«Sou alta» - diz a Amizade.
«Sou profundo» - diz o Amor.
E lembram bem, na verdade,
Montanha e vale, ao sol-pôr.
Pois antes que o sol resvale
Ao pélago, onde se banha,
Já dorme em sombras o vale
E há ainda sol na montanha.
(João Saraiva)
Caros amigos e visitantes
Já é dia de Páscoa, venho com atraso, mas venho - para vos apresentar os meus cumprimentos de Boas Festas, nesta Quadra Pascal. E desejar que a alegria reine em vossos lares, e nos vossos corações.
Aceitem ainda e também, o abraço da Dilita.
domingo, 5 de abril de 2015
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Laranja de Padre
Pessoa amiga ofereceu ao meu marido uma quantidade de limões e laranjas, produto das suas árvores situadas no quintal à beira de casa. Que agradável será ter ali as laranjeiras e os limoeiros com as folhas fresquinhas sempre à mão, para um saboroso chá... Até aqui tudo vulgar, aparentemente, não fôsse o volume de cada laranja - dei-me ao trabalho de pesar esta, que por acaso é a maior- pesa 500 gramas (meio kilo) assim bem pesadinho, e não têm a casca grossa.
Esta laranja no prato fez-me recuar ao tempo da minha meninice... nessa altura a Páscoa era vivida com alegria e alvorôço na minha terra. No Domingo a visita Pascal era aguardada com ansiedade - colocava-se rosmaninho na rua á entrada das residências, e abriam-se as portas de par em par- as pessoas nas janelas observavam, e assim que se ouvia a campaínha que um dos membros da comitiva agitava continuamente, avisavam para alguma vizinha mais descuidada " olha que já está perto, já está perto..."
Um grupo de homens acompanhava o Padre - um trazia a caldeirinha da água benta, outro os foguetes, outros as sacas de brocado vermelho para as ofertas, e outro mais respeitável carregava o grande Crucifixo repleto de flores.
Já na sala, depois de aspergir com água benta os familiares ali reunidos e das saudações de Boas Festas e Aleluias, (as pessoas ajoelhavam) o Padre pegava o Crucifixo, e dava o Senhor a beijar - dizia-se e fazia-se "vou beijar o Senhor a tua casa, e depois vens tu à minha..."
Nalgumas casas (poucas) a mesa estava posta com bolos, queijo e bebidas - se apetecia eles petiscavam, antes de dizerem adeus...
Nestas estava também a oferta para o Padre, um pouco mais generosa, do que na maioria das residências da Vila, cuja população mantinha a tradição que já vinha de longe. E a tradição era, dar uma laranja com uma moeda em cima.
O valor da moeda variava consoante as possibilidades de cada família, e fazia-se o possível para dar uma laranja grande.
Assim, as laranjas grandes eram chamadas laranjas de Padre...
Esta laranja que hoje fotografei, faria um vistão, nesses anos longínquos...
quarta-feira, 25 de março de 2015
Na Primavera
No canteiro à entrada do prédio onde moro, a planta floriu. - Parei a olhá-la. - Há quem diga ser muito bonita, aqui chamam-lhe Estrelícia, mas também já ouvi chamar-lhe Ave do Paraíso. Eu não aprecio, parece-me estranha como flor. Já imitação de ave, talvez... E aí sim a minha admiração, e louvor à Natureza.
domingo, 22 de março de 2015
Isto também é Portugal
O escritor Xavier de Maistre deixou-nos uma obra onde nos ensina a viajar, usando apenas a imaginação e pouco mais. Viagem ao Redor do Meu Quarto - é o título desta obra - um livro pequeno e antigo. Depreende-se já qual o teor, só o pensamento viaja...
Pois eu segui o modo apontado, e estando em casa e ao redor do meu quarto, viajei para um local onde já estive de passagem, e onde gostaria de voltar, mas a sério, não apenas em pensamento como hoje fiz.
Vou colocar duas fotos que fiz nessa altura, e são a única recordação, pois tive o azar de encontrar tudo encerrado, por motivo de doença dos funcionários que recebem as visitas.
Mas agora vamos adivinhar:- onde se situa esta "coisa" bonita e grandiosa ?
--------------------------------------------------------------
Pois caros visitantes, já brincámos às adivinhas, e sabemos que se trata da cidade de Serpa, no Alentejo no nosso Portugal. É um pormenor do Castelo, e outro do Aqueduto que o abastecia de água. Vê-se muito pouco, Serpa vale bem uma visita demorada. Vamos até lá...
Pois eu segui o modo apontado, e estando em casa e ao redor do meu quarto, viajei para um local onde já estive de passagem, e onde gostaria de voltar, mas a sério, não apenas em pensamento como hoje fiz.
Vou colocar duas fotos que fiz nessa altura, e são a única recordação, pois tive o azar de encontrar tudo encerrado, por motivo de doença dos funcionários que recebem as visitas.
Mas agora vamos adivinhar:- onde se situa esta "coisa" bonita e grandiosa ?
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Pois caros visitantes, já brincámos às adivinhas, e sabemos que se trata da cidade de Serpa, no Alentejo no nosso Portugal. É um pormenor do Castelo, e outro do Aqueduto que o abastecia de água. Vê-se muito pouco, Serpa vale bem uma visita demorada. Vamos até lá...
O Cosido à Portuguesa
No passado Domingo o Partido Comunista fez anos - 94 -
Num restaurante perto de Tavarede festejou-se o aniversário, e do programa constava também um almoço. Ali se reuniram comunistas, simpatizantes, e outros que não sendo adeptos do Partido, são amigos e apreciam o convívio. Neste número está o meu marido, que embora aprecie algumas das teorias comunistas, não é nem jamais será, um comunista. Mas convívios venham eles! - E lá foi encantado da vida, de máquina fotográfica e tudo... Eu sou ao contrário, não tenho paciência para tais eventos - ouvir discursos, sorrir, aplaudir, para mim isso é uma séca - a seguir vem a comida - como pouco, e depois ter de ficar a ver os outros mastigar, até que o repasto termine, é mesmo maçada. Assim, mais uma vez fiquei em casa e fiquei bem.
Pelo meio da tarde ele regressou. Mal entrou em casa veio ter comigo e falou assim: - ai mulher pensei tanto em ti ... Toma! E estendeu-me um lindo cravo vermelho, e até me brindou com dois beijinhos.- Muito bem, muito bem, afinal não é todos os dias que eu sou assim mimada, disse eu a rir.
- Deram um cravo aos presentes, não foi?
- Foi, e eu pensei logo que o trazia para ti.
-E fizeste muito bem, porque eu gosto muito de mimos e de cravos. Pena ser só um.
E ele continuou; - ah, mas não calculas o quanto eu pensei em ti... E repetia, pensei tanta vez...
- Achei estranho, e perguntei - mas afinal porquê ?
-Porquê ? Eu digo - Por causa do teu cosido à portuguesa!
Os meus vizinhos de mesa diziam sem ninguém perguntar, que estava muito bom... E eu pensava, um tanto desconsolado, está bom? - vocês haviam de comer aquele que a minha mulher faz...
Desatei a rir...Eu lá tinha o palpite de que não havia razão para o "homem" estar a pensar tanto em mim, ( já lá vai o tempo, não tenho queixas, só que agora há mais equilíbrio) embora eu não rejeitasse se fosse o caso. Mas não, o cerne da questão era afinal o cosido à portuguesa...
Num restaurante perto de Tavarede festejou-se o aniversário, e do programa constava também um almoço. Ali se reuniram comunistas, simpatizantes, e outros que não sendo adeptos do Partido, são amigos e apreciam o convívio. Neste número está o meu marido, que embora aprecie algumas das teorias comunistas, não é nem jamais será, um comunista. Mas convívios venham eles! - E lá foi encantado da vida, de máquina fotográfica e tudo... Eu sou ao contrário, não tenho paciência para tais eventos - ouvir discursos, sorrir, aplaudir, para mim isso é uma séca - a seguir vem a comida - como pouco, e depois ter de ficar a ver os outros mastigar, até que o repasto termine, é mesmo maçada. Assim, mais uma vez fiquei em casa e fiquei bem.
Pelo meio da tarde ele regressou. Mal entrou em casa veio ter comigo e falou assim: - ai mulher pensei tanto em ti ... Toma! E estendeu-me um lindo cravo vermelho, e até me brindou com dois beijinhos.- Muito bem, muito bem, afinal não é todos os dias que eu sou assim mimada, disse eu a rir.
- Deram um cravo aos presentes, não foi?
- Foi, e eu pensei logo que o trazia para ti.
-E fizeste muito bem, porque eu gosto muito de mimos e de cravos. Pena ser só um.
E ele continuou; - ah, mas não calculas o quanto eu pensei em ti... E repetia, pensei tanta vez...
- Achei estranho, e perguntei - mas afinal porquê ?
-Porquê ? Eu digo - Por causa do teu cosido à portuguesa!
Os meus vizinhos de mesa diziam sem ninguém perguntar, que estava muito bom... E eu pensava, um tanto desconsolado, está bom? - vocês haviam de comer aquele que a minha mulher faz...
Desatei a rir...Eu lá tinha o palpite de que não havia razão para o "homem" estar a pensar tanto em mim, ( já lá vai o tempo, não tenho queixas, só que agora há mais equilíbrio) embora eu não rejeitasse se fosse o caso. Mas não, o cerne da questão era afinal o cosido à portuguesa...
Ainda a rir, fui colocar o cravo num solitário com água, e a seguir fotografei.
quarta-feira, 18 de março de 2015
terça-feira, 10 de março de 2015
Não Há Mal Que Sempre Dure
(conclusão do conto anterior, Cá se Fazem)
Carregando apenas uma mala, Marília entrou naquele hotel de luxo. Na recepção identificou-se e aguardou. A D. Eva, supervisora do hotel, veio ao seu encontro, sorridente, e acompanhou-a ao quarto que lhe estava destinado. Sem perder o sorriso, convidou-a a tomar café, ou até uma refeição, Marília agradeceu mas não sentia necessidade, e por isso não aceitou. - então ela saiu, mas antes ainda lhe disse que a deixava só, para que descançásse e arrumásse as suas coisas, que mais tarde falariam, e que só ao outro dia iniciava o seu trabalho.
Marília abriu a janela: o hotel situava-se num local um tanto isolado; rodeado por árvores frondosas, a que se seguia uma mata matizada de muitos verdes, e não muito distante distinguia-se a serra. Muito bonito, murmurou para si própria - desfez a mala, arrumou tudo e sentou-se.
Tinha reunido toda a coragem para não se sentir infeliz, e agora só receava não ser capaz de cumprir bem o trabalho, que tinha procurado e felizmente encontrado.
Foi com mágoa que a irmã aceitou esta sua decisão, mas Marília tinha pensado muito, durante as longas noites sem sono, ao lado da mãe doente; com o passar do tempo tornou-se visível que aquela vida se extinguia a cada dia, e Marília queria estar junto dela até ao fim... Mas depois iria embora, não era justo continuar ali. Sabia bem do quanto a irmã lhe queria, mas por isso mesmo, merecia ser feliz ao lado do marido, viverem na sua intimidade, sem outra presença por perto.
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No dia seguinte, já a par do que seria o seu trabalho, Marília levantou-se cedo, tratou de si própria e arrumou a cama. Bateram à porta, foi ver ; - era uma criada; - pediu para entrar e colocou-lhe em cima da cama, a farda que ela devia usar para servir à mesa. Com um até já, sorridente, saiu e fechou a porta.
Marília pegou na roupa - Um vestido preto com uma linda gola de renda branca, e um avental bordado, de organdi branco. Pousou o vestido, e ficou com o avental nas mãos. Sentiu-se fraquejar, ela que sempre tivera criadas, era agora uma criada também... Sentou-se, e lágrimas abundantes rolaram-lhe pelas faces, antecipando os soluços que a sufocavam. Incapaz de se controlar, permaneceu assim durante alguns minutos... Depois, quase de súbito, levantou-se, e a meia voz falou para si própria: - esquecêste-te Marília? - Cá se fazem, cá se pagam!!!
Correu a passar água na cara, vestiu o fato preto, e aprimorou-se a fazer o laço do avental. Fez uma maquilhagem muito discreta, olhou-se no espelho ensaiando um ar alegre, e desceu ao encontro do seu primeiro trabalho.
-------------------------------------------------------------------------------
Já tinha passado mais dum ano. Marília gostava do trabalho que preenchia os seus dias no hotel. Estimava todas as colegas de trabalho, e toda a gente ali dentro, e tinha granjeado a estima de todos pela sua pessoa. Mostrava-se sempre satisfeita, ninguém diria o que aquele coração albergava. Era de noite sósinha no seu quarto, que ela convivia com as suas mágoas. Chorava com saudades do seu Fernandinho. Tinha noticias dele só pela irmã do Alex que vivia em Cascais. Ele continuava em África e nem queria ouvir falar na Marília, até ensinou ao menino que a mãe era a Lena, a sua esposa.
Ela pensava também nas filhas. A madrinha delas, a enfermeira Rita nunca a excluíra da sua amizade, e era por ela que recebia noticias regularmente, mas sempre à revelía do Dr. Gustavo.
Marília sentia que nunca mais as voltava a ver, nem ao menino, e só pedia a Deus que lhe désse conformação.
Ao Domingo era o seu dia de descanso. Saía do hotel pela manhã, caminhava a pé até à Vila que ficáva a poucos kilómetros dali, e ia assistir à missa. Gostava de chegar antes, queria falar com Deus.
Depois da missa, almoçava num restaurante modesto que existia próximo da Igreja, lia o jornal, e saía, de regresso ao hotel. Tinha um porte quase distinto, era impossível não se reparar nela, mas também era difícil dirigir-lhe palavra, além do Bom-Dia. Sentia-se bem assim, naquele recato, era empregada no hotel, e donde tinha vindo ninguém sabia.
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Estava muito calor naquela tarde de Domingo, e depois de almoçar Marília decidiu ir até ao Jardim da Vila até que ficásse mais fresco, para se fazer à estrada, de regresso ao seu lugar de residência. Escolheu um banco com sombra e sentou-se.
Nunca ali tinha estado, pensou. Era agradável aquele local. Olhou em volta, e reparou num prédio não muito grande mas de bonita arquitectura, era uma residêncial. Numa das varandas via-se uma placa com a palavra VENDE-SE.
Desviou o olhar, mas daí a pouco estava de novo a observar, e desta vez viu melhor- Residêncial Esperança. Inesperadamente uma ideia luminosa ocupou-lhe o pensamento... - E se eu... Será que o valor que tenho no Banco, chega? E isto será bom? Não tinha ninguém a quem pedir conselho ou opinião e sentiu-se esmorecer... mas depois reagiu; e decidida, avançou em frente. A porta estava aberta, entrou....
----------------------------------------------------------------------------
Um mês depois, terminadas umas obras de restauro, a Residencial Esperança anunciava a sua reabertura, com nova Gerência da sua Proprietária D. Marília Matos Silva.
"Foi uma boa aquisição, diria Marília anos mais tarde aquando duma visita à irmã."
----------------------------------------------------------------------------
Os anos passaram, eram já muitos... O Dr. Gustavo residia na Cidade do Cabo na África do sul, para onde se tinha mudado conforme havia decidido; tornou-se um exímio cirurgião, e além do trabalho que realizava no hospital, era um conferencista famoso, admirado e respeitado até pelos próprios colegas. As filhas seguiam-lhe as pisadas: - também elas cursaram medicina, e concluída a licenciatura estudavam agora para uma especialização. ( Recordavam a mãe, que era tão nova quando faleceu, num acidente de viação. O pai ainda tinha a fotografia dela na secretária do escritório - como era linda, comentavam elas...)
Com a colaboração da "sua mãe preta" a dedicada Rosy, que sofria com os azares dos seus senhores, ou se alegrava com as suas alegrias, o Dr. Gustavo conseguiu manter perante as filhas, aquela mentira do acidente mortal.
