domingo, 6 de setembro de 2015

Natureza Viva

O prédio onde se situa o nosso apartamento é feio.
De arte, ou melhor, da arte que os prédios antigos ostentam, ou ostentavam, nada de nada este possui. Relativamente novo, é simplesmente um caixote grande, com caixotes pequenos encostados que são as varandas. Quatro caixotões devidamente separados entre si, formam a urbanização.Talvez a isto se chame arquitectura moderna; eu não poria aqui a palavra  arquitectura...  Mas nos átrios que circundam as construções, tem floreiras, e algumas plantas, e flores. E eu gosto de as ver, e de guardá-las em fotos...
Uma das floreiras que ladeia os poucos degraus que dão acesso ao portão de entrada.
A trepadeira deixou-se crescer quase até ao chão - já teve mais flores...
Esta magnifica rosa já adulta, encantou-me. Alguns botões ainda fechados estão no mesmo pé de roseira, mais uns dias e outras belezas vão aparecer.
E aqui o aromático incenso a estender-se sobre o banco de madeira...

sábado, 5 de setembro de 2015

Aniversário

Fazer anos!
Ou antes, somar aniversários...
Enquanto vivermos, não temos alternativa; começam por ser alguns, e quase sem darmos por isso o número aumenta, e no meu caso até já aumentou muito.
Mas, como já tenho "dito aqui", o que interessa é estar por cá, porque o lá, está prometido e certo.
Entretanto recebem-se bonitas palavras, e mimos.
Este foi o primeiro que recebi, e gostei muito.  

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Quem ainda se recordará?

Sereno corre o Mondego
Sem fadigas nem canseiras,
Beijando muito em segredo
As pernas ás lavadeiras

Assim são os namorados
Por essas estradas fora,
Sorridentes, descuidados,
Beijando-se a toda a hora.

Amor, amor, bem pouco duras,
És um rosário, só d'amarguras...
És um tormento, és um desejo,
Nasces dum sonho, morres num beijo!

Hoje quase sem dar por tal, achei-me a cantar estes versos... Aprendi-os com o meu pai, que os recordava duma récita de amadores, na qual tinha participado ainda relativamente jovem, onde fazia o papel do barqueiro, de vara na mão fingindo impulsionar  o barco que deslisava lento no palco entre salgueiros, simulando o rio Mondego. Durante "a travessia" ele cantava uma linda melodia, esta ode, ao rio, ás raparigas lavadeiras e ao amor.
Eu vim muito mais tarde, de modo que só imagino a cena, por ele contada muitas vezes.

Estou a falar da minha terra, Montemor-o-Velho, e do rio Mondego. Actualmente o rio já não corre sereno (nem alteroso) foi desviado o seu curso, não sei se era inevitável esta alteração tão drástica, só sei que tenho pena do nosso rio, e não sou eu a única.
Ainda me lembro de nele navegarem as grandes barcas, que vinham de Penacova, e o barco do sal que era do Casal Novo do Rio, e  que vinha buscar aquele tempero à Figueira da Foz, (minha actual cidade) para  depois ser  vendido a miúdo  ás gentes da Vila e dos arredores. O Mondego era navegável nessa altura numa enorme extensão, e tinha peixe, bom peixe, e os pescadores tinham cada um a sua bateira  (barco de madeira de fundo chato) e faziam-se à pesca e dessa faina sustentavam a sua família. Viviam humildemente, mas bastavam-se a si próprios, e eram honestos.

Na margem esquerda o rio corria encostado aos campos, tinha choupos de grande porte, e outras árvores, onde se abrigavam as aves. Pela manhã cedinho eram os passarinhos, que cheios de vida quebravam o silêncio com os seus  trinados ainda antes do nascer do sol.
Na margem direita era  areal, nuns locais areia mais fina, noutros nem tanto, mas areia e não terra, e também alguns tufos de salgueiros.
Toda a gente lavava no rio - e havia as lavadeiras de profissão. Formavam-se grupos que adoptavam locais, e fixavam lugares respectivos e pedras onde lavavam, determinação  respeitada  entre todas.

As pessoas eram alegres e cantavam muito, enquanto as mãos trabalhavam na lavagem das roupas, e quando se juntavam raparigas havia brincadeira quase sempre.

De vez em quando, faziam uma espécie de prova de resistência que, "pasme-se," consistia  em abrir uma cova grande no areal onde coubesse uma rapariga. Depois  ela embrulhava-se num dos lençóis que tinha para lavar, e deitava-se na cova, na horisontal. De seguida as outras cobriam-na com uma camada de areia de forma a ficar completamente tapada. E chegava o momento importante - era ela cantar uma cançoneta que já tinham escolhido. Uma a seguir a outra todas faziam a prova, e quem cantásse mais alto e melhor, era a vitoriosa. Gostavam de ouvir aquela voz vinda do chão...Para as pessoas mais velhas aquilo era uma aflição, mas para as jovens, era só risos.

Até ao dia em que a brincadeira ficou na história: - iniciaram-se os preparativos como de costume entre vozes e risadas, até a moça ficar "enterrada." Em voz alta ouviu-se então a ordem: - Vá, agora canta!  Canta! Canta! - exclamaram em coro. Mas ela não cantou. Repetiram a ordem, e nada, só silêncio e agora já aterrador.

Então a aflição generalizou-se... todas as mulheres saíram da água e correram em socorro.
-Desenterrem-na depressa ! - gritavam, já em lágrimas algumas das presentes, receando o pior. A união faz a força, e em poucos segundos a areia estava retirada  e o lençol à vista.
- Ao menos fala! Fala, diz alguma coisa! - pediam ansiosas as companheiras da brincadeira...
Porém ela continuava calada e imóvel.
Impotentes, desataram aos gritos, enquanto as mais velhas rezavam baixinho...
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A juventude sempre foi irreverente, e até insensata por ingenuidade.

"Já chegava, pensou ela talvez" - e uma forte gargalhada vinda de dentro do lençol, soou no meio daquela gente angustiada.
De seguida afastou o lençol, e a rir, a rir, começou a levantar-se, o que não aconteceu, porque uma das lavadeiras na ânsia de acudir, e sem se aperceber que a situação já tinha mudado, correu para ela com uma bacia que tinha ido encher ao rio, e atirou-lhe com toda a água que continha; e ela com o impacto caiu de novo na cova.

A cena, por momentos tornou-se hilariante, não fosse o facto da "lavadeira socorrista" ter desmaiado em seguida...
Mas tudo está bem, quando acaba bem, e foi o caso. Ressentimento era palavra e acto que ninguém ali acalentava.

