quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A festa das eleições


O advento das eleições quer das legislativas quer das autárquicas, é uma espécie de carnaval; diz-se tudo (ninguém leva a mal) manifesta-se estima a rôdos com beijinhos e abraços,tudo ao faz de conta,porque bem sabemos que a amizade não se sente por cada pessoa que casualmente encontrâmos,e que nem conhecêmos,portanto lá está a continuação do carnaval,fora da época... As televisões ajudam e muito,porque práticamente só falam de eleições,e todas em simultâneo. É o antes,é no durante,é no depois... é cá um tratamento intensivo... que naturalmente deixa marcas,e a verdade é que é isso mesmo que se pretende,que a "injeção" produza efeito.Mas a verdade é que esta alienação,(perdoem-me o termo) também tem o seu mérito: animado pelo folclóre, o povo parou de pensar nos problemas que o afligia,e até na epidemia prometida,( e muito"badalada") ! De boa vontade relegou o fantasma da gripe,quase se esqueceu de lavar as mãos,animou-se,e entrou na festança ! E até foi feliz... depois como no carnaval,em que tudo acaba na quarta feira,também concluídas as eleições acaba a euforía, vão para o lixo as bandeiras,os políticos já não distribuem saudações em profusão,nem esporádicas sequer! Bastam-se a si próprios agora.
E o povo fica só, resta-lhe ainda a esperança!
De esperança também se vive,qualquer dia há mais....

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ainda o chouriço de Quiaios...


Apesar de no dia de ontem ter sido feriado,não li nenhum jornal.Ao meio da tarde decidi não trabalhar mais,afinal para quê só parar à noite? O trabalho doméstico é análogo à Fénix,não renasce das cinzas, mas existe e nunca acaba,é um safádo porque não é visivel,e é pouco valorisado.Diriji-me ao sofá,sentei-me o mais comodamente possível,acompanhada de outro livro de Paulo Coêlho, e durante umas duas horas saboreei aquela escrita simples,que dispõe bem sem ser necessário pensar muito.Sim porque às vezes pensar,também enfada...
Este arrazoado todo para justificar o adiamento da leitura do jornal... não era necessário,mas eu sou assim,"massadora comigo própria": hoje lá fui cumprir o ritual,primeiro a necrologia,depois tudo o mais...e para minha surpresa já vinha a noticia da inauguração e fotografia do monumento ao chouriço de Quiaios.Talvez esteja bonito,mas pelo jornal é dificil perceber. No entanto esta iniciativa positiva,que visa homenagear a população,especialmente (os) ou (as) artistas chouriceiras, por terem criado um artigo rico de qualidade,êsses sim é que merecem o louvor! Portanto no meu entender (e não sou de Quiaios) devia ser assim -
"Monumento Aos Artistas Chouriceiros de Quiaios"
Pela Arte Com Que Produzem o Inconfundível Chouriço de Quiaios!
(não sería melhor assim do que "monumento ao chouriço?........" )

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O chouriço de Quiaios


Voltei as costas a tudo,e entrei no carro com o meu marido rumo ao Algarve.Com algumas excepções,este ritual acontece há mais de vinte anos,sempre para a mesma praia Armação de Pêra.Já visitámos outras, mas nunca rejeitámos esta:ou somos conservadores ou comodistas,ali já sabemos tudo de cór,conhecemos as pessoas e nos conhecem,aquela familiaridade é algo que nos prendeu. Assim pelo meio da tarde instalámo-nos,a residência também já faz parte de nós,e por este andamento nota-se que as férias são apenas sinónimo de malandrice,nada de novo, e começo a perguntar-me se continuo a gostar de ir e estar,ou se pelo contrário isto apenas faz parte da rotina de cada mês de setembro... Mas tudo vale a pena diz o povo,quando a alma não é pequena... e quando acontece a viagem de regresso e se entra na nossa residência habitual,a nossa casa,que sensação agradável,até parece que a casa é mais bonita. Bem retornei aos meus hábitos - fui ler os jornais que a minha filha tinha colocado diáriamente sobre a secretária,para nós.Eu tenho um hábito mórbido (segundo ela) de ver em pormenor a necrologia,mas isto é crónico,nada há a fazer. Depois leio os textos do Fala o Leitor,os artigos dos colaboradores habituais,e das noticias leio só os titulos... No entanto um desses titulos prendeu-me a atenção pelo excêntrico (quanto a mim) do projecto... E era assim mais ou menos: Quiaios vai erijir um monumento (ou estátua) ao chouriço ! Eu sempre vi em cada estátua erguida, uma homenagem a alguém superior,que pela sua arte, ou bondade,santidade,patriotismo,trabalho,etc,mereceu ficar perpéctuado,portanto jamais esquecido.Também de acordo com algumas regiões do país,encontrâmos estátuas representando animais, no ribatejo é o touro e o cavalo, em Setúbal os golfinhos,e haverá mais... mas duma forma geral uma estátua (salvo excepções) é uma obra bonita,mercê da sensibilidade do artista que a cria,e lhe dá forma o mais real possível. E a estátua ao chouriço como será? Só uma argola ? Ou várias agrupadas... O autor terá de se esforçar, porque o chouriço de Quiaios não tem beleza nenhuma..."o que ele tem é um sabor que supéra e muito,o seu aspecto sem graça."

domingo, 6 de setembro de 2009

Apatía ou malandrice ?


Hoje é Domingo. Acordei dominada por uma perguicite absoluta,que me priva de tudo...afazêres,olho-os com desdém como a dizer-lhes (se eles entendêssem),façam-se a vós próprios e deixem-me em paz... Lêr ? hoje também não,seria ofender os escritores,fazê-lo como antíduto... Escrever em papel às amigas que me restam,e a quem devo noticias? isso ainda menos, não há paciência mesmo.Decididamente hoje estou a ser condizida pelo não, em tudo e por tudo.Resta-me o computador, que ao contrário de todo o resto me conquistou de alma e coração,como sói dizer-se,é mais um amor (em sentido figurado claro)pois eu tenho outros,enormes, são os meus muros de apoio,verdadeiros,enquanto este é uma paixão virtual,mas que me atrai,e me proporciona mais uma realização pessoal. Ólho o relógio e penso,contra factos não há argumentos...tenho mesmo de ir fazer o almoço,os amores de verdade,não fazem jejum,não apreciam...