Porém, chegou um dia em que uma das filhas, por acaso ouviu uma conversa telefónica entre a Rosy e a Madrinha, falavam na mãe... Contou à irmã, e as duas com boas palavras e toda a dedicação que tinham pela "mãe preta", conseguiram que ela lhes contásse a verdade. Mas foi muito difícil, e só abriu mão do segredo com a condição das "suas" meninas nunca dizerem nada ao Papá.- Elas prometeram, e cumpriram, guardaram segredo absoluto. Completamente decepcionadas e tristes, confessaram que preferiam sabê-la morta, traíra o pai que elas adoravam, não a queriam ver nunca...
-----------------------------------------------------------------------
O Fernandinho, agora era o Fernando, com vinte anos, deixou África e veio para Lisboa completar os estudos Universitários. A tia que nunca apoiou o comportamento do irmão, achou por bem contar ao sobrinho quem era a sua mãe verdadeira, mesmo correndo o risco de represálias por parte do Alex.
Aquela notícia foi para o Fernando como que um presente...
E Marília pôde finalmente abraçar o filho, que o pai lhe tirara quando ele tinha apenas dois anos, e que nunca mais a deixara voltar a vê-lo. Foi emocionante este reencontro... O primeiro, de muitos.
------------------------------------------------------------------
Marília administrava com mestria o seu pequeno empreendimento, e estava bem financeira e socialmente, naquela terra que ela adoptou como sua. Agora que já tinha abraçado o seu Fernandinho, só as saudades das filhas se mantinham lancinantes. Soubera pela comadre Rita, da reação negativa que elas haviam manifestado em relação a ela. - Compreendeu, sofreu, e chorou muito, e mais uma vez pensou:- Cá se fazem, cá se pagam.- Não tenho alternativa...
-----------------------------------------------------------------------------
Passaram mais uns anos. O cabelo de Marília começava a semear de branco, ela ainda era bonita, mas sentia-se a caminhar para o fim. Sem nunca se desfazer do seu monólogo de afirmações, verdadeiras no seu conceito, repetia para si ao lembrar-se das filhas, - é ainda o meu castigo...
Mas não há mal que sempre dure... Marília, emocionada, acabava de ler uma carta que tinha chegado à poucos minutos, e vinha de África. Nem queria acreditar...
" Mamã,
Perdoa-nos. A nossa fé diz que não devemos ser juízes de nossos pais.
Temos sido, em relação a ti, mas não queremos ser mais.
Escrevo-te cheia de tristeza; o Papá partiu para sempre. Partiu sem sofrimento.
Ele não merecia sofrer, tu sabes; mas merecia viver mais tempo.
Estamos muito tristes nem tenho palavras...
Sei que te é possível, vem visitar-nos, vem por uns dias, queremos ver-te.
A Rosy está velhota, e diz que não quer morrer sem te abraçar.
Tenho tantas coisas para falar contigo, e nem consigo escreve-las aqui, estou sem jeito.
Esperamos que nos perdoes, e que venhas.
Lita e Mila
Beijinhos."
---------------------------------------------------------------
No mês seguinte, Marília voou na T A P para África ao encontro das filhas. O filho foi abraçá-la ao aeroporto da Portela, desejar boa viajem e fazer companhia até à hora da partida.
A viagem pareceu-lhe muito longa, de tanta pressa que tinha de as ver e abraçar...Queria que lhe perdoássem, queria ouvir dos lábios delas, para ter a certeza do seu perdão.
E foram emoções extraordinárias, únicas talvez, naquele reencontro à chegada, e continuadas embora de modo mais calmo, durante a curta estadia de Marília naquela casa, que tão bem conhecia. Foram dias maravilhosos, inesquecíveis mesmo.
Depois chegou o dia e a hora, de as deixar; - foi difícil o adeus, sorriam, choravam, mas estavam felizes. Num ultimo abraço envolvendo as duas filhas, Marília murmurou "agora já posso morrer!" E dirigiu-se para o avião.
A viagem de regresso foi calma, sem turbulência. Marília olhava pela janela do avião e via as nuvens flutuando no céu azul, enquanto as horas passavam demasiado morosas. Uma enorme serenidade tomou conta de si, convidando ao sono. Apertou o cinto, encostou a cabeça, e cerrou os olhos...
Pouco depois adormeceu.
Não tardou a ouvir vindo de longe um conjunto de vozes que cantavam, alternando com os sons de violinos, uma musica muito suave, muito bela... ela conhecia; - procurou lembrar-se do autor... Ah, sabia, pois; era Schubert , era a famosa Avé-Maria... Os cantores caminhavam a passos lentos, mas estavam agora mais perto, ela quase lhes distinguia as feições, pararam. E um dos personagens avançou alguns passos na sua direção e parou também - Era o Dr. Gustavo, que sorridente e de braços abertos lhe dizia em voz alta: - Vem Marília! Vem! Estás Perdoada!
Ela gritou bem alto: - Eu Vou! Eu Vou! - E correu, correu tanto, até cair de cansaço...
No aeroporto à chegada, a aterragem foi normal. E um tanto apressados todos os passageiros saíram do avião, excepto a Marília, que tranquilamente, continuava a dormir, mas desta vez para sempre, no profundo sono eterno.
Carregando apenas uma mala, Marília entrou naquele hotel de luxo. Na recepção identificou-se e aguardou. A D. Eva, supervisora do hotel, veio ao seu encontro, sorridente, e acompanhou-a ao quarto que lhe estava destinado. Sem perder o sorriso, convidou-a a tomar café, ou até uma refeição, Marília agradeceu mas não sentia necessidade, e por isso não aceitou. - então ela saiu, mas antes ainda lhe disse que a deixava só, para que descançásse e arrumásse as suas coisas, que mais tarde falariam, e que só ao outro dia iniciava o seu trabalho.
Marília abriu a janela: o hotel situava-se num local um tanto isolado; rodeado por árvores frondosas, a que se seguia uma mata matizada de muitos verdes, e não muito distante distinguia-se a serra. Muito bonito, murmurou para si própria - desfez a mala, arrumou tudo e sentou-se.
Tinha reunido toda a coragem para não se sentir infeliz, e agora só receava não ser capaz de cumprir bem o trabalho, que tinha procurado e felizmente encontrado.
Foi com mágoa que a irmã aceitou esta sua decisão, mas Marília tinha pensado muito, durante as longas noites sem sono, ao lado da mãe doente; com o passar do tempo tornou-se visível que aquela vida se extinguia a cada dia, e Marília queria estar junto dela até ao fim... Mas depois iria embora, não era justo continuar ali. Sabia bem do quanto a irmã lhe queria, mas por isso mesmo, merecia ser feliz ao lado do marido, viverem na sua intimidade, sem outra presença por perto.
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No dia seguinte, já a par do que seria o seu trabalho, Marília levantou-se cedo, tratou de si própria e arrumou a cama. Bateram à porta, foi ver ; - era uma criada; - pediu para entrar e colocou-lhe em cima da cama, a farda que ela devia usar para servir à mesa. Com um até já, sorridente, saiu e fechou a porta.
Marília pegou na roupa - Um vestido preto com uma linda gola de renda branca, e um avental bordado, de organdi branco. Pousou o vestido, e ficou com o avental nas mãos. Sentiu-se fraquejar, ela que sempre tivera criadas, era agora uma criada também... Sentou-se, e lágrimas abundantes rolaram-lhe pelas faces, antecipando os soluços que a sufocavam. Incapaz de se controlar, permaneceu assim durante alguns minutos... Depois, quase de súbito, levantou-se, e a meia voz falou para si própria: - esquecêste-te Marília? - Cá se fazem, cá se pagam!!!
Correu a passar água na cara, vestiu o fato preto, e aprimorou-se a fazer o laço do avental. Fez uma maquilhagem muito discreta, olhou-se no espelho ensaiando um ar alegre, e desceu ao encontro do seu primeiro trabalho.
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Já tinha passado mais dum ano. Marília gostava do trabalho que preenchia os seus dias no hotel. Estimava todas as colegas de trabalho, e toda a gente ali dentro, e tinha granjeado a estima de todos pela sua pessoa. Mostrava-se sempre satisfeita, ninguém diria o que aquele coração albergava. Era de noite sósinha no seu quarto, que ela convivia com as suas mágoas. Chorava com saudades do seu Fernandinho. Tinha noticias dele só pela irmã do Alex que vivia em Cascais. Ele continuava em África e nem queria ouvir falar na Marília, até ensinou ao menino que a mãe era a Lena, a sua esposa.
Ela pensava também nas filhas. A madrinha delas, a enfermeira Rita nunca a excluíra da sua amizade, e era por ela que recebia noticias regularmente, mas sempre à revelía do Dr. Gustavo.
Marília sentia que nunca mais as voltava a ver, nem ao menino, e só pedia a Deus que lhe désse conformação.
Ao Domingo era o seu dia de descanso. Saía do hotel pela manhã, caminhava a pé até à Vila que ficáva a poucos kilómetros dali, e ia assistir à missa. Gostava de chegar antes, queria falar com Deus.
Depois da missa, almoçava num restaurante modesto que existia próximo da Igreja, lia o jornal, e saía, de regresso ao hotel. Tinha um porte quase distinto, era impossível não se reparar nela, mas também era difícil dirigir-lhe palavra, além do Bom-Dia. Sentia-se bem assim, naquele recato, era empregada no hotel, e donde tinha vindo ninguém sabia.
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Estava muito calor naquela tarde de Domingo, e depois de almoçar Marília decidiu ir até ao Jardim da Vila até que ficásse mais fresco, para se fazer à estrada, de regresso ao seu lugar de residência. Escolheu um banco com sombra e sentou-se.
Nunca ali tinha estado, pensou. Era agradável aquele local. Olhou em volta, e reparou num prédio não muito grande mas de bonita arquitectura, era uma residêncial. Numa das varandas via-se uma placa com a palavra VENDE-SE.
Desviou o olhar, mas daí a pouco estava de novo a observar, e desta vez viu melhor- Residêncial Esperança. Inesperadamente uma ideia luminosa ocupou-lhe o pensamento... - E se eu... Será que o valor que tenho no Banco, chega? E isto será bom? Não tinha ninguém a quem pedir conselho ou opinião e sentiu-se esmorecer... mas depois reagiu; e decidida, avançou em frente. A porta estava aberta, entrou....
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Um mês depois, terminadas umas obras de restauro, a Residencial Esperança anunciava a sua reabertura, com nova Gerência da sua Proprietária D. Marília Matos Silva.
"Foi uma boa aquisição, diria Marília anos mais tarde aquando duma visita à irmã."
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Os anos passaram, eram já muitos... O Dr. Gustavo residia na Cidade do Cabo na África do sul, para onde se tinha mudado conforme havia decidido; tornou-se um exímio cirurgião, e além do trabalho que realizava no hospital, era um conferencista famoso, admirado e respeitado até pelos próprios colegas. As filhas seguiam-lhe as pisadas: - também elas cursaram medicina, e concluída a licenciatura estudavam agora para uma especialização. ( Recordavam a mãe, que era tão nova quando faleceu, num acidente de viação. O pai ainda tinha a fotografia dela na secretária do escritório - como era linda, comentavam elas...)
Com a colaboração da "sua mãe preta" a dedicada Rosy, que sofria com os azares dos seus senhores, ou se alegrava com as suas alegrias, o Dr. Gustavo conseguiu manter perante as filhas, aquela mentira do acidente mortal.
Porém, chegou um dia em que uma das filhas, por acaso ouviu uma conversa telefónica entre a Rosy e a Madrinha, falavam na mãe... Contou à irmã, e as duas com boas palavras e toda a dedicação que tinham pela "mãe preta", conseguiram que ela lhes contásse a verdade. Mas foi muito difícil, e só abriu mão do segredo com a condição das "suas" meninas nunca dizerem nada ao Papá.- Elas prometeram, e cumpriram, guardaram segredo absoluto. Completamente decepcionadas e tristes, confessaram que preferiam sabê-la morta, traíra o pai que elas adoravam, não a queriam ver nunca...
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O Fernandinho, agora era o Fernando, com vinte anos, deixou África e veio para Lisboa completar os estudos Universitários. A tia que nunca apoiou o comportamento do irmão, achou por bem contar ao sobrinho quem era a sua mãe verdadeira, mesmo correndo o risco de represálias por parte do Alex.
Aquela notícia foi para o Fernando como que um presente...
E Marília pôde finalmente abraçar o filho, que o pai lhe tirara quando ele tinha apenas dois anos, e que nunca mais a deixara voltar a vê-lo. Foi emocionante este reencontro... O primeiro, de muitos.
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Marília administrava com mestria o seu pequeno empreendimento, e estava bem financeira e socialmente, naquela terra que ela adoptou como sua. Agora que já tinha abraçado o seu Fernandinho, só as saudades das filhas se mantinham lancinantes. Soubera pela comadre Rita, da reação negativa que elas haviam manifestado em relação a ela. - Compreendeu, sofreu, e chorou muito, e mais uma vez pensou:- Cá se fazem, cá se pagam.- Não tenho alternativa...
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Passaram mais uns anos. O cabelo de Marília começava a semear de branco, ela ainda era bonita, mas sentia-se a caminhar para o fim. Sem nunca se desfazer do seu monólogo de afirmações, verdadeiras no seu conceito, repetia para si ao lembrar-se das filhas, - é ainda o meu castigo...
Mas não há mal que sempre dure... Marília, emocionada, acabava de ler uma carta que tinha chegado à poucos minutos, e vinha de África. Nem queria acreditar...
" Mamã,
Perdoa-nos. A nossa fé diz que não devemos ser juízes de nossos pais.
Temos sido, em relação a ti, mas não queremos ser mais.
Escrevo-te cheia de tristeza; o Papá partiu para sempre. Partiu sem sofrimento.
Ele não merecia sofrer, tu sabes; mas merecia viver mais tempo.
Estamos muito tristes nem tenho palavras...
Sei que te é possível, vem visitar-nos, vem por uns dias, queremos ver-te.
A Rosy está velhota, e diz que não quer morrer sem te abraçar.
Tenho tantas coisas para falar contigo, e nem consigo escreve-las aqui, estou sem jeito.
Esperamos que nos perdoes, e que venhas.
Lita e Mila
Beijinhos."
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No mês seguinte, Marília voou na T A P para África ao encontro das filhas. O filho foi abraçá-la ao aeroporto da Portela, desejar boa viajem e fazer companhia até à hora da partida.
A viagem pareceu-lhe muito longa, de tanta pressa que tinha de as ver e abraçar...Queria que lhe perdoássem, queria ouvir dos lábios delas, para ter a certeza do seu perdão.
E foram emoções extraordinárias, únicas talvez, naquele reencontro à chegada, e continuadas embora de modo mais calmo, durante a curta estadia de Marília naquela casa, que tão bem conhecia. Foram dias maravilhosos, inesquecíveis mesmo.
Depois chegou o dia e a hora, de as deixar; - foi difícil o adeus, sorriam, choravam, mas estavam felizes. Num ultimo abraço envolvendo as duas filhas, Marília murmurou "agora já posso morrer!" E dirigiu-se para o avião.
A viagem de regresso foi calma, sem turbulência. Marília olhava pela janela do avião e via as nuvens flutuando no céu azul, enquanto as horas passavam demasiado morosas. Uma enorme serenidade tomou conta de si, convidando ao sono. Apertou o cinto, encostou a cabeça, e cerrou os olhos...
Pouco depois adormeceu.
Não tardou a ouvir vindo de longe um conjunto de vozes que cantavam, alternando com os sons de violinos, uma musica muito suave, muito bela... ela conhecia; - procurou lembrar-se do autor... Ah, sabia, pois; era Schubert , era a famosa Avé-Maria... Os cantores caminhavam a passos lentos, mas estavam agora mais perto, ela quase lhes distinguia as feições, pararam. E um dos personagens avançou alguns passos na sua direção e parou também - Era o Dr. Gustavo, que sorridente e de braços abertos lhe dizia em voz alta: - Vem Marília! Vem! Estás Perdoada!