        Era assim o Rio Mondego em Montemor -o- Velho em 1957
                        E eu também era assim, um pouco antes...




terça-feira, 18 de agosto de 2015

Os velhotes, o passeio, e as sardinhas da Nazaré

E então foi assim: - Era uma vez, dois velhotes que no passado sábado, feriado nacional, resolveram "fugir de casa" sem destino certo. Irem por aí abaixo, ou por aí acima, era indiferente, o essencial era ir.
Pararam na bomba de gasolina para alimentar o veículo, e depois motor a trabalhar viraram para sul. Foram para perto, grandes vôos não convinham... rumaram à Nazaré mais uma vez, a juntar a tantas outras vezes que ali estiveram.
Mas optaram por passear no Sítio, lá no alto, naquele local onde se diz ter acontecido o milagre que salvou da morte o D. Fuas Roupinho.
Diz-se que o cavalo galopava atrás duma corsa, ou veado, sem que o cavaleiro se apercebesse ou soubesse, que a enorme rocha de chão firme acabava  ali, e para além era o vácuo, o abismo do mar imenso a mais de cem metros abaixo...
Na eminência de cair ao mar, numa fração de segundo, o fidalgo gritou por Nossa Senhora, e o cavalo estacou.
Na rocha enegrecida, ainda à poucos anos era visivel uma pequena cova, simulando o feitio duma pata de cavalo, que atribuiam ao cavalo que estacou no limite do precipicio.
Existe uma Capelinha, chamada da Memória, que D. Fuas mandou erigir em 1182, como eterno agradecimento, e também para perpéctuar o milagre que o salvou.

Em terras de santidade, os milagres podem suceder-se :  -  então eles, os velhotes, ainda se atreveram a arrumar esta quantidade de alimento?!  Se me dissessem eu nem acreditava, mas a fotografia é bem ilucidativa... Não há dúvida que passear faz bem, e a mim em especial. Temos de voltar. Para a próxima será à Pederneira, outra povoação lá no alto, mais um pedaço da Nazaré.

Retalhos da Nazaré

 A praia da Nazaré fotografada do Sítio,no alto do promontório a mais de 100 metros de altitude.
 Um pormenor do imenso casario da Nazaré, e da escada de acesso pedonal ao Sítio.
O sol escondeu-se,  deu lugar à cor cinza, e aos chuviscos. Mesmo assim é visivel um dos elevadores. Já "o colega" mais distante, mal se vê...

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

No Sítio - na Nazaré

 Estarão de mal um com o outro? Tão calmos e tão distantes. Nem só um olhar entre si...
 As Nazarenas sempre teceram lindas rendas, esta cortina confirma o que sabemos.
Uma porta de entrada duma casinha lá no alto, no Sítio da Nazaré. Característico o conjunto, a porta de madeira escura com postigo, a aldraba (batente) e as barras pintadas de amarelo, em contraste com as paredes brancas.
Derresto lá no Sítio, tudo é diferente, ruas estreitinhas, largos floridos, e a paisagem enorme a perder de vista...

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Desabafo

O dia caminhava para o fim,ainda havia muito sol mas  na varanda já estava sombra, encaminhei-me para lá -  a temperatura agradável convidava a ali permanecer...  olhei ao redor, e observei o panorama mais uma vez. E pensei, como é bonito o que daqui a minha vista alcança; contudo é raro eu vir a esta varanda, como tenho também uma janela na mesma divisão, até me esqueço... Resolvi ficar até ver chegar o meu marido. O transito começava a aumentar, fruto do regresso a casa, de quem trabalhou fora todo o dia. Os semáforos caprichosos impunham regras, e os automobilistas acatavam, pois, nem outra coisa era de esperar.
Entretanto comecei a ouvir umas vozes de insatisfação, em baixo frente ao portão das garagens. Dada a altura a que eu estava situada, a principio não entendia o que diziam.

Mas não tardou  percebi - era um carro estacionado indevidamente, que impedia o acesso ou a saída das garagens. Está lá fixado na parede e bem visivel o sinal proibitivo  de estacionamento - mas quem nunca prevaricou, por distração, que atire a primeira pedra...

Há aqui um salão de cabeleireiro, e de vez em quando lá aparece uma cliente apressada que nem olha para a parede e arruma o carro ali, pois está tão a jeito... Depois com o barulho dos secadores não dá conta de nada, e quando regressa já o reboque trabalhou...

E desta vez a coisa estava a encaminhar-se nesse sentido, mas só de ameaças ainda, quando a criatura aparece e calmamente se dirije ao carro impávida e serena...
A D. Rosa dirigiu-lhe umas palavras de censura, feiosas, mas ela ligou a ignição e partiu sem uma palavra.

Apenas com uns segundos de diferença, e atrás dela saiu outra cliente, esta apressada - tinha o carro um pouco mais adiante e em local normal. Ligou a ignição e iniciou a marcha devagar para sair do estacionamento. Então a D. Rosa começa a acusá-la - ela parou e respondeu-lhe que não tinha nada a ver com a transgressão da outra senhora, e que nem a conhecia... E que tinha estacionado o seu carro no parque em lugar devido, nada havia para reparo. Dito isto, avança para a estrada, mas pára de novo e sai do carro, porque a D. Rosa continuava a maltratá-la com palavras, em voz cada vez mais alta. Gera-se uma discussão entre as duas, quase cara a cara. Confesso que receei que fossem mais além. O dono duma loja situada ao lado  do portão veio falar com elas, e colocando-se quase entre ambas, serenou um pouco os ânimos, e entretanto a senhora voltou ao carro e foi embora.

Eu cá de cima, muito  acima, sem que ninguém reparásse em mim, assisti a este triste espetáculo, e embora sem ouvir na integra tudo o que disseram, o que vi e ouvi, chegou para entender que nem sempre "estamos" livres de nos incomodarmos.

E também acho que a maldade humana anda exacerbada, não de modo generalizado, mas existe, e faz estragos. Fiquei com a desconfiança que aqui houve um gosto de embirrar por embirrar, porque eu não vi a D. Rosa usar a garagem após o incidente. Pelo contrário, vi-a a caminhar a pé.
Para quê então esta provocação? E, pior, dirigida a quem não tinha transgredido.
Eu não queria chegar a esta conclusão, mas...

Embora alheia a tudo isto, posteriormente não me livrei de ocupar a mente com este episódio tão feio,
ao qual eu preferia não ter assistido - devia ter voltado as costas antes do fim...

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Na Serra da Boa Viagem - na Figueira da Foz

Lá em baixo o azul do mar confunde-se com o azul celeste. E aqui na paisagem agreste algumas  pedras,mas uma sobressai pelo tamanho, e por algo que tem nela escrito. Vamos ler...
Quando há alguns anos atrás um horroroso incêndio ateado por mãos criminosas, queimou todo o arvoredo da linda Serra da Boa Viagem, transformando-a numa triste paisagem Lunar, também este Restaurante situado no alto da Serra, ficou reduzido a escombros, em total ruína.
Hoje, mais parecendo que tal desgraça não passou dum pesadêlo, O Abrigo da Montanha aqui está, renascido das cinzas, igualzinho ao que era dantes.

domingo, 28 de junho de 2015

Na praia da Vieira, onde o céu é mais azul...