O Museu de Cordofones em Braga


Eu penso que já deixei transparecer o meu apreço pelo norte do nosso País.Gosto imenso do Porto,e mais acima todo o Minho,para mim é um encanto.Porém em simultâneo tenho de me penitenciar,admito ser exagerada ás vezes,porque quando se gosta,não se vêem defeitos.Vem a propósito (ou não) dizer que neste passado fim de semana,nos dirijimos a Braga para vivermos em festa o aniversário dum amigo,de longa data,que nem a distância nem os anos que nos separáram,fez com que o esquecimento se instalásse.Oitenta anos é um bonito rol,e quando a saúde não se degráda,ser velho é um privilégio.Chegámos cêdo,e para não irmos de imediato para o palacete onde teria lugar toda a festa,encostámos à beira da estrada,tirando partido da sombra acolhedora.Ao sairmos do carro verificámos que a sombra era produto duma grande figueira com figos; tentação!... logo soaram vozes de perto,"apanhem,apanhem",são bons! E da vivenda ao lado vem um Sr.simpático,bem vestido,que nos pergunta se querêmos uma escada,estava ali à mão... (era o dono) não pudémos deixar de comentar "isto só no Norte"... não aceitámos a escada,mas comemos figos. De novo no carro já com o motor a trabalhar,reparo na vivenda e leio MUSEU DE CORDOFONES... fomos vêr ! Entrámos,e quem nos recebeu ? precisamente o Sr. que havia oferecido a escada, o dono dos figos,que é o proprietário do Museu e um artista na confecção dos instrumentos de corda,conhecido em Portugal e no estrangeiro.Ele próprio conduziu a visita dando informações acerca dos instrumentos, das madeiras utilisadas,da madrepérola que decora alguns,e um sem numero de pormenores técnicos,que nos prenderam a atenção de forma positiva.
Alinhadas em vitrines podemos observar violões,guitarras,bandolins,violas,cavaquinhos,enfim tudo o que de corda existe,antigo ou contemporâneo ali está.Trata-se de um Museu diferente,gracioso, agradável de percorrer e apreciar.Gostámos muito.Foi o acaso que ali nos levou,ás vezes é assim...

Este artista português,chama-se Domingos Martins Machado.
O Museu referido situa-se em TEBOSA-Braga (telefone 253673855)
Se não puder ir visitar,ao vivo poderá optar...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Simplesmente Mulher!


" Recordar é viver" sempre ouvi e não discordo,mas não será antes recordar é reviver,(voltar a viver algo que nos marcou,pela alegria ou pela dôr) acontece quando a mente nos trás "o filme"... Reviver,gosto mais ! Bem,mas não foi para falar dos meus gostos gramaticais (talvez descabidos), que hoje estou a premir as teclas...
Volto ao meu Montemor,para falar dum caso ligado ao seu Hospital,isto nos anos cinquenta.Era a unidade de saúde que havia,e todos ali acorriam quando a saúde assim o exijia.Um dia foi ali internada uma jovem,que era orfã de mãe,e vivia com as duas Tias que a tinham criado,e que lhe queriam como filha.Ela era bonita,educada e ingénua.Rápidamente as Irmãs de Caridade a cativaram para que ficásse no hospital a trabalhar.Restabeleceu-se e aceitou a oferta.Não tardou a vestir a farda amarelinha,de ajudante,que tão bem lhe ficava.As Tias não desgostaram,embora não dessem consentimento para que aquele emprego fosse definitivo,seria apenas temporário,assim,durante o tempo mais frio. Ela movia-se alegremente na sua nova vida, as tias iam vê-la quando queriam,e pensavam"qualquer dia ela vem embora"!
Porém,um dia quando a tia chegou ao hospital para a vêr,ela já lá não estava.Ansiosa,aflita fez perguntas,mas a resposta embora delicada foi lacónica;tinha aderido à Ordem a que elas pertenciam,e que daria noticias.A Tia voltou para casa cheia de lágrimas,e de lágrimas foram os seus dias e noites,durante muito tempo.A outra Tia secou-se-lhe o pranto com a revolta e a raiva que passou a acalentar contra as Irmãs de Caridade,em especial à Sra.Superiora que era quem mandava:e fazendo paralelo com São Cipriâno,enquanto Bispo Maldito,repetia em modo pejorativo:- a culpada é aquela Sra.Cipriâna ! - Aquela Cipriâna é que a iludiu,ao ponto de ela nos deixar! Esperaram noticias em vão,e decidiram elas escrever,mas para onde?... depois de muito implorarem lá conseguiram que a Sra.Superiora aceitásse uma carta,para lhe enviar... será que enviou? nunca ninguém soube,resposta não veio. Magoadas,tristes,e desiludidas,sentiam que não voltariam a ver a sobrinha,e lentamente foram-se resignando. Ao fim de muitos anos mandou uma carta com "meia duzia de palavras",e calou-se de novo. Noticias nunca mais. E o tempo passou...
Numa tarde fresca e soalheira, pára um táxi em determinado ponto da rua principal da Vila; dele sai com alguma desenvoltura,uma figura vestida com o hábito igual ao de Superiora do nosso hospital; era ela, vinha só,ainda bonita apesar do tempo que passara. Para as Tias agora já idosas,esta verdade parecia-lhes um sonho,um sonho lindo.Ficaram a saber que ela estudou,aprendeu bordados e rendas,arranjos florais,musica,e tocava orgão... viajou,residiu em Espanha e na Ilha da Madeira,sempre dentro dos limites impostos pela Ordem,e decerto se sentia feliz.As Tias estavam contentes,julgavam que ela vinha de férias,e agora já aceitavam a separação com naturalidade,pois só o bem estar dela lhes interessava.Porém (o coração tem razões que a razão desconhece) (afirmou quem sabia ! ) - " O Cupído apontou a seta, e acertou"... A "freira" estava apaixonada !
No dia seguinte ao da sua chegada, foi à Igreja interpretar no orgão algo de que gostaria em especial,e envergava ainda o hábito,mas ao regressar despiu aquelas vestes para sempre. Deixou de ser freira,passou a ser, simplesmente mulher !