Ela gritou bem alto: - Eu Vou! Eu Vou! - E correu, correu tanto, até cair de cansaço...
No aeroporto à chegada, a aterragem foi normal. E um tanto apressados todos os passageiros saíram do avião, excepto a Marília, que tranquilamente, continuava a dormir, mas desta vez para sempre, no profundo sono eterno.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Cá se Fazem,
O Dr. Gustavo atravessou a rua e parou a olhar para o hospital, aonde trabalhava. Formou-se em medicina na Universidade do Porto, e depois do estágio, sentiu-se atraído por África, e foi para Lourenço Marques.
Agora olhava para aquele hospital aonde era feliz, e sabia que iria sentir saudades. Tinha passado ali mais de dez anos... Mas não podia ali continuar, queria ir para longe, para um local onde não fosse conhecido; tinha de ser. Por isso em breve iria recomeçar a sua vida noutro estabelecimento de saúde, mas na África do Sul; estava decidido, era só questão de tempo.
Há meses que sofria em silêncio, enraivecido, mas também magoado... no entanto, calava a todo o custo, o seu estado de alma, o seu problema sem solução. Ele sempre dizia que o médico deve deixar as suas preocupações do lado de fora do hospital, e entrar livre para o seu trabalho, o seu sacerdócio... E era isso que ele fazia, mas o esforço tornou-se demasiado, e nessas circunstâncias era prejudicial continuar a trabalhar, pelo que decidiu descontar uns dias de férias. E agora ali estava ele dispensado até de fazer noite, (já nessa terça feira como era hábito) e a caminho de casa para descansar.
Já no jardim da sua moradia, reparou na Rosy, a cozinheira, que vinha ao seu encontro, mostrando preocupação porque não esperava ter os senhores para jantar... O sr. Dr. ficava sempre nesta noite no hospital, e a sra. havia saído, e disse que não vinha jantar... Mas que ia já tratar duma refeição, já! Já!
- O Dr., sorridente respondeu-lhe: - não tenhas pressa "minha mãe preta," eu ainda não tenho fome, tens o tempo todo, faz qualquer coisa simples, não te enerves, olha que se adoeces ainda me dás aflições... (o Dr. Gustavo tinha um enorme carinho por esta criada, e chamava-lhe a sua mãe preta.) E depois aonde é que eu encontro quem me faça os pitéus que tu fazes?! Ela retorquiu: - Nesta casa eu não vou adoecer nunca!... e lá foi apressada rumo à cozinha.
-----------------------------------------------------------------
As horas passaram, era já madrugada, e o Dr. Gustavo sentado no sofá da sala, com uma arma nas mãos, uma espécie de espada (tinha várias a decorar as paredes) apreciava a arte daquela peça, com bocadinhos de marfim incrustados imitando folhas. Um trabalho efectuado pelos indígenas, artistas, nem sempre valorizados. Aquela peça fora-lhe oferecida há poucos dias por um colega.
Olhou de novo o relógio, era tarde mas ele não tinha sono. Aguardava a chegada da esposa, e sentia que mesmo sem que o tivesse decidido, estava a chegar o momento de pôr fim aquela triste situação que o minava dia após dia. - Sim, ia ser hoje.
Apesar do adiantado da hora, Marília caminhou devagar pelo jardim da moradia até à porta; introduziu a chave e depois de a abrir, ainda se voltou para mandar um beijo e um aceno de mão, ao homem que encostado ao carro, esperava que ela entrásse em casa. Depois de ver a porta fechada, ele entrou no carro acelerou e partiu.
Marília subiu os poucos degraus que a separavam do primeiro andar, e reparou que na sala havia luz. Ficou sobressaltada, mas foi em frente, e decidida abriu a porta: a surpresa foi aterradora; na sua frente estava o seu marido, agora de pé, e com uma arma na mão... ela estacou; o pânico tolheu-lhe os passos, cobriu a cara com as mãos, e um grito rouco descontrolado saiu-lhe do peito...
-Não precisas de ter medo! Disse o marido olhando para ela com dureza. Eu sou o Dr. Gustavo, sou médico. Sou pela vida, e não pela morte, e não gosto da palavra assassino para acrescentar ao meu nome.
-Nunca pensei usar esta arma, vejo-a apenas como um objecto artístico, e por isso a tinha nas mãos. Mas foi positivo ter pegado nela, se dúvidas tivesse, estariam agora dissipadas; o medo que demonstraste é bem a prova da tua culpa...
-Mas não te vou perguntar onde, nem com quem estiveste, sei tudo, não preciso das tuas explicações descabidas. Esse empresário deu-te volta à cabeça, e já não vês mais nada, nem ninguém, só a ele. Porquê? Porque é rico? Talvez seja por isso; mas repara que ele não é teu marido, e o dinheiro dele não é teu; talvez um dia te detenhas a pensar nisso, mas então será tarde de mais. Calou-se por instantes, depois continuou: - tenho assuntos importantes a comunicar-te; fica marcado para logo à tarde.
E sem dizer mais, desesperado, saiu da sala.
Marília,estava atordoada, já nem tinha a certeza se estava a viver um facto, ou um pesadelo... deixou-se cair num maple, e as lágrimas não se fizeram esperar... mas depois concluiu para si, que na verdade estava enfeitiçada pelo Alex. Não via outro Deus, como sói dizer-se.
Era meio da tarde quando o Dr Gustavo regressou a casa, e se encaminhou logo para o escritório. Não se havia sequer deitado naquela noite, e tinha saído ao nascer do sol; vagueara primeiro pela Cidade, e depois fora tratar de várias formalidades que havia "alinhavado" durante os longos estados de insónia, de que ultimamente sofria.
Sentou-se à secretária, leu a correspondência, e chamou a Rosy para que lhe trouxesse um copo de água, e dissesse à sra. D. Marília para vir ao escritório.
Pouco depois ela entrou, e ficou de pé...
- Senta-te, disse o marido, e de seguida deu inicio ao que pretendia dizer: - Como deves calcular, a partir d'ontem já nada volta a ser igual, no que a nós respeita. Estamos casados, mas esse estatuto só existe nos papeis que assinámos, em nada mais. Não sei se ainda gosto de ti, ou se me dás pena, sei sim que não te quero a meu lado, a tua presença actualmente é - me incomoda e irritante. Mas não quero insultar-te, não sou partidário desse modo de agir; e lamento que actualmente, e até já à algum tempo a esta parte, tenhas caído nas implacáveis bocas do mundo. Sim, porque já nada disto é segredo, tu é que estás convencida disso; esqueces-te que por vezes o mundo é pequeno...
Pôs-se de pé, e abriu uma das gavetas da secretária, da qual retirou um envelope branco que lhe estendeu. Voltou a sentar-se, e continuou:
-Tens nesse envelope, alguns cheques para provêr ás tuas despesas imediatas. Junta todos os valores que te ofereci, jóias, vestidos, tudo o que é teu, presentes que recebeste pelo casamento, leva tudo o que quiseres, e desaparece desta casa. Tens dois dias para isso, depois não te quero ver nunca mais.
Quanto às nossas meninas, ainda bem que estão no colégio interno, não voltes lá, porque não te deixarão entrar. Eu cuidarei para que nada lhes falte.
Saber-me traído é doloroso, mas teres-te esquecido de que eras mãe, é a minha maior mágoa, lembra-te disto. E agora podes sair.
A firmeza com que Gustavo falou era cortante, e Marília não se atreveu a dizer nem uma só palavra; levantou-se, e sentindo tudo a rodar à sua volta, saiu à pressa do escritório com o envelope na mão, fechando a porta atrás de si.
A casa ficou em silêncio...
Duas grossas lágrimas deslizaram lentamente pelas faces trigueiras do Dr. Gustavo.
--------------------------------------------------------------------------
Tinham passado tres anos e meio. Marília residia agora na cidade denominada Sá da Bandeira. Vencidos os remorsos e as mágoas que a atormentaram, voltou a ser feliz. O Alex não a desiludiu, àquela paixão inicial, sucedeu um grande amor, que a cada dia se tornava mais sólido. A vida em sociedade, aquelas festas habituais em África, que ela frequentava em Lourenço Marques, foram retomadas aqui nesta cidade, onde o Alex estava muito bem relacionado, porque tinha ali a sede das suas empresas. A Saudade, mulata forte e bonita, ao serviço como ama, cuidou-lhe do bébé desde o nascimento; o Fernandinho, que agora com dois anos, era um encanto. Outras criadas estavam também ao seu serviço; Marília parecia uma rainha, uma rainha elegante e bonita.
Naquela noite, ao jantar, o Alex muito animado olhou Marília nos olhos e "disparou" : - adivinha a surpresa que eu tenho para ti, é uma coisa que tu desejas muito, ora adivinha, vá...
- Uma coisa que eu desejo muito ? Sei lá, diz tu... ele adiantou :
- olha vamos a Portugal, já marquei para o próximo navio, será no Príncipe Perfeito que iremos viajar. A minha familia vai ficar encantada contigo e com o menino, ele está tão bonito... e com a tua família vai ser igual, vão matar as saudades todas... Marília comoveu-se, e nem sabia se havia de acreditar...- Isso é verdade? Repete! Repete!
E a viagem aconteceu, Chegaram em bem a Lisboa. Depois, sucederam-se os bons momentos nas casas dos parentes do Alex em Cascais, a família era grande, e todos queriam a presença deles num almoço ou jantar, e a Marília via adiar a ida para a sua terra. Já tinha informado a família acerca da chegada a Lisboa, e que depois avisaria na altura, para contarem com eles.
Estava a ficar ansiosa, e naquela manhã foi aos correios; telefonou para o café do sr. Melo, aproveitou para o cumprimentar, e pediu para chamar a irmã, a casa ficava logo ao lado.
Teve más noticias, a mãe já idosa adoecera gravemente, algo infeccioso que estava difícil de debelar, estava mesmo em risco de vida.
De lágrimas nos olhos, disse ao Alex, que ia de imediato no primeiro combóio. Era perigoso levar o Fernandinho, assim, ficava em Cascais com a ama e com ele. Ela é que era filha, ia já, e nem sabia se não seria tarde de mais...
Chegou a tempo, a alegria por ver a filha até animou um pouco a doente, e Marília decidiu ficar, talvez a mãe recuperasse... e nessa altura então viria o Alex e a ama com o Fernandinho.
Tinham passado três semanas. Marília estava sentada junto à cama da mãe, quando ouviu bater à porta. Foi ver; era o correio;- uma carta com aviso de recepção para D. Marília, é a sra. não é? Ela confirmou. Era do Alex - que esquisito, pensou... E foi ler, mas para o seu quarto.
Um barulho estranho soou pela casa. A Irmã correu a ver o que seria e entrou no quarto - meio enrolada sobre si mesma caída no chão, estava a Marília... - o que foi isto? perguntou aflita, enquanto tentava arrastá-la para a cama; ela sem voz, apontou para a folha escrita e o envelope igualmente no chão. A irmã apanhou a carta...
--------------------------------------------------------
" Marília
Sei que vais sofrer. Perdoa-me, porque no coração não se manda. Sabes isso por ti própria...
Apaixonei-me sem querer pela minha prima Lena; e eu que sempre afirmei que nunca me casaria, vou casar em breve. Resolvi regressar mais cedo a África, embarco daqui a pouco, levo o nosso Fernandinho, deves compreender que comigo ele terá tudo, o que te seria impossível proporcionares-lhe. A ama Saudade, continurá com ele na minha casa, ele não irá sofrer, será um menino d'oiro.
Financeiramente, tu não ficas mal, aumentei o depósito da tua conta bancária.
Mando-te um beijo, sinto que não o aceitas, mas peço-te por Deus que aceites o meu pedido por um perdão que te rogo, embora saiba que o não mereço.
Alex"
--------------------------------------------------------------------------------
Passado o grande choque, surge sempre o momento da reflexão... Marília amargurada, voltou a ler a carta, uma e outra vez... Fechou os olhos, e alheia ao que se passava à sua volta, ela via o seu passado, em pormenor, como se fosse um filme. Pensou no marido, o Dr. Gustavo, estava a vê-lo... um homem fascinante, cheio de qualidades, e que a adorava.
-Também ela o trocou pelo Alex há quatro anos atrás... Agora é que sentia quanto isso dói...
Com as lágrimas em catadupa a correr pelas faces, murmurou baixinho: - Alex, só o meu perdão te basta, e és um homem feliz... Que facilidade! Mas quem sou eu, para te censurar?! Deixares-me para trás, é o meu castigo...
" Cá se Fazem, Cá se Pagam ! E Eu, tenho de Pagar..."
Agora olhava para aquele hospital aonde era feliz, e sabia que iria sentir saudades. Tinha passado ali mais de dez anos... Mas não podia ali continuar, queria ir para longe, para um local onde não fosse conhecido; tinha de ser. Por isso em breve iria recomeçar a sua vida noutro estabelecimento de saúde, mas na África do Sul; estava decidido, era só questão de tempo.
Há meses que sofria em silêncio, enraivecido, mas também magoado... no entanto, calava a todo o custo, o seu estado de alma, o seu problema sem solução. Ele sempre dizia que o médico deve deixar as suas preocupações do lado de fora do hospital, e entrar livre para o seu trabalho, o seu sacerdócio... E era isso que ele fazia, mas o esforço tornou-se demasiado, e nessas circunstâncias era prejudicial continuar a trabalhar, pelo que decidiu descontar uns dias de férias. E agora ali estava ele dispensado até de fazer noite, (já nessa terça feira como era hábito) e a caminho de casa para descansar.
Já no jardim da sua moradia, reparou na Rosy, a cozinheira, que vinha ao seu encontro, mostrando preocupação porque não esperava ter os senhores para jantar... O sr. Dr. ficava sempre nesta noite no hospital, e a sra. havia saído, e disse que não vinha jantar... Mas que ia já tratar duma refeição, já! Já!
- O Dr., sorridente respondeu-lhe: - não tenhas pressa "minha mãe preta," eu ainda não tenho fome, tens o tempo todo, faz qualquer coisa simples, não te enerves, olha que se adoeces ainda me dás aflições... (o Dr. Gustavo tinha um enorme carinho por esta criada, e chamava-lhe a sua mãe preta.) E depois aonde é que eu encontro quem me faça os pitéus que tu fazes?! Ela retorquiu: - Nesta casa eu não vou adoecer nunca!... e lá foi apressada rumo à cozinha.
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As horas passaram, era já madrugada, e o Dr. Gustavo sentado no sofá da sala, com uma arma nas mãos, uma espécie de espada (tinha várias a decorar as paredes) apreciava a arte daquela peça, com bocadinhos de marfim incrustados imitando folhas. Um trabalho efectuado pelos indígenas, artistas, nem sempre valorizados. Aquela peça fora-lhe oferecida há poucos dias por um colega.
Olhou de novo o relógio, era tarde mas ele não tinha sono. Aguardava a chegada da esposa, e sentia que mesmo sem que o tivesse decidido, estava a chegar o momento de pôr fim aquela triste situação que o minava dia após dia. - Sim, ia ser hoje.
Apesar do adiantado da hora, Marília caminhou devagar pelo jardim da moradia até à porta; introduziu a chave e depois de a abrir, ainda se voltou para mandar um beijo e um aceno de mão, ao homem que encostado ao carro, esperava que ela entrásse em casa. Depois de ver a porta fechada, ele entrou no carro acelerou e partiu.