 Até breve Praia da Vieira, havemos de voltar, mas agora é tempo de regressar a casa.
 Mas antes, eu poderia lá passar e não entrar para ver estas belezas?  Eu já as conheço, mas não resisto... São as Vieirenses (estará  certa a palavra?) e as Nazarenas, nos seus trajes antigos, aqui bonequinhas de recordação.

sábado, 27 de junho de 2015

Ainda na Praia da Vieira

 Frente ao mar,um ótimo local para um refresco, ou mesmo uma refeição completa.
         Aqui a animação começa mais tarde,lá para o fim do dia
Fico sempre a olhar para esta casinha, ano após ano - uma casinha de férias em terra de praia, neste caso, na Praia da Vieira. Como não posso chamar-lhe minha, posso tê-la em fotografia. 
De ilusões também se vive...

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Na Praia de Vieira de Leiria


De vez em quando, até mesmo no inverno, vamos até á Praia da Vieira. Agora já é verão, embora pouco quente, porém muito agradável para passear. Mas só hoje reparei neste simples mas valoroso monumento, que perpetúa uma enorme tragédia. Tantas vidas, algumas na flor da idade, destruídas por este mar tão bonito, e simultâneamente também tão cruel. Foi à muito tempo, mas os heróis não devem ser esquecidos, mas sim recordados e venerados eternamente. E assim é, nesta terra de pescadores.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Nostalgia


O sol estava a despontar e depressa a sua claridade alaranjada se projectou naquele banco adornado de azulejos. Era cêdo, a rua estava deserta, e o sol tomou a palavra...
- Estás velho amigo banco, tu e os outros cinco que te fazem companhia...
-Não, não estou; - eu sou mesmo velho, e os meus azulejos de que me orgulho tanto, ainda são mais idosos do que eu. Mas eu ainda estou forte, eles coitados é que estão fragilizados, também graças a ti e aos outros elementos, ditos naturais.
- A mim ? Eu, o sol, que tudo faço germinar ?!
- Fazes germinar quando não queimas com o teu calor impiedoso! Vocês são os culpados!
- Vocês? Então, além de mim, quem mais?
-O vento, a chuva, a geada o granizo - em anos e anos de agressões, provocam danos bem visíveis.

És capaz de ter razão, eu  sou distraído, e ando até um tanto esquecido...

-Pois eu tenho boa memória, e agora vivo de recordações, e são muitas - algumas alegres, e outras de muita mágoa.
- A sério ? Eu tenho tempo posso ouvir-te, queres desabafar?
- Quero sim, então ouve:
-Tenho saudades do tempo em que este edifício onde me encosto, era o Hospital de Nossa Senhora de Campos. Aqui vinham os doentes tratar da saúde, era um espaço prá vida, embora para alguns, ela aqui tivesse o seu fim. Ainda cá nasceram bébés... paravam aqui casais cheios de alegria, com o seu pequenino, e colocavam a alcofa em mim, enquanto esperavam o táxi que os levava para casa ; como eu gostava desses momentos...

-Agora é um Lar da Terceira Idade - nome pompôso - para um Internato de pessoas velhas. E não faltam as vozes piedosas, ainda novas, pois claro, com a afirmação de que não há velhos, porque velhos são os trapos! As pessoas não!
- Lérias! Velho é velho, e não há retorno para voltar a ser novo...

E este jardim?! Estava sempre cheio de flores... Até tinha um lago com peixinhos vermelhos, que eram o encanto da pequenada.
Esta zona era o local de passeio Domingueiro, e até de semana também, para os poucos que podiam vir até  aqui espairecer... As árvores fronteiras davam frescura e aroma. Agora, já lá não estão...
- Esta é a minha maior mágoa - não terem dó de cortar aquelas "vidas"... aquilo não eram árvores, aquilo eram monumentos! Enormes, saudáveis, e antigas... Não havia ninguém em duas gerações, que não tivesse comido as bagas doces que elas produziam. Hoje são só saudade.

-O sol que ouvia em silêncio, murmurou - mas porque fizeram isso? Foi um sacrificio em nome do progresso? Se assim foi...
-Mas qual progresso, malvadez humana lhe chamo eu, e  no meu entender de pedra dura, foi um crime! - Mataram-nas! - eu não lhes perdôo, mataram as minhas vizinhas queridas!

-O sol começou a esmorecer... Entendo o teu desânimo, mas não sei que te diga. Conta-me algo mais alegre, se é que consegues lembrar-te.

-Lembro sim: foi há muito tempo, anos sessenta. Na época em que os casamentos eram para toda a vida, e começavam pelo namoro, que  não era nada como é hoje.
-Assim num dia de primavera, um par de namorados em passeio veio sentar-se aqui. Percebi que namoravam à pouco tempo, estavam  na fase do encantamento. Ele aproveitando o facto de não passar ninguém, nem nenhum automóvel  naquele momento, sorridente pegou-lhe na mão, e numa pressa disse:- somos namorados, vou dar-te um beijo, e deu.  Ela nem tempo teve para dizer algo, corou até ás orelhas com aquele beijo rápido, que era afinal o primeiro do género, em sua vida. A seguir, ainda sorridente, ele senhor de si, falou:- então, eu dei, tu não deste, estou à espera...ela confusa acedeu e deu-lhe um beijo, muito apressado e completamente desajeitado, e corou ainda mais...
-Precisas de praticar, foi um beijo sem perfeição - mas não faz mal - disse-lhe ele ao ouvido, enquanto com as suas mãos segurava a mão dela com firmeza, e sorria.
Olharam o relógio, e daí a pouco, deixaram-me.

O sol animou-se e disse  - gostei da recordação desta ternura. E eles voltaram mais vezes?

-Só de tempos a tempos, mas beijinho não vi mais. Na rua, não era conveniente. Ele queria casar com ela, (e casou) e certamente não gostaria de dar azo a más interpretações. O povo daquela época era cruel, costumava dizer "mulher beijada, é mulher desgraçada"- preconceitos, a tocar o Medieval...
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-Mas sabes que eles me adotaram desde logo ?  Passaram a chamar-me "o nosso banco" e agora depois de tantos anos, ainda gostam de olhar para mim. Vê lá caro sol, que até me fotografaram...

-És um sortudo, e ainda te lamentas! Fico contente por ti, acredita, exclamou o sol.
Mas agora tenho de partir, e digo-te adeus, mas voltarei para me contares outra das tuas recordações.
Até breve...

sexta-feira, 29 de maio de 2015

domingo, 24 de maio de 2015

Ainda na Figueira da Foz

Apenas para recordar, um pouquinho só, do que foi o festival de verão - FUSING - que teve lugar em Agosto passado. Concertos, gastronomia, cinema, arte, etc. faziam parte do programa.
Na imagem um gracioso Mural, os artistas capricharam...