sábado, 29 de agosto de 2009

As Irmãs de Caridade


Hoje volto a recordar algo de Montemor...
Nos anos 50 havia em Montemor um hospital;o edificio rés do chão,com Capela ao meio, situava-se dentro dum jardim cuidado com esmero pelo jardineiro;tinha um lago com peixinhos vermelhos, debruado de pedras toscas,onde cresciam em profusão as avencas sempre verdes,refrescadas pelos fios d’água dos repuxos. Três portões de ferro altos elegantes (sempre abertos) e paredes encimadas com vedação em ferro trabalhado,limitavam o referido.Do lado de fora quatro bancos decorados com azulejos antigos, um passeio largo a todo o comprimento,e aqui estava o local aonde se ia passear ao Domingo.Hoje neste edificio devidamente adaptado está instalado um Lar,ou melhor dizendo uma casa de repouso.
Mas voltando ao antigamente,o pessoal de enfermagem era constituido por Irmãs de Caridade,as Irmãsinhas como eram tratadas,apoiadas pelo médico Municipal,(médico dos pobres);ainda a Senhora Superiora,duas creadas e o jardineiro,que era também enfermeiro nas enfermarias dos homens. As Irmãsinhas pertenciam a uma Ordem religiosa,e o seu trabalho não era remunerado,era uma vida de semiclausura praticando a caridade a favor do próximo,por amor a Deus. Deixavam a familia definitivamente,eram mandadas para longe,e por vezes transferidas,quando já tinham criado laços afectivos.Ali passavam os dias,nunca saiam do edificio,ouviam missa na capela,linda,que elas próprias zelavam.Cuidavam dos doentes,dos pobres,e naquele momento unico em que a vida finda,eram elas que lhes"fechavam os olhos",que os vestiam pois dali saíam para a viagem sem regresso;e se calhásse alguém fazer comentário em geito de elogio,a resposta vinha com simplicidade,nascemos para isto,estamos habituadas.O povo não esqueceu algumas destas Irmãs que foram referência,e que estiveram muito tempo no nosso hospital,e deixaram Montemor por imposição superior como era hábito. Recordavam-nas, falavam nelas com gratidão,ternura, e saudades.
Saudades nunca mitigadas devido ao estatuto da Ordem,que elas decerto de boa vontade abraçaram.Eram assim as Irmãs de Caridade! (as Irmãsinhas)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

As minhas dúvidas


Quando iniciei este blogue,eu disse que ia "falar" de Montemor,das minhas birras,das muitas manias que arrasto,enfim do que me viesse à ideia,e realmente assim aconteceu,mas actualmente só tenho visitado outros blogues,"botando palavra" ás vezes,e assim tem passado o tempo. Também o último livro que adquiri me tem aprisionado aos serões.Contra o habitual,pois gosto de ler devagar,este tem sido consumido como se se tratásse dum vício. Foi a primeira vez que li Paulo Coelho,e fiquei cliente... Tinha acabado de ler uma colecção ( Mestres Espirituais) e embora a tivesse apreciado,ao começar a ler A Bruxa de Portobello que é romance,foi como uma brisa fresca depois duma tarde quente... Eu li aqueles quatro livros,ou melhor,eu estudei-os;li e reli,porque ainda ando à deriva quanto á perspectiva da vida eterna. E pergunto-me, mas imortalidade para quê? Não é muito mais lógico e tranquilizador,o sono do qual não se acorda? Eu tive educação religiosa,mas com o passar dos anos surgiram as dúvidas,as perguntas sem resposta (estes livros também não me ajudaram) porque a fé não se pode explicar, sente-a quem a tem...

terça-feira, 21 de julho de 2009

As quatro estações

Primavera

Sabeis quem sou? - Primavera;
riso do ano;quimera
feita de luz e de flores!
É tamanho o meu poder,
que até no peito da fera,
que é fera,semeio amores!

Por saudar-me,o Céu veste
do mais puro azul celeste
salpicado de estrelinhas!
Brilha o Sol com mais fulgor,
foge,corrido,o nordeste,
visitam-me as andorinhas!

Estio

Da Primavera sou filho.
Chamo-me Estio,e perfilho
as intenções da mamã!
Ela fecunda,e eu crio;
dou forma ao trigo e ao milho
e adoço a verde maçã!

A todos dou agasalho!
Sou capa de órfãos e espalho
por toda a parte alegrias!
Imponho tréguas à dôr,
canto louvores ao trabalho
e ao pão de todos os dias!

Outono

Eu sou quem parte e reparte,
com equidade e com arte,
o prémio do bom labor!
Dou alento a pobre e a rico
e faço que em toda a parte
reinem a paz e o amor!

Sucessor do quente Estio,
tenho, também o meu brio,
meu valor,minha magia!
Nas colheitas,nas vindimas,
há cantares ao desafio,
há mil estos de alegria!

Inverno

Chama-me o rico - O Inverno;
o pobre chama-me Inferno
feito de agudas tristezas.
Sou frio, ásp’ro,severo,
e,contudo,o Padre-Eterno
quis que eu tivesse belezas!

Deu-me as festas do Natal,
Deu-me os Reis,o Carnaval,
deu-me os serões em familia...
Como vêdes,não mereço
que me queiram nenhum mal
nem por mim tenham quisília!

Autor - A.Serra e Moura
(em Outubro de 1926)

E quem era Serra e Moura?
Vivia em Montemor-o-Velho nesta data,penso eu...
Escreveu estes versos (a que deu o nome de As Quatro Estações) numa tira de papel almaço, e ofereceu-os ao meu pai que os guardou.Muito,muito,mais tarde é o meu pai que mos mostra e oferece,e que eu guardo também.Hoje,ao reler esta poesia,ver a letra "desenhada"que se usava na época,o papel já amarelecido,mas conservado,e saber que 82 anos passaram sobre este trabalho,decidi colocá-lo no blogue.Quero dizer que transcrevi na integra,exactamente como o autor escreveu.
Eu serei uma exagerada,talvez valorize,sem motivo... "é pouco mais que um papel com 82 anos"... dirão os mais práticos! E terão razão também! Mas para mim,tem o valor que eu sinto. Só lamento,não saber quem foi Serra e Moura.