Marília subiu os poucos degraus que a separavam do primeiro andar, e reparou que na sala havia luz. Ficou sobressaltada, mas foi em frente, e decidida abriu a porta: a surpresa foi aterradora; na sua frente estava o seu marido, agora de pé, e com uma arma na mão... ela estacou; o pânico tolheu-lhe os passos, cobriu a cara com as mãos, e um grito rouco descontrolado saiu-lhe do peito...
-Não precisas de ter medo! Disse o marido olhando para ela com dureza. Eu sou o Dr. Gustavo, sou médico. Sou pela vida, e não pela morte, e não gosto da palavra assassino para acrescentar ao meu nome.
-Nunca pensei usar esta arma, vejo-a apenas como um objecto artístico, e por isso a tinha nas mãos. Mas foi positivo ter pegado nela, se dúvidas tivesse, estariam agora dissipadas; o medo que demonstraste é bem a prova da tua culpa...
-Mas não te vou perguntar onde, nem com quem estiveste, sei tudo, não preciso das tuas explicações descabidas. Esse empresário deu-te volta à cabeça, e já não vês mais nada, nem ninguém, só a ele. Porquê? Porque é rico? Talvez seja por isso; mas repara que ele não é teu marido, e o dinheiro dele não é teu; talvez um dia te detenhas a pensar nisso, mas então será tarde de mais. Calou-se por instantes, depois continuou: - tenho assuntos importantes a comunicar-te; fica marcado para logo à tarde.
E sem dizer mais, desesperado, saiu da sala.
Marília,estava atordoada, já nem tinha a certeza se estava a viver um facto, ou um pesadelo... deixou-se cair num maple, e as lágrimas não se fizeram esperar... mas depois concluiu para si, que na verdade estava enfeitiçada pelo Alex. Não via outro Deus, como sói dizer-se.
Era meio da tarde quando o Dr Gustavo regressou a casa, e se encaminhou logo para o escritório. Não se havia sequer deitado naquela noite, e tinha saído ao nascer do sol; vagueara primeiro pela Cidade, e depois fora tratar de várias formalidades que havia "alinhavado" durante os longos estados de insónia, de que ultimamente sofria.
Sentou-se à secretária, leu a correspondência, e chamou a Rosy para que lhe trouxesse um copo de água, e dissesse à sra. D. Marília para vir ao escritório.
Pouco depois ela entrou, e ficou de pé...
- Senta-te, disse o marido, e de seguida deu inicio ao que pretendia dizer: - Como deves calcular, a partir d'ontem já nada volta a ser igual, no que a nós respeita. Estamos casados, mas esse estatuto só existe nos papeis que assinámos, em nada mais. Não sei se ainda gosto de ti, ou se me dás pena, sei sim que não te quero a meu lado, a tua presença actualmente é - me incomoda e irritante. Mas não quero insultar-te, não sou partidário desse modo de agir; e lamento que actualmente, e até já à algum tempo a esta parte, tenhas caído nas implacáveis bocas do mundo. Sim, porque já nada disto é segredo, tu é que estás convencida disso; esqueces-te que por vezes o mundo é pequeno...
Pôs-se de pé, e abriu uma das gavetas da secretária, da qual retirou um envelope branco que lhe estendeu. Voltou a sentar-se, e continuou:
-Tens nesse envelope, alguns cheques para provêr ás tuas despesas imediatas. Junta todos os valores que te ofereci, jóias, vestidos, tudo o que é teu, presentes que recebeste pelo casamento, leva tudo o que quiseres, e desaparece desta casa. Tens dois dias para isso, depois não te quero ver nunca mais.
Quanto às nossas meninas, ainda bem que estão no colégio interno, não voltes lá, porque não te deixarão entrar. Eu cuidarei para que nada lhes falte.
Saber-me traído é doloroso, mas teres-te esquecido de que eras mãe, é a minha maior mágoa, lembra-te disto. E agora podes sair.
A firmeza com que Gustavo falou era cortante, e Marília não se atreveu a dizer nem uma só palavra; levantou-se, e sentindo tudo a rodar à sua volta, saiu à pressa do escritório com o envelope na mão, fechando a porta atrás de si.
A casa ficou em silêncio...
Duas grossas lágrimas deslizaram lentamente pelas faces trigueiras do Dr. Gustavo.
--------------------------------------------------------------------------
Tinham passado tres anos e meio. Marília residia agora na cidade denominada Sá da Bandeira. Vencidos os remorsos e as mágoas que a atormentaram, voltou a ser feliz. O Alex não a desiludiu, àquela paixão inicial, sucedeu um grande amor, que a cada dia se tornava mais sólido. A vida em sociedade, aquelas festas habituais em África, que ela frequentava em Lourenço Marques, foram retomadas aqui nesta cidade, onde o Alex estava muito bem relacionado, porque tinha ali a sede das suas empresas. A Saudade, mulata forte e bonita, ao serviço como ama, cuidou-lhe do bébé desde o nascimento; o Fernandinho, que agora com dois anos, era um encanto. Outras criadas estavam também ao seu serviço; Marília parecia uma rainha, uma rainha elegante e bonita.
Naquela noite, ao jantar, o Alex muito animado olhou Marília nos olhos e "disparou" : - adivinha a surpresa que eu tenho para ti, é uma coisa que tu desejas muito, ora adivinha, vá...
- Uma coisa que eu desejo muito ? Sei lá, diz tu... ele adiantou :
- olha vamos a Portugal, já marquei para o próximo navio, será no Príncipe Perfeito que iremos viajar. A minha familia vai ficar encantada contigo e com o menino, ele está tão bonito... e com a tua família vai ser igual, vão matar as saudades todas... Marília comoveu-se, e nem sabia se havia de acreditar...- Isso é verdade? Repete! Repete!
E a viagem aconteceu, Chegaram em bem a Lisboa. Depois, sucederam-se os bons momentos nas casas dos parentes do Alex em Cascais, a família era grande, e todos queriam a presença deles num almoço ou jantar, e a Marília via adiar a ida para a sua terra. Já tinha informado a família acerca da chegada a Lisboa, e que depois avisaria na altura, para contarem com eles.
Estava a ficar ansiosa, e naquela manhã foi aos correios; telefonou para o café do sr. Melo, aproveitou para o cumprimentar, e pediu para chamar a irmã, a casa ficava logo ao lado.
Teve más noticias, a mãe já idosa adoecera gravemente, algo infeccioso que estava difícil de debelar, estava mesmo em risco de vida.
De lágrimas nos olhos, disse ao Alex, que ia de imediato no primeiro combóio. Era perigoso levar o Fernandinho, assim, ficava em Cascais com a ama e com ele. Ela é que era filha, ia já, e nem sabia se não seria tarde de mais...
Chegou a tempo, a alegria por ver a filha até animou um pouco a doente, e Marília decidiu ficar, talvez a mãe recuperasse... e nessa altura então viria o Alex e a ama com o Fernandinho.
Tinham passado três semanas. Marília estava sentada junto à cama da mãe, quando ouviu bater à porta. Foi ver; era o correio;- uma carta com aviso de recepção para D. Marília, é a sra. não é? Ela confirmou. Era do Alex - que esquisito, pensou... E foi ler, mas para o seu quarto.
Um barulho estranho soou pela casa. A Irmã correu a ver o que seria e entrou no quarto - meio enrolada sobre si mesma caída no chão, estava a Marília... - o que foi isto? perguntou aflita, enquanto tentava arrastá-la para a cama; ela sem voz, apontou para a folha escrita e o envelope igualmente no chão. A irmã apanhou a carta...
--------------------------------------------------------
" Marília
Sei que vais sofrer. Perdoa-me, porque no coração não se manda. Sabes isso por ti própria...
Apaixonei-me sem querer pela minha prima Lena; e eu que sempre afirmei que nunca me casaria, vou casar em breve. Resolvi regressar mais cedo a África, embarco daqui a pouco, levo o nosso Fernandinho, deves compreender que comigo ele terá tudo, o que te seria impossível proporcionares-lhe. A ama Saudade, continurá com ele na minha casa, ele não irá sofrer, será um menino d'oiro.
Financeiramente, tu não ficas mal, aumentei o depósito da tua conta bancária.
Mando-te um beijo, sinto que não o aceitas, mas peço-te por Deus que aceites o meu pedido por um perdão que te rogo, embora saiba que o não mereço.
Alex"
--------------------------------------------------------------------------------
Passado o grande choque, surge sempre o momento da reflexão... Marília amargurada, voltou a ler a carta, uma e outra vez... Fechou os olhos, e alheia ao que se passava à sua volta, ela via o seu passado, em pormenor, como se fosse um filme. Pensou no marido, o Dr. Gustavo, estava a vê-lo... um homem fascinante, cheio de qualidades, e que a adorava.
-Também ela o trocou pelo Alex há quatro anos atrás... Agora é que sentia quanto isso dói...
Com as lágrimas em catadupa a correr pelas faces, murmurou baixinho: - Alex, só o meu perdão te basta, e és um homem feliz... Que facilidade! Mas quem sou eu, para te censurar?! Deixares-me para trás, é o meu castigo...
" Cá se Fazem, Cá se Pagam ! E Eu, tenho de Pagar..."
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
A confissão do Poeta
Hoje apesar da aragem fria, esteve um lindo dia de sol. Grata por esta luminosidade, ainda de manhã abri as janelas e os cortinados. O sol não se fez rogado e entrou; lentamente foi avançando e quando reparei já banhava uma fila de livros, que à falta de melhor sitio ali estão, agora como decoração. Gosto muito do sol, mas fui logo proteger os livros dando-lhes a sombra que eles merecem. Livros "são tentação", levei um comigo, sentei-me e esqueci as horas...
Soneto
Ser doido-alegre, que maior ventura!
Morrer vivendo p´ra além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Quem nem na morte crê, que felicidade!
Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola, a falsa caridade,
Que bem no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.
Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem
De ver no purgatório um paraíso...
Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P´ra suportar melhor quem tem juízo.
António Aleixo
Soneto
Ser doido-alegre, que maior ventura!
Morrer vivendo p´ra além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Quem nem na morte crê, que felicidade!
Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola, a falsa caridade,
Que bem no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.
Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem
De ver no purgatório um paraíso...
Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P´ra suportar melhor quem tem juízo.
António Aleixo
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Adeus Amigo
Eu teria talvez uns dez anos quando o meu pai me presenteou com uma máquina fotográfica, um "caxotito" com capa de plástico verde escuro, com alça para colocar ao ombro. ( Eu já aqui contei isto, assim como a aquisição posterior doutras máquinas de melhor qualidade, que ainda hoje guardo como recordações.) Funcionavam com rolos de oito fotos, e como em Montemor não havia laboratório de revelação, era em Coimbra que as películas eram reveladas e as fotografias impressas.
Isto até ao dia em que um jovem com pouco mais de vinte anos, se abalançou a trabalhar na arte da fotografia por conta própria na sua terra, a Figueira da Foz.
Estava longe a publicidade organizada, e ele dirigiu-se a Montemor para visitar o meu Pai, que era seu primo, e dar-lhe conta da responsabilidade que tomara, pois iria começar daí a dias a trabalhar no seu pequeno estabelecimento, A Foto Liz.
O meu pai gostou de saber, desejou-lhe muito êxito, e naturalmente ficou cliente.
Eram os motoristas da camionete da carreira que traziam os nossos rolos de películas para ele tratar, e passados três ou quatro dias levavam as fotos ; eu já estava à porta, ansiosa à espera, e eles nem paravam, atiravam pela janela. (que simplicidade...)
O tempo ia passando, e quando eu vinha à Figueira parava sempre naquele estabelecimento para um olá... Sempre me tratou por prima, estando eu até num grau familiar bastante distante para isso, o que demonstrava a estima que me dedicava.
Na altura devida convidei-o para o meu casamento, e para fazer as fotos. Ele aceitou sem reservas. Foi há muito tempo, mas recordo ainda a sua alegria a abraçar o meu pai, e sorridente a dizer para o cunhado que era o Fernando cabeleireiro e para outro amigo "vocês têm pena de não terem uma prima tão linda como eu tenho..."
Muitos anos depois viémos residir para a Figueira da Foz. Ficámos mais perto... Quando do casamento da minha filha ele esteve connosco; eu já não tinha o meu pai, mas ainda tinha aquele primo ali a meu lado, a presença amiga do único parente que restava do lado dele.
Guardo alguns trabalhos seus; algumas ampliações, e uma em especial, a côres, de quando a fotografia era apenas a preto e branco e as côres eram aplicadas pelo fotógrafo.
Ele tornou-se um mestre também na arte da recuperação de retratos antigos, era mesmo um artista.
Um artista que ontem desapareceu para sempre. Chamava-se António Brandão Faria, partiu na viagem sem regresso, e não voltará mais à sua Foto Liz...
Encarei este facto em silêncio, mas com mágoa. Eu sei que ele apenas nos leva a dianteira, pois é caminho que nos espera a todos, mas isso não é suficiente para me alhear da triste realidade, e não sentir que perdi um amigo.
( a foto que coloquei pertence ao blog O Palhetas na Foz )
Isto até ao dia em que um jovem com pouco mais de vinte anos, se abalançou a trabalhar na arte da fotografia por conta própria na sua terra, a Figueira da Foz.
Estava longe a publicidade organizada, e ele dirigiu-se a Montemor para visitar o meu Pai, que era seu primo, e dar-lhe conta da responsabilidade que tomara, pois iria começar daí a dias a trabalhar no seu pequeno estabelecimento, A Foto Liz.
O meu pai gostou de saber, desejou-lhe muito êxito, e naturalmente ficou cliente.
Eram os motoristas da camionete da carreira que traziam os nossos rolos de películas para ele tratar, e passados três ou quatro dias levavam as fotos ; eu já estava à porta, ansiosa à espera, e eles nem paravam, atiravam pela janela. (que simplicidade...)
O tempo ia passando, e quando eu vinha à Figueira parava sempre naquele estabelecimento para um olá... Sempre me tratou por prima, estando eu até num grau familiar bastante distante para isso, o que demonstrava a estima que me dedicava.
Na altura devida convidei-o para o meu casamento, e para fazer as fotos. Ele aceitou sem reservas. Foi há muito tempo, mas recordo ainda a sua alegria a abraçar o meu pai, e sorridente a dizer para o cunhado que era o Fernando cabeleireiro e para outro amigo "vocês têm pena de não terem uma prima tão linda como eu tenho..."
Muitos anos depois viémos residir para a Figueira da Foz. Ficámos mais perto... Quando do casamento da minha filha ele esteve connosco; eu já não tinha o meu pai, mas ainda tinha aquele primo ali a meu lado, a presença amiga do único parente que restava do lado dele.
Guardo alguns trabalhos seus; algumas ampliações, e uma em especial, a côres, de quando a fotografia era apenas a preto e branco e as côres eram aplicadas pelo fotógrafo.
Ele tornou-se um mestre também na arte da recuperação de retratos antigos, era mesmo um artista.
Um artista que ontem desapareceu para sempre. Chamava-se António Brandão Faria, partiu na viagem sem regresso, e não voltará mais à sua Foto Liz...
Encarei este facto em silêncio, mas com mágoa. Eu sei que ele apenas nos leva a dianteira, pois é caminho que nos espera a todos, mas isso não é suficiente para me alhear da triste realidade, e não sentir que perdi um amigo.
( a foto que coloquei pertence ao blog O Palhetas na Foz )
domingo, 25 de janeiro de 2015
Praia Deserta - É Inverno
O mar da Costa; da Costa de Lavos, perto da Figueira da Foz. Foto feita em contra luz, totalmente a êsmo, o sol não estava a meu favor.
Parece que uma onda alterosa elevou o barco, mas não ... apenas êrro meu.
Em terra de pescadores os seus símbolos enfeitam as rotundas. Assim é aqui, na Costa de Lavos
Parece que uma onda alterosa elevou o barco, mas não ... apenas êrro meu.