Um artista do qual desconheço o nome, criou esta obra.Trata-se dum bloco de grandes dimensões com os dois motivos artisticamente pintados - um de cada lado.
Assim, as figuras estão para sempre de costas voltadas entre si.
Serão elas, o grande navegador e a sereia ? - As sereias sempre foram um perigo, dizem...


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Brasileiras lindas...

Como não vou ao Brasil buscá-las - vieram elas até ao meu Portugal. Depois encontrá-las, foi só ir ao supermercado. Garridas brilhantes e bonitas, logo me cativaram. Eu já as conhecia, as Royal Gala, mas naturais do Brasil não. Foi novidade, e por isso fiz fotografia, para a posteridade...


quarta-feira, 20 de maio de 2015

Passear, faz bem

Apesar de viver numa cidade bonita, plana, e agradável, que é a Figueira da Foz, raramente me disponho a passear nela. Mas estou errada ao prescindir dumas passeatas, porque além do prazer pelo que os olhos vêm, o espírito também beneficia.
Seguindo esta linha de pensamento, saí de casa e fui dar uma volta grande, a pé. Fui ver as gaivotas, só que elas não estavam lá - voltarei, até porque o passeio agradou-me, e fiz fotografias.

Há 55 anos atrás, o mar batia alteroso, belo, e medônho, nestas paredes do Forte.O progresso fê-lo recuar. Está mais bonito agora?  Não quero ter opinião...
 
Actualmente isto é um espelho de água. No centro uma escultura antiga, uma figura de mulher despida, gozando o prazer do sol - seu nome : - A Preguiça

Prédios antigos, estavam à beira da praia, agora têm a larga avenida a separá-los, depois o areal extenso e finalmente as ondas.
As escadas acabavam na areia, branquinha e fina - era ali que começava a praia, com as ondas logo um pouco adiante. Actualmente o mar ainda lá está, mas mais longe, e de permeio tem este espaço enorme - só sei dizer que está diferente...

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Consegui...

Caros visitantes, eu tenho de vos apresentar desculpas, porque desapareci sem aviso - mas não fui para longe, eu nem daqui saí. Mas tenho andado atarefada com um trabalho; eu vou contar.
- Mas antes - conhecem alguém que tenha uma renda para colocar num lençól há cinquenta anos? E alinhavada no mesmo há mais de vinte anos? Pois esse alguém sou eu. Facto muito estranho passado comigo, tendo em conta eu ter sido uma profissional desta arte.
Mas assim aconteceu, e de há uns tempos para cá passei a preocupar-me, porque a renda é obra da minha mãe, e eu não queria que fosse parar ao rol das inutilidades. Ainda pensei procurar uma bordadora, mas acabei por tentar a minha habilidade de outrora.
-Foi com emoção que me sentei à máquina (para bordar) minha companheira de tantos anos, e tantos êxitos, e também ela parada desde há muito, no descanso duma reforma bem merecida.
Como sói dizer-se comecei pelo principio: - coloquei o bastidor num bocado de pano e experimentei fazer uns riscos de cordonett. O resultado foi péssimo, parecia o trabalho duma principiante.
-Tudo tem um fim, disse para mim própria, já não sou capaz, tenho de desistir. E desanimada, chorei chorei, até as lágrimas secarem.
Depois, tristemente, olhei de novo o bastidor, e voltei a tentar... Fui bordando mais riscos, a êsmo e sem esperança, mas a certa altura reparei que estava a aparecer mais perfeito. Então animei-me e pensei - bordar o lençol como estava previsto, isso nem pensar, mas pregar a renda eu vou conseguir, tenho é de treinar um pouco mais. E assim aconteceu.
Exigente como sou, gostaria que tivesse ficado mais perfeito, mas não me foi possível.
Contudo dá para passar "sem distinção..."
Como este é um trabalho fora de época, e será o ultimo, fotografei, e vou colocar aqui.




domingo, 26 de abril de 2015

A confusão do Dr. Piteira

Naquele dia logo pela manhã, o Ricardo, proprietário da Quinta do Paúl, saiu de casa e partiu a caminho da Vila. A pequena camionete uma charanga velha, enferrujada e barulhenta, teimava em não arrancar, e ele praguejava como se ela ouvisse - mas resultou, e aos solavancos lá se fez à estrada, também ela em mau estado cheia de covas. Ricardo era agricultor e administrador, da sua  pequena quinta, que havia herdado dos pais, era a menina dos seus olhos, costumava  dizer quando lhe gabavam as sementeiras. Ele trabalhava com gosto, nem o frio nem o calor o tolhiam, e encaminhou os quatro filhos no mesmo sentido. Era uma benção de Deus, serem todos rapazes. -  dizia ele - ao mesmo tempo que tirava o boné da cabeça em sinal de respeito pela entidade sagrada.
Hoje havia feira na Vila, e ele ia comprar uns utensílios para a lavoura, e umas arcas de madeira para guardar os cereais no celeiro. A colheita  ainda demorava, mas comprava já, e  ficavam a arejar para perderem o cheiro do pinho.- Não se queria esquecer de ir à mercearia, comprar bacalhau e açucar, e farinha fina. Conduzia devagar e ia pensando - Se calhar até devia comprar uns sapatos ...
Faltavam poucos dias para a festa da sua aldeia, ele tinha fé na sua Santinha, a Sra.da Piedade, e ia sempre ao Andor.
A Alzira, sua mulher, a alma mater daquela casa só de homens, esmerava-se no vestuário que eles iriam usar nesse dia, mas não só, também a comida não era deixada ao acaso, ela orientava quem para ela trabalhava, mais a mais tinham sempre visitas para jantar no dia da festa.

Ricardo, na Vila, não se prendeu em conversas, fez todas as compras que tinha apontadas na folha da agenda, e mais outras que a ideia lhe apontou - olhou o relógio, e verificou que era a hora certa. Dirigiu-se ao edificio dos Paços do Concelho, e encaminhou-se para a repartição já de si conhecida, ao encontro dos Srs. Doutores, para um abraço e o habitual convite para o jantar no dia da festa da Sra. da Piedade.
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O marido estava a demorar e Alzira não parava de olhar pela janela, pensando o pior... Mas daí a pouco o Ricardo chegou, mas a pé. A camionete tinha ficado empanada já perto da quinta, até se via lá ao longe. Era de esperar, aquilo até era um perigo - ele bem sabia, por isso nunca dava boleia a ninguém, e dizia a razão da recusa.

-Está a chegar a hora de comprar uma coisa em termos, pensava, enquanto se aproximava de casa a passos largos. - Parou, limpou o suor da testa, e murmurou a meia voz - está decidido, na  semana que vem, vou à cidade tratar da compra - é mais uma despesa, e grande, mas tem mesmo de ser... vou já  dizer a todos durante o almoço - E, entrou em casa...