"Montemorences,quem era Serra e Moura ?"

domingo, 19 de julho de 2009

Diálogo


A Lua já não era visível.As estrelas confundiam-se com a claridade do alvorecer,amanhecia.O sol subia no horizonte e afagava os ornatos superiores do maior edifício de Montemor-o-Velho - os Paços do Concelho.O sol chamou-lhe Palácio e enquanto o acariciava com o seu calor e despertava para mais um dia,disse-lhe:
- Sabes Palácio,tenho pressa em iluminar-te,sabes porquê?
- Não,diz-me...
- Porque és bonito! És um Palácio soberbo!
- Gosto do galanteio - retorquiu - eu já tenho muitos anos,estou de pé desde 1892.Já vivi muito,tenho muitas recordações,boas,menos boas e,saudades.Mas os teus elogios não apagam as minhas mágoas...
- Mágoas? Tu?! - inquiriu o sol - queres desabafar?
O grande palácio,um tanto austero,tomou então da palavra com uma calma triste:
- Esta Praça,que se chama da Républica,está mais desolada que um largo duma pequena aldeia remota.E no entanto,tem um desenho tão belo,dela até se vê o Castelo,que é a coroa da Vila ! Mas tão árida,nem uma flor,nem uns jactos d’água que a enfeitem,nem população,apenas um largo,que tristeza...
- Ora,Palácio,são os efeitos da crise,que há-de terminar... Não! O que te digo é anterior à crise.Sou velho mas ainda consigo destrinçar. Aos domingos e dias feriados esta Praça é sinistra de tão vazia. Nem calculas a tristeza que me invade nesses dias.Nem um restaurante,nem um café aberto...Lembra um suicídio colectivo,um êxodo total! É então que na minha solidão recordo o passado,quando os bancos à minha porta eram poucos para os trabalhadores que aí se sentavam para descançar e conversar,nas tardes de domingo! Nos passeios que me contornam,acomodavam-se também as mulheres que vendiam tremoços e castanhas,e os engraxadores com a respectiva caixa para o seu trabalho. Formavam-se grupos,que falavam,havia vida... No café Girão,pequeno mas acolhedor,os homens preguiçavam na explanada sobre o passeio,enquanto o empregado,(o Manel do Café),impecável no seu casaco branco e no seu trato,os servia incansável.Será que ainda vive? Mesmo na minha frente,o Café Mondego,pequenino,o Café do Henrique,o inventor das Espigas Doces,essa delicia!
- Um inventor? Em Montemor?
- Há! Sim,ele devia ter lido o Fernando Pessoa - "quando Deus quer,o homem sonha,a obra nasce!" Sonhou e tornou realidade um doce para Montemor,como era então conhecido.Que saudades desses tempos.O meu coração de velho não esquece,nada me alegra...
- Queria animar-te,meu amigo.Mas as minhas histórias são iguais às tuas.Como sabes,eu,um amigo dos turistas,vi há tempos um carro cheio deles quedar-se à entrada da Vila para as fotografias da praxe ao magnífico Castelo.Depois dirijiram-se para o centro da Vila.Era Domingo e tudo estava fechado.Deram meia volta.Segui-os num dos meus raios até Tentúgal,onde se sentaram a uma mesa de café a saborear pastéis e queijadas.
- Não digas mais...
- Voltas amanhã?
- Claro,todos os dias!
- Mas promete-me uma história mais feliz....

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Ser Honesto parece mal ?


Eu não sei se foi sempre assim...porque a tentação e o pecado,vêm já da noite dos tempos. Também a informação era deminuta,e "amordaçada"...Por isso é dificil para mim tentar a comparação com o ontem e o hoje. Mas fico admirada com o numero de figuras da alta sociedade,a viver mais que desafogádas,e nem assim "arrumam" a ambição desmedida! Parece que só o dinheiro lhes interessa, venha donde vier! Não é aquele dinheiro"ganho com o suor do rosto"porque esse nunca é muito... E muito é que dá conforto ao corpo,e sobretudo ao ego! Retiram do pensamento palavras cujo significado passou de moda (respeito,honra,palavra,dignidade,
vergonha,seriedade)...e, vivem felizes ! O silêncio é cumplice,tudo são rosas! Mas um dia lêmos e ouvimos,corrupção,fraude,importâncias enormes desviadas, perdidas, e os nomes dos personagens envolvidos,e ficamos atónitos com a revelação,quáse incrédulos perante a falta de dignidade e respeito,pelos outros e por si próprios.
É então que os mais velhos usam a expressão "o mundo está cada vez pior"...mas eu permito-me contrapor com as palavras do poeta brasileiro,que diz : O MUNDO NÃO É MAU,NÃO É RUIM ; A GENTE É QUE FAZ O MUNDO ASSIM !
(neste caso eles,os prevaricadores)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Voando a Sonhar


Já algumas vezes ouvi dizer "quem não aparece esquece"!
Quem sou eu para negar afirmação tão enraizada... Se calhar é certo, e o melhor é aparecer.Então cá estou eu,desta vez com mais umas rimas (despretenciosas).

Recolhi-me cêdo
P’ra ir descançar
Só que o meu sossêgo
Foi só a sonhar.

Sonhei que voava...
O ar me impelia,
Do alto eu mirava,
E subia,subia.

Subindo ligeira,
Como águia ou afim,
Fui aventureira,
Esqueci-me de mim.

Qual ave perdida
Pelos altos cèus,
Voei decidida
Cheguei até Deus...

Ninguém lá chegou:
E eu não sou excepção.
Meu sonho acabou,
Voltei à razão.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Crianças a apanhar lixo na praia


Isto também podia ter sido um sonho,mas não foi,é real "infelismente"...
Diáriamente leio o Diário de Coimbra e ali encontrei algo que me deixou pasmada.Crianças dos jardins de infância, numa acção de recolha de lixo nas praias de Mira.Igual acontecimento em Montemor;aqui a apanha dos detritos foi na via pública. Os responsáveis realçam o facto como positivo,"foi tudo de boa vontade"e as crianças aprendem que não se deve sujar o ambiente. Pois ! E para isso, para ensinar, é necessário sujeitar as crianças a esta porcaria ? Sim, porque são pequenas e não sabem proteger-se; na sua inocência andaram expostas a perigos no que refere à sua saúde,e admiro-me também que os familiares consentissem num programa destes.As escolas já não são o local onde se ensina ? Não chega a palavra ? Faz-me lembrar aquele epitáfio "AQUI JAZ UM HOMEM QUE ACENDEU UM FÓSFORO PARA VER SE O BIDON TINHA GAZOLINA" (e tinha...)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

A Procissão que eu não vi


Já faz algum tempo que não escrevo,nem pouco nem muito; e contudo escrever como ler, é um dos meus passatempos favoritos,mas a perguiça ganhou vantagem e até as cartas para as amigas estão em atrazo; "isto é mau"... mas hoje resolvi contrariar a apatia e recordar.