Em terra de pescadores os seus símbolos enfeitam as rotundas. Assim é aqui, na Costa de Lavos
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Aniversário
Desta vez fui assaltada pela nostalgia. É verdade; - não sei se o tempo influenciou com o frio intenso e chuva (foi nesta sexta feira) para o estado de melancolia que me atingiu em cheio, o certo é que nem jantar fora aconteceu.
Mas aconteceu em casa, e depois o champanhe ajudou a aquecer os ânimos, e eu melhorei.
Não sei se cá estaremos para o ano, mas 49 anos de casamento já ninguém nos tira.
Fui buscar o album destas nossas recordações, e decidi partilhar...
Mas aconteceu em casa, e depois o champanhe ajudou a aquecer os ânimos, e eu melhorei.
Não sei se cá estaremos para o ano, mas 49 anos de casamento já ninguém nos tira.
Fui buscar o album destas nossas recordações, e decidi partilhar...
sábado, 3 de janeiro de 2015
O cão e o homem

Encontrei esta oração num blog que visito com assiduidade. Costumo pedir mas desta vez prevariquei, trouxe sem dizer nada. Eu sei que estou desculpada, por isso "abuso..."
O nome do blog é Presente.
A oração, uma chamada de atenção para o que podemos ser e não somos, e também para o comportamento do cão, os seus valores nem sempre tidos em conta.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Hoje na Figueira da Foz
Pelas dezoito horas. Quem dirá que estamos com temperaturas demasiado baixas?!
Este céu, em certas alturas, augura calor para o dia seguinte. Porém, desta vez está a enganar-nos com esta beleza...
Este céu, em certas alturas, augura calor para o dia seguinte. Porém, desta vez está a enganar-nos com esta beleza...
domingo, 21 de dezembro de 2014
Era Noite de Natal
Adeus sr. engenheiro, Feliz Natal! Repetiam os empregados um a um, à medida que deixavam o escritório. Saíam apressados, era na véspera de Natal. Paulo Ferreira o engenheiro, de pé apertava a mão a todos, retribuía as Felicitações e sorria, aparentando uma disposição que na verdade não tinha.
As instalações ficaram em silêncio, e ele sabendo-se só, sentou-se na cadeira de espaldar, frente à secretária, deixou descair a cabeça para trás e fechou os olhos.
Alheio a tudo o que o rodeava, deu largas ao pensamento, e deteve-se no passado cheio de boas recordações. Impossível não reparar no contraste em relação à sua situação actual, o que o levou a murmurar -"feliz nos negócios, infeliz nos amores" diz o povo, e tem razão.
Passaram alguns minutos antes que decidisse abrir os olhos. Verificou as horas, e então ergueu-se rápido, olhou em redor certificando-se de que estava tudo em ordem, desligou o ar condicionado, e deixou o escritório.
Passaram alguns minutos antes que decidisse abrir os olhos. Verificou as horas, e então ergueu-se rápido, olhou em redor certificando-se de que estava tudo em ordem, desligou o ar condicionado, e deixou o escritório.
Apressado caminhou os escassos metros que o separavam da sua residência, subiu no elevador, e entrou em casa. O silêncio no grande apartamento entristeceu-o, vacilou de novo, e desalentado deixou-se cair num maple com a cabeça entre as mãos. Lidava mal com o estatuto de divorciado, precisava de tempo, dizia ele para si próprio sem grande convicção.
Pouco depois, o ruído do telefone sobrepôs-se, e embora contrariado, foi atender: - era um colega para lhe desejar Feliz Natal. Conversaram, e ele animou-se.
Pouco depois, o ruído do telefone sobrepôs-se, e embora contrariado, foi atender: - era um colega para lhe desejar Feliz Natal. Conversaram, e ele animou-se.
Depois, um banho quente ajudou, e daí a pouco, devidamente cuidado, descia à garagem carregando os presentes que tinha comprado para oferecer ao seu único filho, o Paulinho de quase quatro anos. A tristeza desvanecera-se um pouco, sentia-se melhor... Afinal é Natal, murmurava em pensamento, procurando ser forte.
Entrou no carro, ligou a ignição, e daí a pouco já circulava pela avenida a caminho da segunda transversal, aonde numa bela moradia viviam os seus sogros.
Entrou no carro, ligou a ignição, e daí a pouco já circulava pela avenida a caminho da segunda transversal, aonde numa bela moradia viviam os seus sogros.
Ao aproximar-se diminuiu a velocidade, e estacionou um pouco antes do portão do jardim. Pelas janelas do 1º andar via-se que grande parte da casa estava profusamente iluminada. Paulo dirigiu-se para a entrada e tocou à campaínha. A porta abriu-se, era a Alice a criada, que num misto de satisfação e mágoa, cumprimentou o sr. engenheiro e o conduziu á sala grande, aonde numa mesa preparada para a ceia, brilhavam as louças e os cristais. Num dos cantos lá estava uma enorme árvore de Natal, tudo como dantes tal como ele previra, toda a família reunida e ainda alguns convidados.
- Papá, Papá, gritou o Paulinho precipitando-se em correria para os braços do Pai, que enternecido o abraçava e lhe estendia os presentes. A criada levou os embrulhos para junto da árvore de Natal, enquanto o Paulinho monopolizava o Pai em todos os sentidos, e ele se julgava o mais feliz dos mortais.
- PaPá quero cólo! Não me ponhas no chão! Quero que fales comigo! Sabes, eu tenho amigos na escolinha, e já sei o nome deles. Ficas comigo e com a Mamã, não ficas? Estão cá todos, e tu nunca mais vinhas... Olha, depois ajudas-me a abrir os presentes? São muitos anda cá ver!!! Paulo queria falar, mas não tinha palavras, aquela situação era nova, e muito embaraçosa...
- Papá, Papá, gritou o Paulinho precipitando-se em correria para os braços do Pai, que enternecido o abraçava e lhe estendia os presentes. A criada levou os embrulhos para junto da árvore de Natal, enquanto o Paulinho monopolizava o Pai em todos os sentidos, e ele se julgava o mais feliz dos mortais.
- PaPá quero cólo! Não me ponhas no chão! Quero que fales comigo! Sabes, eu tenho amigos na escolinha, e já sei o nome deles. Ficas comigo e com a Mamã, não ficas? Estão cá todos, e tu nunca mais vinhas... Olha, depois ajudas-me a abrir os presentes? São muitos anda cá ver!!! Paulo queria falar, mas não tinha palavras, aquela situação era nova, e muito embaraçosa...
O alvoroço do Paulinho contrastava com a atitude da Familia que assistia á cena sem um único sorriso, colocando o engenheiro no papel de intruso. Aquele desdém era por de mais notório, e ele sentiu-se constrangido.
Logo que o filho "consentiu," apressou-se a cumprimentar todos os familiares, e a Leonor sua ex-esposa, que friamente aceitaram os cumprimentos. E como ninguém lhe disse para ficar, nem um pouco de tempo sequer, beijou o filho e saiu.
Já no jardim, aos seus ouvidos chegaram uns gritos: - Eu quero o PaPá! Eu quero! Eu quero! Seguiu-se um gritar continuado... Paulo sentiu-se gelar, e parou indeciso ... Mas naquela casa já não havia lugar para si, nem mesmo durante uns minutos na noite de Natal. E com esta certeza e o coração partido, dirigiu-se ao carro, deu volta à chave e, acelerou, sem destino...
Áquela hora, as ruas da cidade estavam práticamente desertas, era a noite da consoada, a maioria das familias estava reunida em casa como é de tradição. O engenheiro Paulo conduzia agora sem pressa, um tanto a êsmo, duma rua virava para outra, dir-se-ia que andava a ver as ornamentações Natalícias... mas não, ele ainda sentia nos ouvidos os gritos do filho a chamar por ele, e isso doía, doía muito... Depois também a forma desagradável como fora recebido naquela casa... Não esperava ser convidado para jantar, nem tão pouco aceitaria, mas aquele desprezo, foi de mais... E afinal porquê? Se ele nem sequer era culpado...
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Enquanto conduzia sem rumo, a memória trazia-lhe "o filme" dos seus ultimos anos de casado...
Tinham tido um casamento auspicioso, e foram muito felizes até ao nascimento do Paulinho. Depois a Leonor alterou-se completamente, vivia dominada por uma neurose obsessiva pela criança, e aos poucos foi-se afastando do Paulo.
Ele adorava-a, e entendia o facto como sendo um caso patológico mas que havia de curar-se, e voltariam a ser felizes. Não queria duvidar. - A medicina faz milagres, dizia ele cheio de esperança...
Consultaram vários especialistas, ela fez a medicação recomendada, mas à medida que o tempo passava, maior era a aversão que ela manifestava em relação ao casamento, e ao marido. Era de facto um caso patológico, do foro psiquiátrico. Paulo sofria, mas continuava a esperar...
Foi ela que pediu a separação, o Paulo não queria, mas dada a insistência dela e da familia, acabou por aceitar. Seguiu-se um divórcio de comum acordo e até a promessa de que ficariam amigos; era uma boa decisão até pelo Paulinho.
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Paulo sentia a cabeça a estoirar... encostou à beira e saiu do carro. O ar frio bateu-lhe em cheio na cara,e embora desagradável foi de efeito benéfico, qual sedativo natural sem contra indicações. E começou a raciocinar de modo mais lógico : -" Ficarmos amigos? Mas afinal para quê? " Para isto?
Até me fica mal ser tão ingénuo... Mas que posso eu esperar? Nada! Eu é que estou errado.
E já não se atreve a comentar de modo tão negativo, a atitude dos seus sogros. Vai mesmo mais longe e escreve na pequena agenda, o pensamento que lhe surgiu no actual momento: - " Talvez esta família, que já não é a minha, se esteja a reger pelas leis da razão - enquanto eu me regi, pelas leis do coração... "
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Ufa!!! Que noite de Consoada...
Começou a sentir frio, desconforto, e recordou-se que não tinha jantado; precisava de fazer uma refeição, uma comida quente. Entrou no carro e seguiu devagar até à ponte, rumo a um restaurante que ficava do outro lado do rio. Um pouco de nevoeiro alterou em parte a visibilidade; - abrandou ainda mais a velocidade, e reparou então num vulto negro que corria, e parou a meio da ponte fixando o abismo. Havia ali forte determinação pois nem deu conta do carro que parou próximo. Pousou a mala de mão, e agarrou-se ao gradeamento para ganhar impulso. Ia lançar-se, mas os braços vigorosos de Paulo conseguiram segurá-la a tempo.
Uma figura elegante de mulher jovem, vestida de preto, estava ali encostada ao seu peito, envergonhada e cheia de lágrimas. Paulo respeitou o seu sofrimento, e não lhe fez perguntas, apenas lhe dirigiu palavras de compreensão, e aguardou. Quando lhe pareceu que podia ajudá-la, tentou...
-Agora que já está mais calma, vou levá-la a casa, disse-lhe, ao mesmo tempo que a encaminhava na direção do seu carro desarrumado. - A sua família deve estar a sofrer de preocupação; diga-me onde mora... ela parou e com a voz embargada respondeu; - eu não tenho família nesta cidade... Estou cá há pouco tempo. Sou professora e dou aulas numa vila deste Distrito. Agradeço, mas não é necessário, tenho o meu carro ali atrás, meio escondido, não esperava precisar mais dele.
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Paulo não demonstrava, mas neste momento sentia-se muito contente - tinha salvo uma vida na noite da Consoada! E este facto fazia-o esquecer as contrariedades que vivera neste principio de noite.
Perguntou-lhe o nome, e ela disse, sou Rosália.
-Então Rosália venha jantar comigo, sou um desconhecido para si, mas pode confiar, sou o Paulo Ferreira, disse, enquanto lhe estendia um cartão de visita com a sua identificação.
O restaurante Rio Calmo fica perto, se fosse de dia, via-se daqui.
Rosália aceitou. Jantaram juntos, e o Paulo até ficou assim um pouco de asa caída por ela, embora não o confessásse, ainda... Ela era uma jovem discreta, fina, e educada, mas triste, e carregada de luto. Acabou por lhe contar com palavras misturadas com lágrimas, que era viúva, e tinha sido muito feliz com o seu Rui, mas um brutal acidente de viação roubara-lhe a vida, à pouco mais dum mês. Ela tinha família na terra, mas não quis ir lá passar o Natal, não tinha alegria para isso. E duas semanas passavam rápido, logo findavam as férias, e voltava o trabalho que sempre distrai...
Mas hoje, tinha sentido tantas saudades do Rui, que pensou ir para junto dele...
E Paulo não disse, mas também pensou - "ela queria ir para junto dele, mas eu não deixei ! "
E nem vou deixar !...
Logo que o filho "consentiu," apressou-se a cumprimentar todos os familiares, e a Leonor sua ex-esposa, que friamente aceitaram os cumprimentos. E como ninguém lhe disse para ficar, nem um pouco de tempo sequer, beijou o filho e saiu.
Já no jardim, aos seus ouvidos chegaram uns gritos: - Eu quero o PaPá! Eu quero! Eu quero! Seguiu-se um gritar continuado... Paulo sentiu-se gelar, e parou indeciso ... Mas naquela casa já não havia lugar para si, nem mesmo durante uns minutos na noite de Natal. E com esta certeza e o coração partido, dirigiu-se ao carro, deu volta à chave e, acelerou, sem destino...
Áquela hora, as ruas da cidade estavam práticamente desertas, era a noite da consoada, a maioria das familias estava reunida em casa como é de tradição. O engenheiro Paulo conduzia agora sem pressa, um tanto a êsmo, duma rua virava para outra, dir-se-ia que andava a ver as ornamentações Natalícias... mas não, ele ainda sentia nos ouvidos os gritos do filho a chamar por ele, e isso doía, doía muito... Depois também a forma desagradável como fora recebido naquela casa... Não esperava ser convidado para jantar, nem tão pouco aceitaria, mas aquele desprezo, foi de mais... E afinal porquê? Se ele nem sequer era culpado...
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Enquanto conduzia sem rumo, a memória trazia-lhe "o filme" dos seus ultimos anos de casado...
Tinham tido um casamento auspicioso, e foram muito felizes até ao nascimento do Paulinho. Depois a Leonor alterou-se completamente, vivia dominada por uma neurose obsessiva pela criança, e aos poucos foi-se afastando do Paulo.
Ele adorava-a, e entendia o facto como sendo um caso patológico mas que havia de curar-se, e voltariam a ser felizes. Não queria duvidar. - A medicina faz milagres, dizia ele cheio de esperança...
Consultaram vários especialistas, ela fez a medicação recomendada, mas à medida que o tempo passava, maior era a aversão que ela manifestava em relação ao casamento, e ao marido. Era de facto um caso patológico, do foro psiquiátrico. Paulo sofria, mas continuava a esperar...
Foi ela que pediu a separação, o Paulo não queria, mas dada a insistência dela e da familia, acabou por aceitar. Seguiu-se um divórcio de comum acordo e até a promessa de que ficariam amigos; era uma boa decisão até pelo Paulinho.
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Paulo sentia a cabeça a estoirar... encostou à beira e saiu do carro. O ar frio bateu-lhe em cheio na cara,e embora desagradável foi de efeito benéfico, qual sedativo natural sem contra indicações. E começou a raciocinar de modo mais lógico : -" Ficarmos amigos? Mas afinal para quê? " Para isto?
Até me fica mal ser tão ingénuo... Mas que posso eu esperar? Nada! Eu é que estou errado.
E já não se atreve a comentar de modo tão negativo, a atitude dos seus sogros. Vai mesmo mais longe e escreve na pequena agenda, o pensamento que lhe surgiu no actual momento: - " Talvez esta família, que já não é a minha, se esteja a reger pelas leis da razão - enquanto eu me regi, pelas leis do coração... "
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Ufa!!! Que noite de Consoada...