-Então os Senhores vêm ? Posso mandar preparar os quartos ? - perguntou Alzira já certa do sim.
-Vêm, e vem mais outro doutor. Está lá há pouco tempo, mas achei que o devia convidar também, e ele aceitou.
Alzira ficou preocupada - sabes, o pior é para dormir...
-Nos quartos dos nossos filhos, não mexemos, e quartos de hóspedes temos só dois...
- Ora, arranja-se qualquer coisa, disse o Ricardo, afinal é só uma noite...
- Até podia ser mais do que uma, respondeu a Alzira, não é esse o caso.
Eles gostavam de ter pessoas em casa, faziam mesmo questão.
Alzira teve uma ideia - havia uma sala espaçosa, e com janela, que nunca era utilizada. Só tinha um enorme louceiro antigo, com portas de vidro, cheio de louças dos antepassados do Ricardo. Havia  mais uns móveis soltos, poucos - estava ali a solução.

No dia da festa lá apareceram os três doutores. Viram a procissão, conversaram com alguns conhecidos, e ao fim da tarde, tomaram lugar á mesa para jantarem com o Ricardo e a familia. Para o terceiro, era novidade, mas para os outros dois já era costume, e igual todos os anos. Eles gostavam do ambiente um tanto rural, e das comidas então... era o galo de cabidela, o carneiro guisado, o leitão assado, tudo produtos da quinta - aquilo era o prazer dos deuses. Fruta, queijo, bolos e doces -  vinho bom, aguardente, e café. Neste ano, também nada fugiu à regra, foi comer e beber até à hora de ir prá cama, ali mesmo ao lado.

O "iniciado", o Dr. Piteira, foi encaminhado para o seu lugar de dormida, com muitas desculpas da Alzira, porque não era um quarto, etc, etc... Também não tinham casa de banho na quinta, os outros senhores já sabiam, mas com ele sentiam-se acanhados...
-Ele declinou essas preocupações, disse que estava tudo bem, e  só tinha era de estar grato.

O mobiliário era limitado - mas a cama era boa - encostada a ela, uma pequena mesa com um candeeiro e fósforos, e do outro lado uma cadeira com um bacio em cima. Um pouco mais adiante um lavatório, toalhas branquinhas, e um jarro cheio de água, e aos pés da cama mais duas cadeiras.

Piteira deixou-se deslizar para a cama, e sentiu-se confortável naqueles lençóis de linho aromatizados com alfazema. O sono não se fez esperar. Dormiu, sonhou, e acordou um tanto aflito, sentia-se a queimar... um ardor que vinha do estômago, e parecia envolver-lhe o corpo todo.
O luar entre nuvens, entrava pela janela dando pouca claridade ao aposento.
Na mesa, ao lado do candeeiro apagado, estava um copo com água, ele tinha-o visto quando chegou.
- Vou beber um gole, pensou - talvez fique mais fresco...
Levantou-se, mas não via bem, e também não se segurava... mesmo a abanar, alcançou o copo e bebeu.
Sentou-se na borda da cama com os pés no chão, o estômago deu volta, e, sorte, ter um bacio à sua frente...
Passaram uns largos minutos - parecia-lhe estar a melhorar...
Animou-se, e daí a pouco pensou já estar mesmo bem - contudo...

Achou que seria uma vergonha, e então decidiu desfazer-se daquele conteúdo imundo.
E como? Pegar no bacio e zás, despejá-lo pela janela...
Assim pensou, assim o fez ! E depois dormiu tranquilamente.

Acordou muito cêdo, mas já o sol começava a despontar. O silêncio era absoluto, apenas cortado pelo trinado dos passarinhos nas árvores ao redor da casa, anunciando a chegada do novo dia. Piteira estava deliciado, porém...
Olhou ao redor, e constatou estarrecido que a janela era do lado esquerdo - e em frente do lado direito estava o louceiro - e não tinha vazado nada por ela - tinha sim descerrado a porta envidraçada do louceiro, e atirado duma vez, todo o vómito lá pra dentro...

E, envergonhado, sem coragem para enfrentar o Ricardo e a esposa, vestiu-se apressadamente, e em passos leves, pela calada, deixou a quinta, caminhando a pé até à estrada à procura do milagre duma boleia.


domingo, 12 de abril de 2015

A visita Pascal tão desejada...

O tempo estava enevoado. Era costume, ninguém sabia explicar esta espécie de fenómeno, que acontecia sempre na semana que antecedia a Páscoa - era mais notório  na quinta e sexta feira santa. Parecia que o tempo se associava à data da paixão e morte de Cristo, e se entristecia também.
Num destes dias era dia santo da parte da manhã, no outro da parte da tarde - as pessoas esperavam pelo fim das horas santas, para iniciarem os trabalhos de limpeza das casas, as tradicionais limpezas da Páscoa. Também para irem ao monte apanhar o rosmaninho, e outras verduras aromáticas que seriam espalhadas à entrada das residências, tapete natural por onde passaria a comitiva que vinha com o Padre dar Boas Festas e Aleluias, abençoar as casas, e dar o Senhor a beijar no Domingo de Páscoa.
Esta azafama  das vizinhas fazia entristecer a Zilda - tristeza que aumentava  no dia da festa da Ressureição, porque a própria Igreja proibia a visita Pascal na sua residência. Já era assim há alguns anos, porém, ela ainda sofria...

Neste dia, à entrada da sua casa não havia verduras, a porta estava fechada, e até as janelas com as portas interiores, semi-cerradas, davam a entender que aquela familia se tinha ausentado,
mas não... Zilda no outro lado da casa, ouvia o tilintar  da campaínha, que o sacristão abanava fortemente à porta de cada residência, e as vozes alegres das pessoas nas janelas, os foguetes que estoiravam no ar ali ao lado, e não raro caíam-lhe as lágrimas.
Depois, retomava o croché, ou pegava no ultimo romance que tinha comprado à uns dias atrás.
A filha ainda brincava com as bonecas, entretinha-se a fazer-lhe vestidos, pois nesse Domingo não tinha ordem de ir para casa das amigas e companheiras da escola.
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Agora a rua já estava em silêncio, a tarde  caminhava para o fim.

Zilda acendeu o fogão a lenha  para preparar a comida, que já estava no tempero. Canja, arroz de cabidela e frango assado com batatas à volta. Tinha feito também uma travessa de arroz doce.
Ia colocar a toalha bordada na mesa da sala, e os pratos antigos que a avó lhe deixou.
Agora sim, era a sua festa de Páscoa - tinha uma visita para jantar - era o pai da filha - ano após ano, neste dia, a sua presença era uma certeza. No fim havia sempre um vinho do Porto e um brinde - tilintavam os dois cálices e outro mais pequenininho, por voltarem a estar ali juntos na próxima Páscoa.
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No ano seguinte o Padre foi transferido, e outro veio assumir a Paróquia. Num Domingo que antecedia a Páscoa, na hora da Missa ele disse que neste ano não faria excepções como o colega anterior, e ia entrar em todas as casas que tivessem a porta aberta.