Eu tinha uma meia irmã com idade para ser minha mãe, que residia no Barreiro com os filhos,era divorciada e operária fabril na C.U.F. no tempo em que esta emprêsa "era um mundo" com milhares de trabalhadores,os quais tinham algumas regalias,nomeadamente férias,(estavamos em 1950).A minha irmã como montemorense que era,vinha passar esses dias à nossa terra,na minha casa.Era ainda nova e como tal,alegre.Numa dessas estadias entre nós,que eu nos meus 13 anos adorava,ela desafiou a minha mãe para irmos à festa da Raínha Santa a Coimbra,à procissão do dia. Da ideia passaram á prática,fizeram o farnel e no dia seguinte logo de manhã lá vamos nós para o apeadeiro apanhar o combóio,ainda seria uns 40 minutos a andar a pé,o que para nós miudos (eu e o meu sobrinho da minha idade)foi uma festa, assim como a viagem de combóio á janela.Chegámos cêdo,vagueámos pela cidade,comêmos calmamente no Parque,e como a minha irmã queria ir á Igreja de Sta.Clara,rumámos nesse sentido.Um calor infernal,e nós a pé, ponte fora porque ela enjoava no troley; nunca mais me esqueci da ladeira de Sta. Clara... Depois das orações na Igreja,caminhámos e achámo-nos no claustro
onde pequenos grupos de pessoas descançavam sentadas no chão.Nós fizemos igual,tinhamos de arranjar força para voltar à cidade. Daí a pouco surge um Padre, dirije-se a um dos grupos ,fala em surdina, e as pessoas erguem-se de imediato e caminham mas com energia,os outros grupos seguem-nas,e dum instante para o outro já era uma multidão que avançava cada vez mais rápida,o que fez rir a minha familia,pois não percebiam aquele levantamento.
Não demoraram muito a dar a volta ao claustro,e quando alguém tentava juntar-se à cabeça da fila,o Padre feito sinaleiro de braço estendido gritava, não,não,têm de ir dar a volta primeiro! Finalmente lá chegou a informação; nesse ano estava exposta a mão da Raínha Santa,e tinha começado a visita.Lá fomos também dar a volta "da ordem"no meio da multidão que já não tinha ordem nenhuma,nem silêncio sequer. Mas o pior era entrar nos acessos ao altar-mor onde está o túmulo com o corpo desta Santa.São muito estreitos,e escuros,e a multidão estava ali comprimida e sufocada com calor: então a minha mãe não aguentou,sentiu-se a desmaiar,e só queria sair dali depressa,e aflita gritava,deixem-me sair,deixem-me sair... eu morro aqui ! As pessoas mostráram compreensão,mas foi muito dificil chegar á "liberdade"... Voltámos ao claustro.(não vimos a mão da Raínha) Acalmados os nervos com descanço e um copo de água oferecido por mão piedosa,regressámos á cidade novamente a pé, com o propósito de ver passar a procissão.Ficámos nas imediações das Escadas de São Tiago,por ser mais rápido o acesso para o combóio,e esperámos... nos passeios dos dois lados da rua a multidão era um facto, mas tudo ordeiro e respeitoso; mas há sempre alguém diferente... aproveitando o aglomerado de pessoas,um rapazote passou rente e deu um beliscão á minha irmã;ela rápida prega-lhe um valente murro nas costas,acompanhado de censuras: logo as pessoas á volta tomam o partido dela e fazem côro de protestos,e lamentam não o terem agarrado... entretanto o tempo passava,e procissão nada de sair.Já se viam pessoas a consultar o relógio porque o combóio não esperava:connosco era igual teríamos de regressar de dia,havia ainda a estrada do apeadeiro depois do combóio,os tais 40 minutos a pé.Até que finalmente ouviu-se uma voz ,lá vem agora a procissão; esperámos e de facto eu vi e recordo; os bonitos cavalos e cavaleiros devidamente trajados que dão inicio á procissão... E foi tudo,porque de seguida "corremos" para o combóio.Esta é a história da minha ida á procissão da Raínha Santa.Para um adulto teria sido uma frustração: para mim foi uma fartada de riso...
Como é bom ser creança !

domingo, 3 de maio de 2009

EM Familia


Depois dum espaço de tempo sem escrever nada,em que aproveitei os serões para vizitar outros blogues,volto hoje com mais umas rimas.

Encontro em familia

O sol acordou cedo: hoje é Domingo,
Chama-lhe o povo "o dia do Senhor".
Confraterniza-se,neste dia lindo,
Nos lares onde ainda existe amor.

Amor,ternura,uma familia unida:
Forte cadeia que importa não quebrar.
Uma das coisas boas desta vida
É um bom repasto,no sossegado lar.

Há festa à mesa,há risos e finezas
Que se recebem e dão de modo igual:
Ali não há lugar para tristezas,
Triunfa o bem em desfavor do mal.

A vida é curta,apenas só passagem:
P’ra quê vivê-la só em confusões ?
Há que sentir o bom desta"miragem"
E nela só deixar boas recordações.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Saudações


Hoje vou escrever pouquinho porque o sono está a impor-se com insistência e confesso que não resisto. Vou colaborar com ele. Assim apenas quero cumprimentar e agradecer aos visitantes que me têm deixado comentários.Á minha conterrânea que deixa transparecer a estima que me dedica,eu quero dizer que continue a tratar-me por Dilita; esta forma trás-me à memória a minha juventude e muitas pessoas queridas que assim me chamavam. "Ó tempo volta p'ra trás"... por uns momentos apenas... Beijinhos.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Os mêdos,noutros tempos...