Começou a sentir frio, desconforto, e recordou-se que não tinha jantado; precisava de fazer uma refeição, uma comida quente. Entrou no carro e seguiu devagar até à ponte, rumo a um restaurante que ficava do outro lado do rio. Um pouco de nevoeiro alterou em parte a visibilidade; - abrandou ainda mais a velocidade, e reparou então num vulto negro que corria, e parou a meio da ponte fixando o abismo. Havia ali forte determinação pois nem deu conta do carro que parou próximo. Pousou a mala de mão, e agarrou-se ao gradeamento para ganhar impulso. Ia lançar-se, mas os braços vigorosos de Paulo conseguiram segurá-la a tempo.
Uma figura elegante de mulher jovem, vestida de preto, estava ali encostada ao seu peito, envergonhada e cheia de lágrimas. Paulo respeitou o seu sofrimento, e não lhe fez perguntas, apenas lhe dirigiu palavras de compreensão, e aguardou. Quando lhe pareceu que podia ajudá-la, tentou...
-Agora que já está mais calma, vou levá-la a casa, disse-lhe, ao mesmo tempo que a encaminhava na direção do seu carro desarrumado. - A sua família deve estar a sofrer de preocupação; diga-me onde mora... ela parou e com a voz embargada respondeu; - eu não tenho família nesta cidade... Estou cá há pouco tempo. Sou professora e dou aulas numa vila deste Distrito. Agradeço, mas não é necessário, tenho o meu carro ali atrás, meio escondido, não esperava precisar mais dele.
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Paulo não demonstrava, mas neste momento sentia-se muito contente - tinha salvo uma vida na noite da Consoada! E este facto fazia-o esquecer as contrariedades que vivera neste principio de noite.
Perguntou-lhe o nome, e ela disse, sou Rosália.
-Então Rosália venha jantar comigo, sou um desconhecido para si, mas pode confiar, sou o Paulo Ferreira, disse, enquanto lhe estendia um cartão de visita com a sua identificação.
O restaurante Rio Calmo fica perto, se fosse de dia, via-se daqui.
Rosália aceitou. Jantaram juntos, e o Paulo até ficou assim um pouco de asa caída por ela, embora não o confessásse, ainda... Ela era uma jovem discreta, fina, e educada, mas triste, e carregada de luto. Acabou por lhe contar com palavras misturadas com lágrimas, que era viúva, e tinha sido muito feliz com o seu Rui, mas um brutal acidente de viação roubara-lhe a vida, à pouco mais dum mês. Ela tinha família na terra, mas não quis ir lá passar o Natal, não tinha alegria para isso. E duas semanas passavam rápido, logo findavam as férias, e voltava o trabalho que sempre distrai...
Mas hoje, tinha sentido tantas saudades do Rui, que pensou ir para junto dele...
E Paulo não disse, mas também pensou - "ela queria ir para junto dele, mas eu não deixei ! "
E nem vou deixar !...
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Mimos do Brasil
Surpresa agradável dá boa disposição. Foi o que aconteceu quando o carteiro me entregou uma encomenda, uma caixa amarela que vinha de São Paulo no Brasil. Pela letra eu fiquei logo a saber de quem era, mesmo antes de ler o remetente. Vinha da amiga Lígia do blog Liláses Azuis, uma das primeiras bloguistas a deixar comentários no meu blog, há mais de cinco anos atrás. Sem nos conhecermos pessoalmente, aconteceu uma certa estima entre nós, e da minha parte também extensiva à sua familia mais próxima "que eu já conheço..."
Já não é a primeira vez, mas mesmo já tendo acontecido, foi com algum alvoroço que abri esta encomenda. Quem não gosta de ser mimada? Eu gosto, e muito.
E dentro encontrei coisas com muita graciosidade, eu vou mostrar.-
Quis colocar tudo nesta foto, mas ficou assim um amontoado sem graça...
É para fazer o bolo de caneca, mas tem o feitio de chávena (mais bonito) é branquinha e decorada a castanho.
Já não é a primeira vez, mas mesmo já tendo acontecido, foi com algum alvoroço que abri esta encomenda. Quem não gosta de ser mimada? Eu gosto, e muito.
E dentro encontrei coisas com muita graciosidade, eu vou mostrar.-
Quis colocar tudo nesta foto, mas ficou assim um amontoado sem graça...
É para fazer o bolo de caneca, mas tem o feitio de chávena (mais bonito) é branquinha e decorada a castanho.
Os enfeites, são a receita do bolo, numa sequência de imagens com o modo de o fazer, e as quantidades de produtos necessárias.
Mimos do Brasil
Gatinho fofinho provido de iman para se segurar no frigorífico.
Cãosinho porta chaves, porta tesoura, e um cestinho iman com frutas, recordação de São Roque.
O mesmo gatinho, com as molinhas para prender os recados que não podem ser esquecidos.
Cãosinho porta chaves, porta tesoura, e um cestinho iman com frutas, recordação de São Roque.
O mesmo gatinho, com as molinhas para prender os recados que não podem ser esquecidos.
Mimos do Brasil
Que cheirinho, destes "ovinhos..." Gostei muito do lápis, recordação do Sr. do Bonfim.
Um estôjosinho de pelinha personalisado com carinho para mim.
O mesmo estôjo, deste lado decorado a côres.
Um estôjosinho de pelinha personalisado com carinho para mim.
O mesmo estôjo, deste lado decorado a côres.
Mimos do Brasil
Um suporte mimoso para colocar na parede. Um lápis com borracha, e as letras Brasil, e fita a decorar com as cores da bandeira do grande País. E a louça azul sempre vistosa.
Só para se ver em maior plano a perfeição das flores, parecem verdadeiras.
E aqui os meus doces preferidos. Línguas de gato, de chocolate é novidade, não temos cá.
Foram as primeiras prendas de Natal que recebi, são muitas, e bonitas, tudo a meu gosto, surprêsa agradável, que jamais esquecerei.
Obrigada, amiga Lígia.
Só para se ver em maior plano a perfeição das flores, parecem verdadeiras.
E aqui os meus doces preferidos. Línguas de gato, de chocolate é novidade, não temos cá.
Foram as primeiras prendas de Natal que recebi, são muitas, e bonitas, tudo a meu gosto, surprêsa agradável, que jamais esquecerei.
Obrigada, amiga Lígia.
sábado, 6 de dezembro de 2014
Rosas sem espinhos
Encontrei esta "rosa verde" num dos canteiros que ladeiam a porta da entrada do prédio onde moro. Gostei e, fotografei.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Um animal com personalidade

Bonito não acham? Muito senhor de si, sem dar confiança...
Austero, também.
O seu nome é mosquito. É já veterano, tem dez anos, e o seu peso?
Pasme-se ; - 7 kilos e 300 gramas.
(Pertence ao Sr. Aníbal de Matos, também bloguista.)
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
O meu neto Gabriel no jornal
A semana passada quando abri o jornal tive uma surpresa. Vinha lá a fotografia do meu neto Gabriel a jogar xadrez no torneio de xadrez da escola. É o segundo a contar do topo da mesa, vestido de escuro. Ele disse que tinham estado mais de duas horas a jogar. Foi o que aguentou mais tempo, disse ele. Ganhou uma medalha e ficou todo contente. Ninguém sabia que ele era assim tão bom. O mestre deu-lhe os parabéns e disse que ele jogava muito bem. E nós que pensávamos que ele só gostava de jogos de computador! Parabéns Gabriel! Quando é o próximo torneio?
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
O vil metal
"Um nevoeiro descomunal atingiu o nosso País. Suponho que aconteceu a partir de Domingo passado, próximo. Essa massa que cobre o sol, não deixa ver nada, excepto a letras enormes a palavra SÓCRATES..."
Todas as preocupações que andavam de boca em boca, perderam sentido de oportunidade e foram adiadas sine-dia, com certa razão. Agora é Sócrates o tema, e toda a gente dá palpite.
Já ouvi de tudo; desde pessoas emocionadas de verdade, a reprimirem lágrimas por o sentirem uma vitima, a outras que situando-se na idade média lhes agradava que fosse morto e esquartejado... Outros ainda confessam-se contentes!
Contentes, que mentalidade...
Como pode algum português sentir-se contente, ao saber desta vergonha? - Lembrar-se que teve por chefe do Governo, um homem que em vez de ser íntegro, actualmente está preso e acusado de fraude, corrupção, e outras coisas do género. Jurou pela honra no acto de posse, tudo fazer por Portugal...
Não é caso para regozijo, isto só demonstra a miséria de valores humanos a que chegámos.
Parafraseando o grande Poeta, mas em sentido inverso, eu escrevo:-
Desgraçada Pátria, que tais filhos tens...

Todas as preocupações que andavam de boca em boca, perderam sentido de oportunidade e foram adiadas sine-dia, com certa razão. Agora é Sócrates o tema, e toda a gente dá palpite.
Já ouvi de tudo; desde pessoas emocionadas de verdade, a reprimirem lágrimas por o sentirem uma vitima, a outras que situando-se na idade média lhes agradava que fosse morto e esquartejado... Outros ainda confessam-se contentes!
Contentes, que mentalidade...
Como pode algum português sentir-se contente, ao saber desta vergonha? - Lembrar-se que teve por chefe do Governo, um homem que em vez de ser íntegro, actualmente está preso e acusado de fraude, corrupção, e outras coisas do género. Jurou pela honra no acto de posse, tudo fazer por Portugal...
Não é caso para regozijo, isto só demonstra a miséria de valores humanos a que chegámos.
Parafraseando o grande Poeta, mas em sentido inverso, eu escrevo:-
Desgraçada Pátria, que tais filhos tens...

A foto foi só para amenizar, talvez proporcione um pálido sorriso...
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
O Sr. Prior
Naquela semana a aldeia andava toda atarefada. Em boa verdade não era a aldeia mas sim os residentes, é que estava a chegar o dia da festa de Nossa Senhora. As raparigas que habitualmente cuidavam da Igreja, nesta altura redobravam de capricho para que no dia da festa tudo estivesse perfeito. O soalho lavado, as toalhas dos altares branqueadas e engomadas, e flores em todas as jarras. Outro grupo ia procurar verduras, algumas aromáticas para espalhar na rua por onde iria passar a procissão. E os mordómos encarregavam-se da aquisição dos foguetes, e do resto dos pormenores.
A festa começava com o têrço e sermão à noite na véspera, e no Domingo havia missa cantada e procissão. Era também a festa das crianças que nesse dia faziam a primeira comunhão; comunhão solene assim se dizia. Iriam vestidas de branquinho, vestidos vaporosos compridos, véus de tule e florinhas a pender-lhes da cabeça. Os meninos de fato escuro e laço de seda branca suspenso da manga do casaco; tudo fatinhos modestos, mas uma ternura!
De casa do Sr. Prior ia o pequeno almoço para as crianças, que para comungar estavam em jejum desde a meia noite até ao fim da missa. Comiam na sacristia em alegre convívio, onde eram colocadas mesas com loiças suficientes, não só para as crianças mas também para as familias que as acompanhavam; o meio era pobre, e o sr. Prior sabia disso.
Ele "apertava" com a governante: - Ó Júlia já amassaram as broínhas ? Não se esqueceram de lhe pôr as nozes, pois não? E os pinhões, e... Mas não chamou a mulher do Toníto para a ajudar, porquê? Ainda se vai atrasar...
A Júlia veterana no assunto, estava tranquila; - descanse sr. Prior que tudo vai estar pronto a horas. -Claro que a chamei, já cá esteve a trabalhar e agora só foi a casa, e daqui a pouco voltará para pôr o lume ao forno.
- Espero que sim! Já sabe que eu quero broínhas e café com fartura! Não quero ninguém a olhar!
-Está tudo tratado, não se apoquente e não me apoquente a mim. Ainda agora daqui vai o Ti Augusto das ovelhas, com o apontamento dos litros de leite que são precisos para amanhã de manhãsinha.
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Os pais do padre Matias possuíam muitas terras. Nesse tempo, quem tinha muitas terras era rico.
Tinham dois filhos, um foi para a Universidade, estudou Direito, e foi Advogado, e depois Juíz.
O irmão foi para o Seminário, é o Padre Matias.
Depois de rezar a primeira missa, veio para a sua aldeia viver o sacerdócio, e em simultâneo administrar os bens que havia herdado dos pais, entretanto já falecidos.
Também ele ficou rico; tinha casa, vinhas, e terras de semeadura; e pessoas a trabalhar para ele ao longo do ano. Era extremamente bem disposto; não raro ia até junto dos trabalhadores e fazia-os rir com as suas adivinhas...
Conhecedor da pobreza existente na sua aldeia, era muito generoso, quem lá fosse a casa tinha de comer; nunca perguntava se queria... apenas dizia;- ó Júlia não tem aí nada, peixe frito, ou bacalhau, e um copito para este ou esta fulana?! E logo de seguida -sente-se, para comer qualquer coisa!
Ela tinha sempre, e se mais não fôsse, broa, azeitonas e sopa nunca faltavam.
Não cobrava dinheiro algum, aos seus paroquianos. Todos os serviços religiosos necessários ele fazia de boa vontade, e não queria dinheiro. Mas aos lavradores ele fazia uma exigência; queria uma galinha como folár na Páscoa. E argumentava;- num ano vocês têm tempo de sobra para criar uma galinha para mim... Ele tinha criação no galinheiro, não tinha necessidade, mas queria aquele presente...
O Sr. Prior merecia, ele era um amigo, e o seu desejo era cumprido.
Assim, ninguém sequer se atreveu a censurá-lo quando constou que a Dª Júlia não era só governante, era algo mais... Ela tinha vindo da cidade que ficava a uns 50 km (naquela altura era longe) era educada, e comunicativa, e não tardou a ser "adorada" por toda a gente da aldeia. Com o passar do tempo já lhe chamavam a Dª Júlia do Padre; mas de modo natural, nada de depreciativo. E assim o tempo ia passando no maior sossego.
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O sr. Prior achou que ela devia arranjar uma empregada doméstica. Fez mesmo questão; uma criada de servir, (era assim que se dizia) iria proporcionar-lhe mais descanso, e também seria uma companhia, até porque o sr. Prior não parava em casa. Ela achou bem e procurou.
A Florência começou a trabalhar lá, no principio do mês seguinte. Não sabia fazer quase nada, mas a Júlia, boa pessoa, ensinava-a com bom modo, e ela aprendia com facilidade. Era muito dócil e alegre, não tardou que se tornássem a equipa perfeita, apesar de alguma diferença nas idades.
E tudo estava na maior paz, quando a Júlia, alta noite, lhe pareceu ouvir uns rumores estranhos no piso superior da casa, onde ficava só o quarto da Florência.
Apurou mais o ouvido, e nada, só silêncio...
-Que Deus me perdôe, murmurou para si, e daí a pouco adormeceu.
Mas numa das noites seguintes, já não teve dúvidas. Ali havia mesmo pela calada da noite "romaria de pé descalço..." Um misto de revolta e mágoa tirou-lhe o sono.
De manhã chamou a Florência, falou-lhe com brandura, e a pobre môça em pranto, só lhe pedia segredo, e que não a despedisse. Teve pena dela, choraram as duas, num só abraço.
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A Júlia era boa cozinheira, e o sr. Prior um bom garfo. Gostava de caça. Ele próprio era caçador, e quando lhe apetecia, lá ia ele de espingarda ao ombro calcorrear os montes à procura dum coelho bravo, ou duma perdiz...
Naquele dia regressava ele feliz com dois coelhos, quando ao entrar em casa se deparou com a Júlia bem vestida, sentada na saleta, e duas malas no chão a seu lado.
Prevendo algo desagradável perguntou.
- O que é isto?
A Júlia levantou-se e com a calma que conseguiu reunir, respondeu:
- Estava à sua espera, para lhe dizer que me vou embora. E isto porque lhe tenho respeito, porque se assim não fosse, tinha ido sem lhe dar nenhuma satisfação. Sabe do que estou a falar, não preciso de lhe dar pormenores.