Zilda, mulher de fé, ia á Missa aos Domingos, e ouviu a informação... ficou contente, mas um tanto receosa decidiu falar pessoalmente com o Padre.
- Ele confirmou, que de facto seria assim; - depois no futuro se veria... Mas não deixou de lhe lembrar que ela vivia ás custas dum homem casado, de quem tinha até uma filha. Era verdade, mas Zilda sentiu-se magoada. Tantas vezes ela em silêncio se lamentava da sorte que Deus lhe dera... E agora vinha este rapaz Padre, lembrar-lhe o que ela não esquecia...Perguntou a si própria se devia ou não abrir a porta....

No Domingo de Páscoa, Zilda na sua sala, com algumas amigas  recebeu a visita Pascal.
Contra o que julgava ser, não sentiu alegria. De pouca ou nenhuma religiosidade se apercebeu, achou tudo estranho, sentiu -se vazia. É falta de hábito, pensou...

Mas quando subiu a escada depois de ter vindo fechar a porta, teve a certeza - viu a passadeira toda marcada de verde, das plantas esmagadas pelos sapatos dos homens; na sala a carpete a mesma coisa, o chão de madeira encerado, sujo, e cheio de pingos de água benta... E aí não teve dúvidas, e afirmou
para si própria - foi a primeira vez, e será a última ! E foi!


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Chapas amolgadas

Ontem, na minha rua.
E porquê, porque o acidente espreita?
Sim, mas não na totalidade, por vezes também a negligência tem a sua quota.
Semáforos apagados há várias semanas...
Serviços oportunamente avisados da avaria, porém - orelhas moucas...
Hoje é outro dia... Os semáforos já foram activados!

domingo, 5 de abril de 2015

A Montanha e o Vale

«Sou alta» - diz a Amizade.
«Sou profundo» - diz o Amor.
E lembram bem, na verdade,
Montanha e vale, ao sol-pôr.
Pois antes que o sol resvale
Ao pélago, onde se banha,
Já dorme em sombras o vale
E há ainda sol na montanha.

(João Saraiva)

Caros amigos e visitantes
Já é dia de Páscoa, venho com atraso, mas venho - para vos apresentar os meus cumprimentos de Boas Festas, nesta Quadra Pascal. E desejar que a alegria reine em vossos lares, e nos vossos corações.
Aceitem ainda e também, o abraço da Dilita.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Laranja de Padre


Pessoa amiga ofereceu ao meu marido uma quantidade de limões e laranjas, produto das suas árvores situadas no quintal à beira de casa. Que agradável será ter ali as laranjeiras e os limoeiros com as folhas fresquinhas sempre à mão, para um saboroso chá...  Até aqui tudo vulgar, aparentemente, não fôsse o  volume de cada laranja - dei-me ao trabalho de pesar esta, que por acaso é a maior- pesa 500 gramas (meio kilo) assim bem pesadinho, e não têm a casca grossa.
   
Esta laranja no prato fez-me recuar ao tempo da minha meninice... nessa altura a Páscoa era vivida com alegria e alvorôço na minha terra. No Domingo a visita Pascal era aguardada com ansiedade - colocava-se rosmaninho na rua á entrada das residências, e abriam-se as portas de par em par- as pessoas nas janelas observavam, e  assim que se ouvia a campaínha que um dos membros da comitiva agitava continuamente, avisavam para alguma vizinha mais descuidada  " olha que já está perto, já está perto..."
Um grupo de homens acompanhava o Padre - um trazia a caldeirinha da água benta, outro os foguetes, outros as sacas de brocado vermelho para as ofertas, e outro mais respeitável carregava o grande Crucifixo repleto de flores.
Já na sala, depois de aspergir com água benta os familiares ali reunidos e das saudações de Boas Festas e Aleluias, (as pessoas ajoelhavam) o Padre pegava o Crucifixo, e dava o Senhor a beijar - dizia-se e fazia-se "vou beijar o Senhor a tua casa, e depois vens tu à minha..."

Nalgumas casas (poucas) a mesa estava posta com bolos, queijo e bebidas - se apetecia eles petiscavam, antes de dizerem adeus...
Nestas estava também a oferta para o Padre, um pouco mais generosa, do que na maioria das residências da Vila, cuja população mantinha a tradição que já vinha de longe. E a tradição era, dar uma laranja com uma moeda em cima.
O valor da moeda variava consoante as possibilidades de cada família, e fazia-se o possível para dar uma laranja grande.
Assim, as laranjas grandes eram chamadas laranjas de Padre...

Esta laranja que hoje fotografei, faria um vistão, nesses anos longínquos...

quarta-feira, 25 de março de 2015

Na Primavera


No canteiro à entrada do prédio onde moro, a planta floriu. - Parei a olhá-la. - Há quem diga ser muito bonita, aqui chamam-lhe Estrelícia, mas também já ouvi chamar-lhe  Ave do Paraíso. Eu não aprecio, parece-me estranha como flor. Já imitação de ave, talvez... E aí sim a minha admiração, e louvor à Natureza.

domingo, 22 de março de 2015

Isto também é Portugal

O escritor Xavier de Maistre deixou-nos uma obra onde nos ensina a viajar, usando apenas a imaginação e pouco mais. Viagem ao Redor do Meu Quarto - é o título desta obra - um livro pequeno e antigo. Depreende-se já qual o teor, só o pensamento viaja...
Pois eu segui o modo apontado, e estando em casa e ao redor do meu quarto, viajei para um local onde já estive de passagem, e onde gostaria de voltar, mas a sério, não apenas em pensamento como hoje fiz.
Vou colocar duas fotos que fiz nessa altura, e são a única recordação, pois tive o azar de encontrar tudo encerrado, por motivo de doença dos funcionários que recebem as visitas.


Mas agora vamos adivinhar:- onde se situa esta "coisa" bonita e grandiosa ?
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Pois caros visitantes, já brincámos às adivinhas, e sabemos que se trata da cidade de Serpa, no Alentejo no nosso Portugal. É um pormenor do Castelo, e outro do Aqueduto que o abastecia de água. Vê-se muito pouco, Serpa vale bem uma visita demorada. Vamos até lá...