Há muitos anos atrás no nosso Montemor, a maioria da população era dada à superstição,quase toda a gente tinha algo de sobrenatural para contar,que alguém tinha visto... Falavam mesmo na presença das creanças,que retinham esses "episódios",e depois os contavam ás suas amiguinhas,já com o mêdo instalado.Eu também me recordo de ouvir apontar os locais,onde apareciam "coisas"... um caixão a atravessar a rua principal da Vila pelas 10 horas da noite ( hora tardía) e a sumir- -se num boeiro grande que havia encostado à casa do fidalgo Sr.Fortunato: hoje tudo desaparecido,casa, boeiro e fidalgo. Outro local de mêdos ficava na beira da estrada que liga a Vila à Barca,já perto da velha ponte,numa propriedade com um poço de água e que pertencia ao mesmo fidalgo.Também a "baixeira do cano",frente à Quinta do Cano,a caminho do Areal,Moinho da Mata,era apontada como tal,e é aqui que começa a história... Mariana era costureira,costurava em casa das clientes;levava e trazia à cabeça a máquina com que costurava,e começava o dia bem cedinho acabando ao anoitecer.Neste dia tinha estado a trabalhar no Moinho da Mata e regressava a casa na Vila,com as primeiras estrelas a pontilharem o céu, acompanhada por uma vizinha que também ali se havia deslocado,e juntas encetaram caminho apressadas,já que à baixeira do cano ninguém queria passar de noite.Como era de esperar a conversa entre elas recaiu de imediato nos mêdos,que "aconteciam" naquele lugar (o cano) onde elas iam passar.Ambas acreditavam,e como tal tinham mêdo, e repetiam o que tinham ouvido, que aves pretas enormes, fenomenais, ali tinham aparecido,e mais coisas...Como a noite se aproximava,o filho da costureira ignorando que a mãe tinha companhia,resolveu ir ao seu encontro.Ao vê-la ao longe e acompanhada,pensou esconder-se atrás duma árvore e assustá-las;deixou-as passar, e ainda percebeu algo da conversa,o que o fez sorrir...Em passo leve acercou-se delas,e colocando as mãos em concha sobre a boca fêz um valente assôpro; ambas deram um grito,a Mariana deitou a mão à máquina,e em simultâneo agarraram-se, para logo se largarem e desatarem a correr,sem sequer olharem para trás.O rapaz já arrependido,bem se esforçava, párem,párem, esperem sou eu,esperem...Não esperaram nunca,só quando a estrada terminou e a Vila estava a seus pés, pararam exaustas,e a mêdo olharam para trás...Logo se sentiram fortes para o natural "ralhanço",mas foi entre desculpas e risos que caminharam para casa.Foi uma diabrura do filho,mas nunca a Mariana se livrou dos mêdos,e das histórias que ouvira desde a meninice e que sempre considerou reais.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Na Procissão


Depois dum alheamento de alguns anos em relação às procissões denominadas do Senhor dos Paços,que acontecem em Montemor pela Quaresma,e sem motivo para ter deixado de comparecer,decidi voltar.Devo confessar que a ideia me agradou,e até me deixei tomar por um certo entusiasmo.Assim à hora marcada lá estávamos frente à Igreja da Misericórdia eu e o meu marido,trocando cumprimentos com os nossos "irmãos",e tenho esta expressão,porque pertencemos á Irmandade.Pouco depois já todos seguiamos acompanhados com a Filarmónica,em direcção à Igreja dos Anjos onde ia ser celebrada a Missa e cantado o tradicional Miserérie.( Eu devo penitênciar-me,porque na verdade a minha fé,não me leva para lá do real... Respeito estas celebrações repetidas ano após ano, e vejo ali a representação dum facto verídico,uma crueldade,bem ao estilo romano.Eram poderosos,mas sentiram mêdo de Cristo... daquele jovem que não usava elmo nem lança,nem com palavras magoava; nada exigia,apenas pedia que todos se amássem como irmãos, e falava dum reino,mas no Céu. Os Romanos não entenderam,sentiram-se em perigo e cruxificaram-no.) Gostei da interpretação do Miserérie,vozes bonitas afinadinhas,e depois segui na procissão no ponto destinado à nossa Irmandade; e caminhando lentamente pensei "como a minha Vila está triste"... tantas janelas fechadas, e como tal, sem o simbolismo duma pequena luz... e pensando encontrei a resposta,o tempo passou,os moradores partiram na viagem sem regresso ; e recordei-os a todos. Já perto do Castelo eu perguntava-me, quem está mais triste ? a Vila ou eu ?

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Alves Barbosa e o azar


Gostei do comentário do Osvaldo.Fez-me recordar o que era a Volta a Portugal naquela época,uma festa esperada com ansiedade.Os ciclistas passavam a Montemor ao fim da tarde,mas após o almôço o nosso lugar era a rua,para ver bem de perto e aplaudir.Muitas moradoras na encosta do castelo,traziam o cântaro para levar água para casa depois da corrida passar ,(não havia água canalisada) "juntavam o útil ao agradável"; assim junto á bomba havia sempre um numero considerável de mulheres "a torcer" pelo Tó. Começavam a passar carros da volta,e não vencendo a ansiedade as pessoas gritavam "ainda vêm longe?" A resposta vinha sempre com um sorriso e entusiasmo,mas naquela volta foi diferente... uma voz ampliada por um microfone,fez-se ouvir com nitidez "rezem pelo nosso Tó"...E foi repetindo estas palavras que o carro do Sangalhos atravessou a Vila. As mulheres na bomba ajoelharam de imediato,e de mãos postas encetaram uma oração,logo interrompida porque se ouviu a sirene dos batedores e logo surgiu um grupo de ciclistas.Mas o camisola amarela não vinha ali.O que teria acontecido? Todos se perguntavam mutuamente.Entretanto novos silvos estridentes e logo todo o pelotão a boa velocidade... Olhos bem abertos,mas desilusão total; o Tó não passou.Já se falava em tragédia, tudo conjecturas,mas com certa razão... Passaram alguns minutos,e lá surge o Tó; sózinho,filado à biciclete a pedalar a sério,muito moreno do sol daqueles dias,e com um ar amargurado. Ainda vestia a camisola amarela,mas já a tinha perdido. A consternação era visível entre a população,após a passagem dos ciclistas.(Soube-se que não tinha sofrido queda e estava bem; parou para beber água,numa fonte na beira da estrada,facilitou,e depois surgiram uns precalços que o fizeram atrazar demasiado).Mas no dia seguinte voltou a alegria, pois na etapa contra relógio,com uma velocidade extraordinária para a época,o Tó recuperou o tempo perdido,a camisola amarela e ficou de novo em primeiro lugar.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Recado


Recordei a historieta dos compadres e a morte,uma espécie de brincadeira,mas que não foje muito à realidade... A partir de certa altura da vida, todos nós coleccionamos "avisos"; eu já tenho vários,mesmo sem ser comadre "dela"...
E como me deu para escrever sobre este teor,fiz umas rimas dirigidas ao meu mais que tudo,que como se depreende é o meu marido.