O sr. Prior engoliu em sêco, porque não entendia nada - espere, eu quero...
Ela não esperou.
-Adeus!
Pegou nas malas e saiu. Ia voltar prá sua cidade.
Sentada na carruagem quase vazia, no combóio que saira da estação aos solavancos, a Júlia olhava a paisagem sem a ver, só via a sua vida passada e presente. Sentia-se triste, e dizia para si - é bem verdade -"o amor não se vai buscar à Igreja..." não é um exclusivo dos casados.
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O padre Matias era alto, de boa figura e bom aspecto, mas foi a sentir-se pequeno que ele entrou na sala onde o sr. Bispo o aguardava.
Não tinha dormido nada na noite anterior, depois de ter recebido o recado para se apresentar com brevidade. A viagem de combóio foi lenta, desagradável. Encostado no canto do banco, e de olhos fechados, ele recordava o dia em que a prima Lurdes lhe apresentou a Júlia, para trabalhar na sua casa como governante. No coração não se manda, e ele gostou logo dela. - Mas para que me havia de dar? dizia para si próprio.... É bem certo, na hora do diabo, não lembra Deus... E não lembra mesmo! Ora eu não podia ter procurado uma velha? E agora o que vou eu responder ao sr. Bispo, sim, porque eu já sei do que ele me vai acusar...
O Bispo recebeu-o com frieza, como ele previra, e de seguida informou-o da acusação que sobre ele caía referente à governante, que com ele coabitava havia já muito tempo. (palavras do Bispo)
Por incrível que pareça, não se sentiu perturbado, e foi com muita calma que esperou as ordens do seu superior, que foram no sentido de mandar a Júlia embora de imediato.
- Sentiu-se gelar e respondeu com uma pergunta: - mandar a Júlia embora?
Mas, sr. Bispo permita que eu explique; - neste caso pecaminoso que confesso verídico, estão envolvidos dois sêres. Qual deles terá a maior cota de pecado, a Júlia ou eu? A nossa doutrina só aponta o pecado no mais débil? Então e o outro, o mais forte, está isento? Aceita-se o seu mau
procedimento como normal ? Use, abuse e ponha fora, será esta a regra? Então a nossa doutrina manda-me jogar na valeta a mulher que eu próprio desencaminhei?
-O Bispo olhava para ele com ar estarrecido, e nada dizia.
-Não me revejo na sua doutrina sr. Bispo. Confesso que fiz mal ! Mas não vou duplicar o mal que fiz. Não posso! E não devo, e nem quero. E deitando as mãos ao pescoço arrancou a identificação de Padre, aquela tirinha branca a que chamam cabeção. Pôs-se de pé, agora um tanto exaltado, aproximou-se do Bispo ao mesmo tempo que lhe estendia "o objecto" e em voz alta exclamou: - tome a coleira, não a quero mais!
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Alguns mêses depois, dois pares de noivos recebiam as bençãos matrimoniais no mesmo dia, na Igreja da aldeia, toda florida para a cerimónia:- eram eles, a Dª Júlia, e o Sr Matias.
E também a Florência e o Armando.
(o Armando era o maroto que subia pela parreira, e entrava pela janela do quarto da Florência, altas
horas da noite...)
A festa começava com o têrço e sermão à noite na véspera, e no Domingo havia missa cantada e procissão. Era também a festa das crianças que nesse dia faziam a primeira comunhão; comunhão solene assim se dizia. Iriam vestidas de branquinho, vestidos vaporosos compridos, véus de tule e florinhas a pender-lhes da cabeça. Os meninos de fato escuro e laço de seda branca suspenso da manga do casaco; tudo fatinhos modestos, mas uma ternura!
De casa do Sr. Prior ia o pequeno almoço para as crianças, que para comungar estavam em jejum desde a meia noite até ao fim da missa. Comiam na sacristia em alegre convívio, onde eram colocadas mesas com loiças suficientes, não só para as crianças mas também para as familias que as acompanhavam; o meio era pobre, e o sr. Prior sabia disso.
Ele "apertava" com a governante: - Ó Júlia já amassaram as broínhas ? Não se esqueceram de lhe pôr as nozes, pois não? E os pinhões, e... Mas não chamou a mulher do Toníto para a ajudar, porquê? Ainda se vai atrasar...
A Júlia veterana no assunto, estava tranquila; - descanse sr. Prior que tudo vai estar pronto a horas. -Claro que a chamei, já cá esteve a trabalhar e agora só foi a casa, e daqui a pouco voltará para pôr o lume ao forno.
- Espero que sim! Já sabe que eu quero broínhas e café com fartura! Não quero ninguém a olhar!
-Está tudo tratado, não se apoquente e não me apoquente a mim. Ainda agora daqui vai o Ti Augusto das ovelhas, com o apontamento dos litros de leite que são precisos para amanhã de manhãsinha.
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Os pais do padre Matias possuíam muitas terras. Nesse tempo, quem tinha muitas terras era rico.
Tinham dois filhos, um foi para a Universidade, estudou Direito, e foi Advogado, e depois Juíz.
O irmão foi para o Seminário, é o Padre Matias.
Depois de rezar a primeira missa, veio para a sua aldeia viver o sacerdócio, e em simultâneo administrar os bens que havia herdado dos pais, entretanto já falecidos.
Também ele ficou rico; tinha casa, vinhas, e terras de semeadura; e pessoas a trabalhar para ele ao longo do ano. Era extremamente bem disposto; não raro ia até junto dos trabalhadores e fazia-os rir com as suas adivinhas...
Conhecedor da pobreza existente na sua aldeia, era muito generoso, quem lá fosse a casa tinha de comer; nunca perguntava se queria... apenas dizia;- ó Júlia não tem aí nada, peixe frito, ou bacalhau, e um copito para este ou esta fulana?! E logo de seguida -sente-se, para comer qualquer coisa!
Ela tinha sempre, e se mais não fôsse, broa, azeitonas e sopa nunca faltavam.
Não cobrava dinheiro algum, aos seus paroquianos. Todos os serviços religiosos necessários ele fazia de boa vontade, e não queria dinheiro. Mas aos lavradores ele fazia uma exigência; queria uma galinha como folár na Páscoa. E argumentava;- num ano vocês têm tempo de sobra para criar uma galinha para mim... Ele tinha criação no galinheiro, não tinha necessidade, mas queria aquele presente...
O Sr. Prior merecia, ele era um amigo, e o seu desejo era cumprido.
Assim, ninguém sequer se atreveu a censurá-lo quando constou que a Dª Júlia não era só governante, era algo mais... Ela tinha vindo da cidade que ficava a uns 50 km (naquela altura era longe) era educada, e comunicativa, e não tardou a ser "adorada" por toda a gente da aldeia. Com o passar do tempo já lhe chamavam a Dª Júlia do Padre; mas de modo natural, nada de depreciativo. E assim o tempo ia passando no maior sossego.
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O sr. Prior achou que ela devia arranjar uma empregada doméstica. Fez mesmo questão; uma criada de servir, (era assim que se dizia) iria proporcionar-lhe mais descanso, e também seria uma companhia, até porque o sr. Prior não parava em casa. Ela achou bem e procurou.
A Florência começou a trabalhar lá, no principio do mês seguinte. Não sabia fazer quase nada, mas a Júlia, boa pessoa, ensinava-a com bom modo, e ela aprendia com facilidade. Era muito dócil e alegre, não tardou que se tornássem a equipa perfeita, apesar de alguma diferença nas idades.
E tudo estava na maior paz, quando a Júlia, alta noite, lhe pareceu ouvir uns rumores estranhos no piso superior da casa, onde ficava só o quarto da Florência.
Apurou mais o ouvido, e nada, só silêncio...
-Que Deus me perdôe, murmurou para si, e daí a pouco adormeceu.
Mas numa das noites seguintes, já não teve dúvidas. Ali havia mesmo pela calada da noite "romaria de pé descalço..." Um misto de revolta e mágoa tirou-lhe o sono.
De manhã chamou a Florência, falou-lhe com brandura, e a pobre môça em pranto, só lhe pedia segredo, e que não a despedisse. Teve pena dela, choraram as duas, num só abraço.
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A Júlia era boa cozinheira, e o sr. Prior um bom garfo. Gostava de caça. Ele próprio era caçador, e quando lhe apetecia, lá ia ele de espingarda ao ombro calcorrear os montes à procura dum coelho bravo, ou duma perdiz...
Naquele dia regressava ele feliz com dois coelhos, quando ao entrar em casa se deparou com a Júlia bem vestida, sentada na saleta, e duas malas no chão a seu lado.
Prevendo algo desagradável perguntou.
- O que é isto?
A Júlia levantou-se e com a calma que conseguiu reunir, respondeu:
- Estava à sua espera, para lhe dizer que me vou embora. E isto porque lhe tenho respeito, porque se assim não fosse, tinha ido sem lhe dar nenhuma satisfação. Sabe do que estou a falar, não preciso de lhe dar pormenores.
O sr. Prior engoliu em sêco, porque não entendia nada - espere, eu quero...
Ela não esperou.
-Adeus!
Pegou nas malas e saiu. Ia voltar prá sua cidade.
Sentada na carruagem quase vazia, no combóio que saira da estação aos solavancos, a Júlia olhava a paisagem sem a ver, só via a sua vida passada e presente. Sentia-se triste, e dizia para si - é bem verdade -"o amor não se vai buscar à Igreja..." não é um exclusivo dos casados.
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O padre Matias era alto, de boa figura e bom aspecto, mas foi a sentir-se pequeno que ele entrou na sala onde o sr. Bispo o aguardava.
Não tinha dormido nada na noite anterior, depois de ter recebido o recado para se apresentar com brevidade. A viagem de combóio foi lenta, desagradável. Encostado no canto do banco, e de olhos fechados, ele recordava o dia em que a prima Lurdes lhe apresentou a Júlia, para trabalhar na sua casa como governante. No coração não se manda, e ele gostou logo dela. - Mas para que me havia de dar? dizia para si próprio.... É bem certo, na hora do diabo, não lembra Deus... E não lembra mesmo! Ora eu não podia ter procurado uma velha? E agora o que vou eu responder ao sr. Bispo, sim, porque eu já sei do que ele me vai acusar...
O Bispo recebeu-o com frieza, como ele previra, e de seguida informou-o da acusação que sobre ele caía referente à governante, que com ele coabitava havia já muito tempo. (palavras do Bispo)
Por incrível que pareça, não se sentiu perturbado, e foi com muita calma que esperou as ordens do seu superior, que foram no sentido de mandar a Júlia embora de imediato.
- Sentiu-se gelar e respondeu com uma pergunta: - mandar a Júlia embora?
Mas, sr. Bispo permita que eu explique; - neste caso pecaminoso que confesso verídico, estão envolvidos dois sêres. Qual deles terá a maior cota de pecado, a Júlia ou eu? A nossa doutrina só aponta o pecado no mais débil? Então e o outro, o mais forte, está isento? Aceita-se o seu mau
procedimento como normal ? Use, abuse e ponha fora, será esta a regra? Então a nossa doutrina manda-me jogar na valeta a mulher que eu próprio desencaminhei?
-O Bispo olhava para ele com ar estarrecido, e nada dizia.
-Não me revejo na sua doutrina sr. Bispo. Confesso que fiz mal ! Mas não vou duplicar o mal que fiz. Não posso! E não devo, e nem quero. E deitando as mãos ao pescoço arrancou a identificação de Padre, aquela tirinha branca a que chamam cabeção. Pôs-se de pé, agora um tanto exaltado, aproximou-se do Bispo ao mesmo tempo que lhe estendia "o objecto" e em voz alta exclamou: - tome a coleira, não a quero mais!
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Alguns mêses depois, dois pares de noivos recebiam as bençãos matrimoniais no mesmo dia, na Igreja da aldeia, toda florida para a cerimónia:- eram eles, a Dª Júlia, e o Sr Matias.
E também a Florência e o Armando.
(o Armando era o maroto que subia pela parreira, e entrava pela janela do quarto da Florência, altas
horas da noite...)
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
domingo, 16 de novembro de 2014
Poesia antiga
SONETO
Um de meus bisavós foi mercador,
Outro foi de alfaiate oficial,
Outro tendeiro foi sem cabedal
E outro, que juiz foi, foi lavrador.
O meu paterno avô foi professor
De latim, que ensinou ou bem ou mal;
E o materno viveu no seu casal
De que inda agora eu mesmo sou senhor.
Meu pai médico foi, e homem de bem,
Minha mãe «dom» teria, porque enfim
Muitas menos do que ela agora o têm.
Abade eu fui; e se saber de mim
Alguma coisa mais quiser alguém,
Saiba que versos faço e faço assim.
(Paulino António Cabral)
sábado, 15 de novembro de 2014
Veio para ficar
Passaram três mêses e meio, sobre o dia em que o passarinho voou para mim... Hoje decidi fotografá-lo, como fiz quando ele chegou; e comparando as fotos vejo com agrado que já está maior.
Está bonito, não acham? Eu até estou vaidosa com ele...
Está bonito, não acham? Eu até estou vaidosa com ele...
sábado, 8 de novembro de 2014
Os pinheiros
Na pequena aldeia toda a gente o conhecia, era o homem que tinha habilidade para tudo. Era chamado para podar as árvores de fruto, para empar as vinhas, varejar as oliveiras aquando da apanha da azeitona, e era ele também que passava noites e dias no alambique, a fazer a aguardente dos homens ricos da terra. Era até apontado como especialista para a qualidade daquela bebida.
Também era habilidoso com as madeiras, e quando nascia um bébé logo o "ti Manel" era encarregado de fazer o berço, e depois uma arquíta para arrumar a roupinha ... Não era obra fina, mas servia. Também quando os pratos de loiça ou as caçarolas de barro se partiam, ele consertava. Punha uns agrafos de arame rematados com cal; davam-lhe o nome de gatos. ( Quem se recorda disso, actualmente? Quase ninguém...)
Sabia ler, mas pouco tempo andou na escola. Quase menino ainda, começou a trabalhar na lavoura com os pais, e deles seguiu também o exemplo da honestidade, e do respeito a ter por toda a gente.
Assim cresceu e chegou à idade adulta, e era muito estimado.
O ti Manel mais a sua Maria até tinham uma vida jeitosa, muito trabalho e duro, mas viviam com o suficiente. Tinham umas térrinhas que amanhavam, oliveiras, uma pequena vinha, e um bom bocado de pinhal donde traziam os ramos secos para o lume, e o moliço para o curral das vacas. Poupavam os pinheiros para crescerem, porque teriam mais valor quando quisessem vender alguns.
Uma manhã por volta das dez, estava a Maria a amassar a brôa, quando pelo postigo da porta da cozinha o vê a caminhar para casa a passos largos, parecia zangado... preocupada, correu para a porta.
- Então homem, que aconteceu? ainda à pouco daqui saíste... Mas tu não trazes nada, então que fôste tu fazer ao monte?
Eu; eu; eu nem sei que te diga... eu até venho tonto; nunca pensei. Canalha! Se eu o tenho encontrado lá no pinhal eu estrafegáva-o, ai de certeza.
- Mas quem?! Oh homem, fála que se me parte o coração só de te ver assim... Valha-me Nossa Senhora, fála...
-Aquele safado, roubou-nos dois pinheiros dos maiores, vê lá tu, vê lá tu...
-Quem ?
- Quem, pois, quem ? Tens razão. O tráste do Zacarias, grande ladrão... Ah, mas ele paga-mas, tu vais ver...
A Maria já apertava as mãos na cabeça...
Mas, admirada repetia; - o Zacarias? Não pode ser! Então esse é o homem mais rico da terra, ele tem três ou quatro pinhais, tem pinheiros com fartura, havia de ir cortar os nossos?!
Tu tens a certeza que foi ele?
-Pois é o mais rico, e também o mais sem vergonha. Foi ele; o nosso Padrinho Felício viu tudo e contou-me, mas pediu muito segredo, porque com aquele animal todo o cuidado é pouco.