O Cosido à Portuguesa

No passado Domingo o Partido Comunista fez anos - 94 -
Num restaurante perto de Tavarede festejou-se o aniversário, e do programa constava também um almoço. Ali se reuniram  comunistas, simpatizantes, e outros que não sendo adeptos do Partido, são amigos e apreciam o convívio. Neste número está o meu marido, que embora aprecie algumas das teorias comunistas, não é nem jamais será, um comunista. Mas convívios venham eles! - E lá foi encantado da vida, de máquina fotográfica e tudo...  Eu sou ao contrário, não tenho paciência para tais eventos - ouvir discursos, sorrir, aplaudir, para mim isso é uma séca - a seguir vem a comida - como pouco, e depois ter de ficar a ver os outros mastigar, até que o repasto termine, é mesmo maçada.  Assim, mais uma vez fiquei em casa e fiquei bem.
Pelo meio da tarde ele regressou. Mal entrou em casa veio ter comigo e falou assim: -  ai mulher pensei tanto em ti ... Toma!  E estendeu-me um lindo cravo vermelho, e até me brindou com dois beijinhos.- Muito bem, muito bem, afinal não é todos os dias que eu sou assim mimada, disse eu a rir.
- Deram um cravo aos presentes, não foi?
- Foi, e eu pensei logo que o trazia para ti.
-E fizeste muito bem, porque eu gosto muito de mimos e de cravos. Pena ser só um.
E ele continuou; - ah, mas não calculas o quanto eu pensei em ti... E repetia, pensei tanta vez...
- Achei estranho, e perguntei - mas afinal porquê ?
-Porquê ? Eu digo - Por causa do teu cosido à portuguesa!
Os meus vizinhos de mesa diziam sem ninguém perguntar, que estava muito bom... E eu pensava, um tanto desconsolado, está bom? - vocês haviam de comer aquele que a minha mulher faz...

Desatei a rir...Eu lá tinha o palpite de que não havia razão para o "homem" estar a pensar tanto em mim, ( já lá vai o tempo, não tenho queixas, só que agora há mais equilíbrio) embora eu não rejeitasse se fosse o caso. Mas não, o cerne da questão era afinal o cosido à portuguesa...
                 Ainda a rir, fui colocar o cravo num solitário com água, e a seguir fotografei.


quarta-feira, 18 de março de 2015

Nuvens

                                      " Mas estarão a arder ?"

terça-feira, 10 de março de 2015

Não Há Mal Que Sempre Dure

                  (conclusão do conto anterior, Cá se Fazem)

Carregando apenas uma mala, Marília entrou naquele hotel de luxo. Na recepção identificou-se e aguardou. A D. Eva, supervisora do hotel, veio ao seu encontro, sorridente, e acompanhou-a ao quarto que lhe estava destinado. Sem perder o sorriso, convidou-a a tomar café, ou até uma refeição, Marília agradeceu mas não sentia necessidade, e por isso não aceitou. -  então ela saiu, mas antes ainda lhe disse que a deixava só, para que descançásse e arrumásse as suas coisas, que mais tarde falariam, e que só ao outro dia  iniciava o seu trabalho.

Marília abriu a janela: o hotel situava-se num local um tanto isolado; rodeado por  árvores frondosas, a que se seguia uma mata matizada de muitos verdes, e não muito distante distinguia-se a serra. Muito bonito, murmurou para si própria - desfez a mala, arrumou tudo e sentou-se.

Tinha reunido toda a coragem para não se sentir infeliz, e agora só receava não ser capaz de cumprir bem o trabalho, que tinha procurado e felizmente encontrado.
Foi com mágoa que a irmã aceitou esta sua decisão, mas Marília tinha pensado muito, durante as longas noites sem sono, ao lado da mãe doente; com o passar do tempo tornou-se visível que aquela vida se extinguia a cada dia, e Marília queria estar junto dela até ao fim... Mas depois iria embora, não era justo continuar ali. Sabia bem do quanto a irmã lhe queria, mas por isso mesmo, merecia ser feliz ao lado do marido, viverem na sua intimidade, sem outra presença por perto.
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No dia seguinte, já a par do que seria o seu trabalho, Marília levantou-se cedo, tratou de si própria e arrumou a cama. Bateram à porta, foi ver ; - era uma criada; - pediu para entrar e colocou-lhe em cima da cama, a farda que ela devia usar para servir à mesa. Com um até já, sorridente, saiu e fechou a porta.
Marília pegou na roupa - Um vestido preto com uma linda gola de renda branca, e um avental bordado, de organdi branco. Pousou o vestido, e ficou com o avental nas mãos. Sentiu-se fraquejar, ela que sempre tivera criadas, era agora uma criada também... Sentou-se, e lágrimas abundantes rolaram-lhe pelas faces, antecipando os soluços que a sufocavam. Incapaz de se controlar, permaneceu assim durante alguns minutos... Depois, quase de súbito, levantou-se, e a meia voz falou para si própria: - esquecêste-te Marília? - Cá se fazem, cá se pagam!!!
Correu a passar água na cara, vestiu o fato preto, e aprimorou-se a fazer o laço do avental. Fez uma maquilhagem muito discreta, olhou-se no espelho ensaiando um ar alegre, e desceu ao encontro do seu primeiro trabalho.
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Já tinha passado mais dum ano. Marília gostava do trabalho que preenchia os seus dias no hotel. Estimava todas as colegas de trabalho, e toda a gente ali dentro, e tinha granjeado a estima de todos pela sua pessoa. Mostrava-se sempre satisfeita, ninguém diria o que aquele coração albergava. Era de noite sósinha no seu quarto, que ela convivia com as suas mágoas. Chorava com saudades do seu Fernandinho. Tinha noticias dele só pela irmã do Alex que vivia em Cascais. Ele continuava em África e nem queria ouvir falar na Marília, até ensinou ao menino que a mãe era a Lena, a sua esposa.
Ela pensava também nas filhas. A madrinha delas, a enfermeira Rita nunca a excluíra da sua amizade, e era por ela que recebia noticias regularmente, mas sempre à revelía do Dr. Gustavo.
Marília sentia que nunca mais as voltava a ver, nem ao menino, e só pedia a Deus que lhe désse conformação.
Ao Domingo era o seu dia de descanso. Saía do hotel pela manhã, caminhava a pé até à Vila que ficáva a poucos kilómetros dali, e ia assistir à missa. Gostava de chegar antes, queria falar com Deus.
Depois da missa, almoçava num restaurante modesto que existia próximo da Igreja, lia o jornal, e saía, de regresso ao hotel. Tinha um porte quase distinto, era impossível não se reparar nela, mas também era difícil dirigir-lhe palavra, além do Bom-Dia. Sentia-se bem assim, naquele recato, era empregada no hotel, e donde tinha vindo ninguém sabia.
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Estava muito calor naquela tarde de Domingo, e depois de almoçar Marília decidiu ir até ao Jardim da Vila até que ficásse mais fresco, para se fazer à estrada, de regresso ao seu lugar de residência. Escolheu um banco com sombra e sentou-se.
Nunca ali tinha estado, pensou. Era agradável aquele local. Olhou em volta, e reparou num prédio não muito grande mas de bonita arquitectura, era uma residêncial. Numa das varandas via-se uma placa com a palavra VENDE-SE.
Desviou o olhar, mas daí a pouco estava de novo a observar, e desta vez viu melhor- Residêncial Esperança. Inesperadamente uma ideia luminosa ocupou-lhe o pensamento... - E se eu... Será que o valor que tenho no Banco, chega? E isto será bom? Não tinha ninguém a quem pedir conselho ou opinião e sentiu-se esmorecer... mas depois reagiu; e decidida, avançou em frente. A porta estava aberta, entrou....
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Um mês depois, terminadas umas obras de restauro, a Residencial Esperança anunciava a sua reabertura, com nova Gerência da sua Proprietária D. Marília Matos Silva.
"Foi uma boa aquisição, diria Marília anos mais tarde aquando duma visita à irmã."
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Os anos passaram, eram já muitos... O Dr. Gustavo residia na Cidade do Cabo na África do sul, para onde se tinha mudado conforme havia decidido; tornou-se um exímio cirurgião, e além do trabalho que realizava no hospital, era um conferencista famoso, admirado e respeitado até pelos próprios colegas. As filhas seguiam-lhe as pisadas: - também elas cursaram medicina, e concluída a licenciatura estudavam agora para uma especialização. ( Recordavam a mãe, que era tão nova quando faleceu, num acidente de viação. O pai ainda tinha a fotografia dela na secretária do escritório - como era linda, comentavam elas...)
Com a colaboração da "sua mãe preta" a dedicada Rosy, que sofria com os azares dos seus senhores, ou se alegrava com as suas alegrias, o Dr. Gustavo conseguiu manter perante as filhas, aquela mentira do acidente mortal.
Porém, chegou um dia em que uma das filhas, por acaso ouviu uma conversa telefónica entre a Rosy e a Madrinha, falavam na mãe... Contou à irmã, e as duas com boas palavras e toda a dedicação que tinham pela "mãe preta", conseguiram que ela lhes contásse a verdade. Mas foi muito difícil, e só abriu mão do segredo com a condição das "suas" meninas nunca dizerem nada ao Papá.- Elas prometeram, e cumpriram, guardaram segredo absoluto. Completamente decepcionadas e tristes, confessaram que preferiam sabê-la morta, traíra o pai que elas adoravam, não a queriam ver nunca...
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O Fernandinho, agora era o Fernando, com vinte anos, deixou África e veio para Lisboa completar os estudos Universitários. A tia que nunca apoiou o comportamento do irmão, achou por bem contar ao sobrinho quem era a sua mãe verdadeira, mesmo correndo o risco de represálias por parte do Alex.
Aquela notícia foi para o Fernando como que um presente...
E Marília pôde finalmente abraçar o filho, que o pai lhe tirara  quando ele tinha apenas dois anos, e que nunca mais a deixara voltar a vê-lo. Foi emocionante este reencontro... O primeiro, de muitos.    
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Marília administrava com mestria o seu pequeno empreendimento, e estava bem financeira e socialmente, naquela terra que ela adoptou como sua. Agora que já tinha abraçado o seu Fernandinho, só as saudades das filhas se mantinham lancinantes. Soubera pela comadre Rita, da reação negativa que elas haviam manifestado em relação a ela. - Compreendeu, sofreu, e chorou muito, e  mais uma vez pensou:- Cá se fazem, cá se pagam.- Não tenho alternativa...
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Passaram mais uns anos. O cabelo de Marília começava a semear de branco, ela ainda era bonita, mas sentia-se a caminhar para o fim. Sem nunca se desfazer do seu monólogo de afirmações, verdadeiras no seu conceito, repetia para si ao lembrar-se das filhas, - é ainda o meu castigo...