Recado

Quando eu morrer,mantém a calma:
Não penses em rezar,nem tenhas dó,
Eu não creio na existência da alma
Mas que a vida acaba e o corpo é pó.

Flores à minha volta,também não:
Elas são vida,merecem outra sorte,
Que não aquela,que é só ilusão
Méro capricho,ou hábito na morte.

Guarda para ti a minha imagem.
Morrer é natural,não há opção.
Eu tomo a dianteira,vou nessa viagem,
Mas tu irás também,noutra ocasião.

Comadre...


Há alguns anos estava eu a aguardar a minha vez para uma consulta médica, e ouvi uma historieta que achei engraçada.É em geito de brincadeira,mas no meu entender aponta o real.No entanto encarar o menos bom com um sorriso,também não faz mal...já dizia o grande actor Vasco Santana,"se tem que morrer que morra a rir"! Vou então recordar.
"Era uma vez"...
Um casal que vivia feliz e aguardava o nascimento do seu bébé.Cheios de esperança desejavam viver muitos anos, para criar o filho, os netos,e se possível os bisnetos,ansiavam mesmo ter uma vida longa.Mas como realizar tão forte desejo ? A esposa disse que ia pensar... E daí a dias informou o marido que já tinha uma ideia;ansioso logo se acomodou ao lado dela pronto para ouvir.Ela já decidira,iriam convidar a Morte para Madrinha do filho, ficariam assim com o laço de Compadres,e claro da parte da Morte sempre haveria uma atenção,ela não deixaria de os "avisar" com antecedência... E tudo aconteceu como idealisara; o bébé cresceu foi jovem,depois pai e também avô.Entretanto o tempo tinha passado e o casal já idoso,há muito que tinha queixas no que refere à saúde.Um dia, de surpresa a Morte apareceu,vinha buscá-los,estava na altura...O marido nada disse,mas a mulher argumentou: então Comadre Morte vem assim, sem nem sequer nos avisar? E a morte respondeu; sem avisar ? como assim? Há quanto tempo lhes estou a mandar avisos. Avisos ? responderam ambos sem perceberem... Então a Morte explicou ;há quantos anos começaram a sofrer dos ossos,a ver mal, a perder dentes,a cansar,a ter de parar ao subir ladeiras,a ver o cabelo a branquear,a pele a enrugar...estes foram os avisos que lhes mandei,e creiam que fui amiga,fui Comadre,mandei muitos,não tenho culpa da vossa distração. E indiferente porque tinha avisado, cumpriu a tarefa,que ali a levou.

terça-feira, 17 de março de 2009

Tó Barbosa, o Ciclista

Na passada sexta-feira dia 13/2 o Diário de Coimbra publicou um suplemento com uma entrevista dedicada a Alves Barbosa, que foi um grande ciclista,e que na conversa com a jornalista recordou alguns pontos marcantes da sua carreira de êxitos. Modesto como sempre foi, não fez alarde do seu valor,falou com naturalidade,igual a si próprio. Li com interesse mas acabei um tanto decepcionada. E porquê? Então o popular Tó nada recorda da sua terra adoptiva ?( Montemor-o-Velho ); desta terra,o tema apenas refere que actualmente ali reside. Sim é certo; e onde residia em 1951, e até ao fim de 1965 ? Durante a sua carreira de ciclista ele viveu sempre em Montemor,e com ele os Montemorences viveram em euforia as suas conquistas,e com apreensão os maus bocados que também os teve.Eu recordo quando ele foi excepção,vestindo a camisola amarela do inicio ao fim da volta,os Montemorenses homenagearam-no numa sessão solene no Teatro Ester de Carvalho, enaltecendo-o, todos vaidosos por ele... E quando daquele insólito acontecimento nos Carvalhos, já perto do fim da volta que ele ia ganhar,o agarraram impedindo-o de continuar,e por isso não ganhou;uma onda de tristeza atingiu os Montemorenses como se tivessem sido feridos colectivamente.E logo foi promovida uma recepção de homenagem a efectuar no dia do regresso a casa.Enfeitou-se a rua principal por onde ele iria passar, com flores de papel e colchas nas janelas.Compareceram todas as colectividades com respectivos estandartes,os ranchos folclóricos,pessoas importantes,e gente simples (ninguém se alheou).Foram esperá-lo ao limite da vila,e seguiram em cortejo a pé até à Praça da Républica onde na Câmara no salão nobre, foram proferidas as saudações, e discursos.A sala foi pequena,mas o sistema sonoro préviamente instalado,permitiu à multidão que enchia a praça,ouvir o que era dito,e até aplaudir (tal era o entusiasmo).Mais tarde o azar marcou-lhe encontro, e um grave acidente "atirou-o"para uma Casa de Saude com prognóstico algo reservado.Era o assunto do dia...os Montemorences entristecidos, manifestavam-se entre si,num misto de receio e esperança e sempre a incondicional estima. Depois da tempestade geralmente surge a bonança, o Tó recuperou a saúde,e continuou o seu percurso.Alguns anos depois em Dezembro de 1965,o povo voltou a juntar-se ! Mas desta vez para ver o Tó (mais feliz que nunca) saír da Igreja de Sta. Maria dos Anjos dando o braço à sua espôsa a Dra.Rosa Maria,no dia do seu casamento.E agora permitam-me,não merecia Montemor ter uma referência, mesmo pequenina, naquela entrevista ?