Fiquei sem pinga de sangue, parece que até cambaleava... mas depois sentei-me numa pedra na beira da estrada já aqui perto, e procurei acalmar-me, e depois fui a casa dele.
- O quê homem, o que me estás tu a dizer, foste a casa dele, fazer o quê?
- Olha fazer nada! Mas ao menos procurei.
-Sabendo eu o bruto que ele é, fui com boas fálas e disse-lhe que os trabalhadores dele tinham feito a asneira de cortar dois pinheiros meus, secalhar sem ele saber, porque o meu pinhal era mais perto. E que ele não tinha culpa, mas tinha o dever de mos pagar, enfim, eu lá fiz das tripas coração para me atrever a falar assim...
-Então, e ele?
-Ele? destratou-me, ofereceu-me porrada, e gritou-me que saísse dali depressa, se não queria que ele me assanásse os cães... Aquele ladrãozão! Fiquei tão triste e até envergonhado... Eu é que ainda fiquei envergonhado vê lá tu. Mas com uma danação tão forte que ainda não me passou! Eu nem sei explicar o que senti e ainda sinto! Ah, mas isto não fica assim! Não fica não! Ele ainda se há-de arrepender, isso te juro eu...
-Ai homem, não digas isso! Acalma-te, por Deus te peço que te acalmes. Ai que estou com o coração mais negro do que a noite, e apertado que nem ervilha sêca...
-Tem paciência mulher; mas olha, ir dar parte na Guarda, de nada vale, eles vendem-se pelos garrafões de vinho e de azeite que ele lhes dá, portanto nada a fazer, mas ele não vai ficar a rir-se de mim, isso te garanto, ou eu não me chame Manuel Silva.
Os dias iam passando e o Manuel não voltou a falar no caso. Havia porém uma alteração no seu modo de vida; passou a ir todas as noites à taberna. A Maria reparava, mas não ousava falar, com receio da razão de tal comportamento.
------------------------------------------------------------------
Entretanto a oportunidade esperada chegou:
O Manuel estava na taberna quando viu o Zacarias entrar. Fez que não o viu, e continuou a fumar o cigarrito habitual após o café. Daí a pouco pagou a sua despesa disse adeus, e calmamente saiu.
Caminhou pela ruela de chão de terra batida até chegar á enorme figueira, velha árvore situada na borda do caminho, mas cuja copa enorme se dividia entre a terra de semeadura e a estreita ruela.
Subiu pelo tronco escorregadio e acomodou-se entre os ramos, e depois esperou. "Quem espera sempre alçança, diz o provérbio..." quando o Zacarias ia de regresso a casa, ao passar por baixo da figueira, ele saltou-lhe pra cima. Embora de muito menor estatura, com este ataque imprevisto atirou-o ao chão, e não lhe perguntou quantas queria, deu-lhe forte e feio, até o deixar ferido e inanimado. Depois, conhecedor do local, deixou a ruela, entrou na terra de semedura, e daí a pouco estava em casa.
O Zacarias homem de teres e haveres, detestado por muitos, e amado por alguns, tinha os seus conhecimentos, e mesmo sem testemunhas, o Manuel teve de responder perante um Juíz.
No dia da audiência ao ouvir da parte do Juíz a pergunta - o sr. confessa que bateu no Sr. Zacarias?
O Manuel imperturbável respondeu:- Meritíssimo Juíz, não bati! Mas confesso que gostaria muito de ter batido!
-Ainda por cima é petulante, comentou o Juíz a meia voz.
Bem, o Manuel apanhou dez dias de cadeia, secalhar pela petulância...
E lá foi cumprir, contrariado, e toda a aldeia lamentava o facto: "o ti Manel um homem tão respeitador, e foi posto na cadeia... Foi roubado, e ainda por cima está preso..."
A Maria, todos os dias palmilhava a pé os sete kilómetros, para lhe ir levar o almoço. Por volta do meio dia, de cêsta à cabeça, ela entrava na cadeia, sempre triste; não conseguia evitar, por ver o seu Manuel preso como se fosse um malfeitor.
Tinham passado cinco dias, já era noite fechada, e a Maria já tinha comido; sentou-se, ia tecer na camisola até que o sono aparecesse. Nisto ouviu bater suavemente na janela, e também a vóz do seu Manuel, quase um susurro: - abre Maria sou eu! Ela estremeceu... seria verdade? Esperou, ouviu de novo; já não tinha dúvidas, correu a abrir e aflita murmurou - Ah, Manuel, tu fugiste, Tu fugiste da cadeia! Ai homem, tu desgraçáste-te a ti e a mim... Vá-lha-me Deus, e sem palavras desatou em pranto.
-Está calada mulher, ninguém me seguiu, quando derem pela minha falta não sabem onde eu estou, e não veem aqui, não estejas assim nessa aflição.
Ela calou-se, mas sempre aflita não conseguia ter sossego. Já via os guardas à porta, e o seu Manuel no meio deles a caminho da cadeia outra vez, e o povo a ver... aquelas horas foram um tormento.
Amanheceu, e a Maria sempre previdente disse: - ó Manuel, tu daqui a bocado voltas prá cadeia, não é? Eles não te vão castigar, o guarda é tão boa pessoa, fálas com ele, vais ver que ele não te denuncía...
- Não vou nada prá cadeia, bem me custou lá estar estes dias parado, a olhar pró sete-estrelo. Eu não roubei nada a ninguém e nem matei, portanto não volto pra lá. Ora vamos mas é combinar:- tu logo à hora do costume, vais na mesma lá à cadeia levar-me a comida, porque pra todos os efeitos tu não sabes de nada. Ouves o que eles te vão dizer; eu fico aqui em casa à espera de ti, e das novidades que me vais trazer, e depois logo se vê o que eu hei-de fazer...
A Maria chorou que nem Madalena enquanto preparou o almoço e o arrumou na cêsta, e depois partiu rumo à cadeia, como tinha feito nos dias anteriores, mas hoje além da tristeza, ia cheia de preocupação e receios.
Quando a Maria chegou à cadeia, com a cêsta da comida, foi informada de que o marido não estava porque tinha fugido. Então é que a Maria deu largas ao choro e aos lamentos verdadeiramente sentidos. Já não ouvia ninguém, só gritava, e agora? o que vai ser de mim? o que vai ser dele?
O guarda da cadeia deixou-a desabafar a sua mágoa, e depois amparando-a carinhosamente, sorriu e disse com ar amigo: - não chore mais, não se aflija, vá para casa, e quando ele aparecer, porque ele vai aparecer, diga-lhe que a partir de amanhã ele já está livre. É a ordem que aqui tenho.
Também era habilidoso com as madeiras, e quando nascia um bébé logo o "ti Manel" era encarregado de fazer o berço, e depois uma arquíta para arrumar a roupinha ... Não era obra fina, mas servia. Também quando os pratos de loiça ou as caçarolas de barro se partiam, ele consertava. Punha uns agrafos de arame rematados com cal; davam-lhe o nome de gatos. ( Quem se recorda disso, actualmente? Quase ninguém...)
Sabia ler, mas pouco tempo andou na escola. Quase menino ainda, começou a trabalhar na lavoura com os pais, e deles seguiu também o exemplo da honestidade, e do respeito a ter por toda a gente.
Assim cresceu e chegou à idade adulta, e era muito estimado.
O ti Manel mais a sua Maria até tinham uma vida jeitosa, muito trabalho e duro, mas viviam com o suficiente. Tinham umas térrinhas que amanhavam, oliveiras, uma pequena vinha, e um bom bocado de pinhal donde traziam os ramos secos para o lume, e o moliço para o curral das vacas. Poupavam os pinheiros para crescerem, porque teriam mais valor quando quisessem vender alguns.
Uma manhã por volta das dez, estava a Maria a amassar a brôa, quando pelo postigo da porta da cozinha o vê a caminhar para casa a passos largos, parecia zangado... preocupada, correu para a porta.
- Então homem, que aconteceu? ainda à pouco daqui saíste... Mas tu não trazes nada, então que fôste tu fazer ao monte?
Eu; eu; eu nem sei que te diga... eu até venho tonto; nunca pensei. Canalha! Se eu o tenho encontrado lá no pinhal eu estrafegáva-o, ai de certeza.
- Mas quem?! Oh homem, fála que se me parte o coração só de te ver assim... Valha-me Nossa Senhora, fála...
-Aquele safado, roubou-nos dois pinheiros dos maiores, vê lá tu, vê lá tu...
-Quem ?
- Quem, pois, quem ? Tens razão. O tráste do Zacarias, grande ladrão... Ah, mas ele paga-mas, tu vais ver...
A Maria já apertava as mãos na cabeça...
Mas, admirada repetia; - o Zacarias? Não pode ser! Então esse é o homem mais rico da terra, ele tem três ou quatro pinhais, tem pinheiros com fartura, havia de ir cortar os nossos?!
Tu tens a certeza que foi ele?
-Pois é o mais rico, e também o mais sem vergonha. Foi ele; o nosso Padrinho Felício viu tudo e contou-me, mas pediu muito segredo, porque com aquele animal todo o cuidado é pouco.
Fiquei sem pinga de sangue, parece que até cambaleava... mas depois sentei-me numa pedra na beira da estrada já aqui perto, e procurei acalmar-me, e depois fui a casa dele.
- O quê homem, o que me estás tu a dizer, foste a casa dele, fazer o quê?
- Olha fazer nada! Mas ao menos procurei.
-Sabendo eu o bruto que ele é, fui com boas fálas e disse-lhe que os trabalhadores dele tinham feito a asneira de cortar dois pinheiros meus, secalhar sem ele saber, porque o meu pinhal era mais perto. E que ele não tinha culpa, mas tinha o dever de mos pagar, enfim, eu lá fiz das tripas coração para me atrever a falar assim...
-Então, e ele?
-Ele? destratou-me, ofereceu-me porrada, e gritou-me que saísse dali depressa, se não queria que ele me assanásse os cães... Aquele ladrãozão! Fiquei tão triste e até envergonhado... Eu é que ainda fiquei envergonhado vê lá tu. Mas com uma danação tão forte que ainda não me passou! Eu nem sei explicar o que senti e ainda sinto! Ah, mas isto não fica assim! Não fica não! Ele ainda se há-de arrepender, isso te juro eu...
-Ai homem, não digas isso! Acalma-te, por Deus te peço que te acalmes. Ai que estou com o coração mais negro do que a noite, e apertado que nem ervilha sêca...
-Tem paciência mulher; mas olha, ir dar parte na Guarda, de nada vale, eles vendem-se pelos garrafões de vinho e de azeite que ele lhes dá, portanto nada a fazer, mas ele não vai ficar a rir-se de mim, isso te garanto, ou eu não me chame Manuel Silva.
Os dias iam passando e o Manuel não voltou a falar no caso. Havia porém uma alteração no seu modo de vida; passou a ir todas as noites à taberna. A Maria reparava, mas não ousava falar, com receio da razão de tal comportamento.
------------------------------------------------------------------
Entretanto a oportunidade esperada chegou:
O Manuel estava na taberna quando viu o Zacarias entrar. Fez que não o viu, e continuou a fumar o cigarrito habitual após o café. Daí a pouco pagou a sua despesa disse adeus, e calmamente saiu.
Caminhou pela ruela de chão de terra batida até chegar á enorme figueira, velha árvore situada na borda do caminho, mas cuja copa enorme se dividia entre a terra de semeadura e a estreita ruela.
Subiu pelo tronco escorregadio e acomodou-se entre os ramos, e depois esperou. "Quem espera sempre alçança, diz o provérbio..." quando o Zacarias ia de regresso a casa, ao passar por baixo da figueira, ele saltou-lhe pra cima. Embora de muito menor estatura, com este ataque imprevisto atirou-o ao chão, e não lhe perguntou quantas queria, deu-lhe forte e feio, até o deixar ferido e inanimado. Depois, conhecedor do local, deixou a ruela, entrou na terra de semedura, e daí a pouco estava em casa.
O Zacarias homem de teres e haveres, detestado por muitos, e amado por alguns, tinha os seus conhecimentos, e mesmo sem testemunhas, o Manuel teve de responder perante um Juíz.
No dia da audiência ao ouvir da parte do Juíz a pergunta - o sr. confessa que bateu no Sr. Zacarias?
O Manuel imperturbável respondeu:- Meritíssimo Juíz, não bati! Mas confesso que gostaria muito de ter batido!
-Ainda por cima é petulante, comentou o Juíz a meia voz.
Bem, o Manuel apanhou dez dias de cadeia, secalhar pela petulância...
E lá foi cumprir, contrariado, e toda a aldeia lamentava o facto: "o ti Manel um homem tão respeitador, e foi posto na cadeia... Foi roubado, e ainda por cima está preso..."
A Maria, todos os dias palmilhava a pé os sete kilómetros, para lhe ir levar o almoço. Por volta do meio dia, de cêsta à cabeça, ela entrava na cadeia, sempre triste; não conseguia evitar, por ver o seu Manuel preso como se fosse um malfeitor.
Tinham passado cinco dias, já era noite fechada, e a Maria já tinha comido; sentou-se, ia tecer na camisola até que o sono aparecesse. Nisto ouviu bater suavemente na janela, e também a vóz do seu Manuel, quase um susurro: - abre Maria sou eu! Ela estremeceu... seria verdade? Esperou, ouviu de novo; já não tinha dúvidas, correu a abrir e aflita murmurou - Ah, Manuel, tu fugiste, Tu fugiste da cadeia! Ai homem, tu desgraçáste-te a ti e a mim... Vá-lha-me Deus, e sem palavras desatou em pranto.
-Está calada mulher, ninguém me seguiu, quando derem pela minha falta não sabem onde eu estou, e não veem aqui, não estejas assim nessa aflição.
Ela calou-se, mas sempre aflita não conseguia ter sossego. Já via os guardas à porta, e o seu Manuel no meio deles a caminho da cadeia outra vez, e o povo a ver... aquelas horas foram um tormento.
Amanheceu, e a Maria sempre previdente disse: - ó Manuel, tu daqui a bocado voltas prá cadeia, não é? Eles não te vão castigar, o guarda é tão boa pessoa, fálas com ele, vais ver que ele não te denuncía...
- Não vou nada prá cadeia, bem me custou lá estar estes dias parado, a olhar pró sete-estrelo. Eu não roubei nada a ninguém e nem matei, portanto não volto pra lá. Ora vamos mas é combinar:- tu logo à hora do costume, vais na mesma lá à cadeia levar-me a comida, porque pra todos os efeitos tu não sabes de nada. Ouves o que eles te vão dizer; eu fico aqui em casa à espera de ti, e das novidades que me vais trazer, e depois logo se vê o que eu hei-de fazer...
A Maria chorou que nem Madalena enquanto preparou o almoço e o arrumou na cêsta, e depois partiu rumo à cadeia, como tinha feito nos dias anteriores, mas hoje além da tristeza, ia cheia de preocupação e receios.
Quando a Maria chegou à cadeia, com a cêsta da comida, foi informada de que o marido não estava porque tinha fugido. Então é que a Maria deu largas ao choro e aos lamentos verdadeiramente sentidos. Já não ouvia ninguém, só gritava, e agora? o que vai ser de mim? o que vai ser dele?
O guarda da cadeia deixou-a desabafar a sua mágoa, e depois amparando-a carinhosamente, sorriu e disse com ar amigo: - não chore mais, não se aflija, vá para casa, e quando ele aparecer, porque ele vai aparecer, diga-lhe que a partir de amanhã ele já está livre. É a ordem que aqui tenho.
domingo, 2 de novembro de 2014
Serão mesmo caprichosas?
São as Boas-Noites.
Não apreciam o sol, e por isso as suas flores permaneciam fechadas. Só quando a noite chegásse, elas iriam abrir, e mostrar a sua singela beleza.
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