Mas não há mal que sempre dure...  Marília, emocionada, acabava de ler uma carta que tinha chegado à poucos minutos, e vinha de África. Nem queria acreditar...  

" Mamã,
Perdoa-nos. A nossa fé diz que não devemos ser juízes de nossos pais.
Temos sido, em relação a ti, mas não queremos ser mais.
Escrevo-te cheia de tristeza; o Papá partiu para sempre. Partiu sem sofrimento.
Ele não merecia  sofrer, tu sabes;  mas  merecia viver mais tempo.
Estamos muito tristes nem tenho palavras...
Sei que te é possível, vem visitar-nos, vem por uns dias, queremos ver-te.
A Rosy está velhota, e diz que não quer morrer sem te abraçar.
Tenho tantas coisas para falar contigo, e nem consigo escreve-las aqui, estou sem jeito.
Esperamos que nos perdoes, e que venhas.
Lita e Mila
Beijinhos."
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No mês seguinte, Marília voou na T A P para África ao encontro das filhas. O filho foi abraçá-la ao aeroporto da Portela, desejar boa viajem e fazer companhia até à hora da partida.

A viagem pareceu-lhe muito longa, de tanta pressa que tinha de as ver e abraçar...Queria que lhe perdoássem, queria ouvir dos lábios delas, para ter a certeza do seu perdão.
E foram emoções extraordinárias, únicas talvez, naquele reencontro à chegada, e continuadas embora de modo mais calmo, durante a curta estadia de Marília naquela casa, que tão bem conhecia. Foram dias maravilhosos, inesquecíveis mesmo.
Depois chegou o dia e a hora, de as deixar; - foi difícil o adeus, sorriam, choravam, mas estavam felizes. Num ultimo abraço envolvendo as duas filhas, Marília murmurou "agora já posso morrer!" E dirigiu-se para o avião.

A viagem de  regresso foi calma, sem turbulência. Marília olhava pela janela do avião e via as nuvens flutuando no céu azul, enquanto as horas passavam demasiado morosas. Uma enorme serenidade tomou conta de si, convidando ao sono. Apertou o cinto, encostou a cabeça, e cerrou os olhos...
Pouco depois adormeceu.
Não tardou a ouvir vindo de longe um conjunto de vozes que cantavam, alternando com os sons de violinos, uma musica muito suave, muito bela... ela conhecia; - procurou lembrar-se do autor... Ah, sabia, pois; era Schubert , era a famosa Avé-Maria... Os cantores caminhavam a passos lentos, mas estavam agora mais perto, ela quase lhes distinguia as feições, pararam. E um dos personagens avançou alguns passos na sua direção e parou também - Era o Dr. Gustavo, que sorridente e de braços abertos lhe dizia em voz alta: - Vem Marília! Vem! Estás Perdoada!
Ela gritou bem alto: - Eu Vou! Eu Vou! - E correu, correu tanto, até cair de cansaço...

No aeroporto à chegada, a aterragem foi normal. E um tanto apressados todos os passageiros saíram do avião, excepto a Marília, que tranquilamente, continuava a dormir, mas desta vez para sempre, no profundo sono eterno.