rua,era nada... apareciam uns mascarados desgarrados,agora dois,mais tarde outros tantos,um grupito,vestidos de andrajos,casacos d´homem voltados do avesso, abrigados com um chapéu de chuva todo deformado,a cara escondida por uma renda branca,e na cabeça um chapéu de feltro velho,ou um lenço já transformado em trapo.Percorriam as ruas proferindo uns sons guturais,acenando para as pessoas que se encontravam nas janelas.Ficavam felizes por não serem reconhecidos,e assim se divertiam.A nota mais graciosa eram as crianças,vestidas com trajes de fantasia; Nazarena,Gandareza,Minhota,
Lavadeira,Madeirense,Holandeza,Boneca,Tricana de Coimbra,e outros.Os meninos vestiam-se de Palhaço ou Campino.Passeavam-se em grupinhos e dançavam,danças de roda,tudo expontâneo como só as crianças sabem ser. E o Carnaval era isto ou pouco mais.Mas o ponto alto era o baile à noite,no Teatro Ester de Carvalho.Não era possível dançar bem porque o espaço era curto,mas entre encontrões e pedidos de desculpa,todos se divertiam, sob o olhar atento das mães que acompanhavam as filhas, e aguentavam penosamente até ao fim do baile sentadas,o barulho da orquestra e o calor,porque a afluência era muita e não havia ventilação.Num desses bailes no Domingo Gordo,depois da Orquestra Serra e Moura ter tocado e os pares dançado várias vezes,estando tudo animado,um membro da orquestra acercou-se do microfone e pediu silêncio,porque queria fazer uma comunicação importante.
Alguns dos presentes pensaram numa má noticia. Queria informar que tinha sido encontrado ali um objecto de valor e seria entregue a quem o reclamasse,provando que lhe pertencia.As raparigas afagaram de imediato o seu fio ou alfinete d´ouro,certificando-se da sua existência: os rapazes além do relógio de pulso nada mais usavam.O baile continuou e instalou-se a expectativa:o que seria que tinham encontrado? Pelo modo era coisa de valor,dizia-se em voz baixa...
Mais apelos iam sendo ouvidos,e agora já com mais pormenor: "Queremos entregá-lo ao legítimo dono,só terá de provar que é mesmo seu.Eu penso que nenhum de vós vai dizer que é vosso sem ser,até porque está aqui a Autoridade,a Guarda Republicana..."E os guardas deram dois passos em frente ! (Gostaram da referência.) O baile aproximava-se do fim,chegou o momento tão ansiosamente esperado: "Como até agora ninguém veio reclamar o objecto,que é de valor,eu vou mostrar.O dono vai aparecer porque ao vê-lo conhece logo que é seu,mas não se esqueça,tem de provar que realmente é. (Quem assim falava era o Germano.)
O espaço entre ele e o público era cada vez mais diminuto,todos ansiosos empurrando-se para verem bem de perto.Então ele com uma expressão muito séria,exclamou:O objecto é este! E erguendo bem alto o braço mostrou na mão uma enorme pinha de pinheiro bravo. Ouviu-se um "oh" de espanto e decepção,e toda a multidão masculina que hà pouco se acotovelava,recuou subitamente em silêncio...As espectadoras sentadas soltaram em uníssono gargalhada geral ! Ele mantinha-se firme no palanque da sua Orquestra com a pinha na mão,e sem se rir ainda perguntou:Então não pertence a ninguém? Têm vergonha de a vir buscar? Então aí vai ela...e atirou-a para o meio da sala. Alguém a apanhou. A dança recomeçou com o habitual passo-doble que finalizou aquele baile, que hoje gostei de recordar.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Uma nova adivinha

Quais são as folhas que não crescem
mas fazem crescer?

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Quinto andar


Vivi em Montemor (minha terra) durante mais de vinte anos,e sempre na mesma habitação,até ao dia em que casei e fomos viver na nossa linda capital Lisboa.Foi a primeira vez que mudei de residência,e posso confessar que mercê das circunstâncias,eu adorei a minha nova casa,até porque era um andar semi-novo num prédio moderno e numa rua com movimento. Volvidos alguns anos mudámos não só de casa mas de cidade,instalámo-nos em Braga.Aí conheci mais duas residências,e julguei que seria aí que acabaria os meus dias(e as mudanças)mas não,pois quando menos esperava estavamos a caminho da Figueira.Nova casa portanto, mas aqui com um pormenor agradável-casa própria.Daí a uns tempos começámos a pensar numa outra casa talvez uma vivenda,e procurámos, mas acabámos por optar de novo por um andar,maior e com outras comodidades.Vimos crescer o prédio,fizemos algumas escolhas que foram atendidas,ficou pronto e fomos habitá-lo. Ó triste realidade,eu que tanta vez tinha mudado de casa sem sentir mossa,desta vez detestei o andar! Eu não gostava de nada,tudo me parecia mal,o meu desejo era sair daqui.No íntimo como que envergonhada do meu pensar,eu dizia a mim própria "quantas pessoas querem uma casa pequenina e não a têm",e ficava a censurar-me... sofri,sofri mesmo,feita tola. Quando já "estava melhor"fiz estas rimas,e hoje que"estou curada"escrevo-as a rir...
Confissão

Mudei-me para o novo quinto andar
E passei a viver cá nas alturas
Custou-me mesmo muito a habituar;
Olhar pela janela fazia-me tonturas...

O ser humano a tudo se habitua
E a minha pessoa não será excepção
Já não fico perturbada ao ver a rua,
Nem ao pensar a que distância estou do chão.

Mas recordo o desânimo e o medo,
Que me assaltavam na noite e madrugada,
Tudo se conjugava p´ra meu desassocego;
Até no elevador fiquei trancada!

Aos poucos vi então tantas belezas
Que só do alto os olhos podem ver:
Mas que saudade das casas portuguesas
Que nas aldeias ainda hão-de haver!

Sem grandes escadas,sem elevadores,
Com amigos que lá são os vizinhos;
Canteiros às portas,muitas flores,
Pássaros trinando;e nos beirais,os ninhos.