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Sobre a vaidade

A vaidade prega partidas terríveis à nossa memória.
Joseph Conrad

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Sexta-feira negra

Ontem o calendário marcava dia 13 e era sexta-feira.Embora a maioria da população não adira à superstição,é como aquela máxima acerca das bruxas:eu não acredito mas que as há,há. Penso que esta afirmação vem dos nossos irmãos espanhóis, mas nós também nos identificamos com ela. Porém é mais comum utilizarmos a palavra azar,(sexta -feira é dia de azar),e se for dia 13 pior ainda. Mas reparem,desta vez o azar foi mesmo facto! Então alguém contava com aquele "presente" que o Ministro das finanças nos proporcionou através da T.V. ? Só mesmo numa sexta 13,haveria tal brinde... E preparemo-nos porque em Março temos outra sexta-feira 13, e em Novembro quando estas já estiverem esquecidas,nova sexta -feira 13. É o ano dos azares? Eu não quero acreditar,mas contra factos,onde estarão os argumentos?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Serenata


Volto a falar do Montemor do meu tempo,pequenino,bonito sem dúvida,mas pobre,com caracteristicas de aldeia.Viam-se cães pelas ruas, galinhas,e até ninhadas de pintainhos: passavam o dia na rua de trás e na feira da madeira,e só à noite recolhiam a casa.Também era um modo de produzir algum dinheiro,pois as carências eram mais que muitas,e não havia subsídios.Assim as pessoas viam na possibilidade de ter "criação"um bem a aproveitar.(Tempos difíceis)
Existia a vala,curso de água que atravessava a vila,e que além de lavadouro,nela nadavam patos e gansos propriedade de vários residentes naquela zona; só vinham a terra quando o característico "liro,liro,liro"pronunciado em voz alta pela dona,e conhecido pelo grupo como sendo comida à vista, os fazia correr para ela; comiam com sofreguidão,para logo depois regressar ao seu paraíso aquático: à noite recolhiam a casa de livre vontade;excepção apenas em ocasiões de cheias quando a vala desaparecia, engolida por um estuário de alguns kilómetros;então ouviam-se ao longe os seus estridentes "quá,quá,quá, no silêncio da noite,e por lá ficavam assim como também os ovos "graúdos" das patas. Numa dessas cheias (grandes) em que a água cobriu toda a rua principal e também o muro que ladeava a vala,as bateiras (barcos de madeira) entraram ao serviço para a entrega de pão,artigos de mercearia, ou comprimidos para atenuar sofrimento.As casas do lado direito da rua,tinham saída para a encosta do castelo;as do outro lado tinham a rua de trás com mais água ainda,pois o pavimento era ligeiramente mais fundo. Havia a vala,separada pelo muro,e a paisagem das terras de cultivo divididas por vegetação alta e algumas árvores,mas agora só a água predominava.Estávamos numa ilha,e digo estavamos porque eu estava lá...e assim me sentia bloqueada,e até apreensiva.Os homens que assim vogavam naquelas "cascas de noz" para ajudar,nada cobravam,era um auxílio expontâneo fruto da situação; certamente que haveria alguma gratificação por parte de quem vivia melhor,mas o que era isso em relação ao bem que faziam... Aconteceu numa dessas noites estar um luar maravilhoso,(eu não sei se seria o luar de Janeiro),que se projectava nas águas e inspirou um grupo de rapazes a agir; no meio do silêncio só quebrado pela vara que impulsionava os barcos,elevaram-se vozes,cantando fados de Coimbra.Todos nós corremos para as janelas; os barcos avançavam lentos pelas águas ao largo, frente à Vila, e os fados sucederam-se um após outro, melodiosos como só a balada Coimbrã sabe ser.Durou bastante tempo a serenata,foi bonito o gesto daqueles jovens,ficou a recordação e posteriormente a saudade.
No dia seguinte a água tinha baixado um pouco,já estava a descoberto o cimo do muro (de suporte da vala),mas ainda impossível sair de casa,viriam de novo os barcos.Talvez"atraídos pelos fados," os patos acercaram-se das casas nessa noite e as patas poedeiras,colocaram os ovos em cima do muro,frente à minha casa;dois aqui, três além,ao todo eram 14;que rica fritada em prespectiva!Ainda era cedo e já vinha o nosso vizinho sr.Joaquim Ferreira num barco e perguntou:-É preciso alguma coisa? A minha mãe respondeu:-É sim; é preciso ir buscar aqueles ovos,são 14, metade para mim e metade para o sr.Joaquim levar p’ra casa. Ele logo efectuou a manobra, e ainda colocou os referidos num cesto,que preso por um cordão os içou para a minha janela.Durante alguns anos,quando a água subia,ele, a esposa e a minha mãe,entre sorrisos recordavam o facto,(único) pois jamais se repetiu.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O livro de receitas

Em Dezembro cozinhei uma lampreia e o facto teve honras de livro.Não sei bem os detalhes mas acho que foi uma iniciativa colectiva que reuniu receitas de diversas pessoas que têm blogs.Um dia a minha filha mais velha que não gosta de cozinhar,veio perguntar-me como se cozinhava o bicho feio,como ela lhe chama.Queria saber tudo,e até tomou notas.Depois é que me disse que era para um livro,que ia ser publicado na internet.Até telefonei à minha amiga Arminda para confirmar um pormenor.Depois ela traduziu para inglês.E no dia da preparação apareceu com a máquina fotográfica e fez a reportagem.O livro tem 38 receitas,e está à venda na internet.O produto da venda reverte para a caridade.Também vão sortear 1o livros,é ver aqui.E entre tantas receitas está a minha receita da lampreia!

Pode ser encontrado aqui:http://www.blurb.com/bookstore/detail/485233

A solução da adivinha"complicada"

Esperei,mas concluo que não querem dizer a solução. Refiro-me à ultima adivinha.
Não gostaram? Acharam mórbida? Pois é o inverso,querem saber?
Poderíamos chamar-lhe até, elementos necessários para variações... em dó, ou ré, ou...
Pois: são as 12 cordas da guitarra e os 5 dedos da mão.

Um conselho

Reflexão
Para conseguir efeitos grandes,e para levar a cabo empresas dificultosas,
mais segura é uma ignorância bem aconselhada, que uma ciência presumida,
(Padre António Vieira)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Terrivel mania

Hoje voltei às rimas,simples, coitadinhas,apenas para falar das minhas manias,que são muitas,mas por agora só conto esta:

Mas que terrivel mania
Eu fui encaixar na tóla,
De vir a acertar um dia
Nos treze do totobola.

E assim presa à quimera,
Lá fui jogando,jogando,
Mas acertar,quem me dera...
Será que acerto,mas quando?

Decerto nunca: que esperava?
A esperança me vai fugindo,
Mas que gostava,gostava...
O dinheirinho é tão lindo!

Mas não quero abandonar,
Tentar está-me no gôto...
Como este me está a falhar,
Vou mudar p’ró totolôto.