domingo, 3 de janeiro de 2016

A queda em duplicado

Naquela sexta feira, eu fui às compras ao supermercado.Durante muitos anos comprava num mini mercado uma vez por mês, e entregavam em casa sem eu precisar de me deslocar - até a encomenda fazia por telefone. Mas tudo mudou com as enormes superfícies de vendas que se instalaram na cidade. Uma a uma, as mercearias fecharam, e o "meu" mini mercado aguentou-se mais uns tempos, mas posteriormente e com pena minha, também encerrou as suas portas. O ser humano tem o poder de se adaptar, e eu não sou excepção - tornei-me cliente dum supermercado que se situa perto da minha residência, e não quero outro.
Vou até lá a pé, faço as compras calmamente, distribuo os artigos pelos quatro sacos grandes e fortes, só usados para este fim, e entretanto o meu marido vem para almoçar, mas antes encontra-se lá comigo para trazer tudo no carro para casa.  
Aqui chegados, o carro fica no estacionamento da urbanização. Ele não é pessoa de fazer caminho pra cá e pra lá, do carro até à entrada do prédio - pega nos sacos todos duma vez, dois em cada mão, pesadíssimos, e apressado aí vai ele...

Mas por vezes manifesta-se, meio a sério, meio a brincar, e diz:
- Ora esta, pra que um homem se casa - e estou a ver que vai ser assim até ao fim da vida...  
E eu a rir sempre lhe respondo
- então que queres, tu prometêste... 
e ele confirma; Pois, prometi ! - Bem me tramei !!!
Mas foi verdade - uma promessa que hoje ninguém faz... 
Foi quando pediu para eu namorar com ele, naquele tempo em que namoro não tinha o mesmo significado que hoje tem, entre outras coisas que eram relevantes, também prometeu que carregaria os volumes pesados - amável, sem dúvida... 
Pois nessa tal sexta feira, os sacos estavam com muitas compras, e eu também segurava numa das mãos  um frascão dum produto liquido para lavar a roupa. A outra estava livre, apenas a carteira no braço, e foi com essa mão que acionei o elevador.  
Logo depois reparei que do andar inferior ao nosso tinham premido o botão, pelo que iríamos parar lá. E disse ao meu marido, vamos ter uma paragem extra.
Era a nossa vizinha  Rosa, que mal abriu a porta fez uma exclamação de surpresa agradável... cumprimentos, palavras ruidosas de ocasião, e entrou no elevador ao mesmo tempo que dizia - eu também vou, depois venho pra baixo - os sacos ocupavam espaço, não era muito boa opção, pensei, mas não disse nada. Contudo adverti-a que se afastásse da porta, e que agarrasse o vestido. (que era comprido e esvoaçante.)
Chegámos logo, era no piso seguinte - ela tinha de sair primeiro, para depois nós sairmos. Ainda pôs o pé no chão fora do elevador, mas logo entrou em desiquílibrio, e impossível de parar murmurou, olha, olha, e estatelou-se no chão - acto continuo o meu marido sem largar os sacos, fez igual, e ainda com os mais de cem quilos da sua pessoa, caiu de barriga em cima dela. 
Ambos altos, tiveram sorte por não baterem com a cabeça no gradeamento de ferro que guarnece a escada, porque caíram enviesados, mas os pés atravancaram a saída  do elevador, não me deixando espaço para eu passar e acudir, foi uma aflição pra mim.
Sem ajuda, lentamente levantaram-se, e já estavam de pé, aturdidos compondo as roupas, mas calados. O meu marido estava bem, mas a Rosa é uma pessoa doente, e eu sentia-me muito preocupada com ela; e por isso insistia várias vezes na mesma pergunta  - se estava magoada - ansiando por uma resposta que me tranquilizasse, e que tardava.
Então finalmente, depois de alguns segundos de silêncio que me pareceram horas, ela olhou para mim e muito séria, respondeu-me - pôrra, que ele é pesado...  

(A causa das quedas, foi o elevador ter parado desnivelado em relação ao pavimento fixo.)

Só falta dizer que ao fim da tarde, arrumados os meus receios, eu lembrei a cena, perfeita, qual pedacinho dum filme. (esta sem ensaios) - e dei num riso imparável, até ás lágrimas.

9 comentários:

Ivone disse...

Querida amiga, quando os acidentes acontecem e não deixam traumas, a gente depois os recorda com essa de rirmos, eu adoro isso, pois as piadas da vida nada mais são do que os momentos ridículos pelos quais passamos!
Amei ler aqui, deixo abraços bem apertados ao casal, (no caso, você e ao seu amado marido) que é, pelo que li, um excelente marido, bem do jeito que é o meu,sempre pronto a dar uma mãozinha, juntos em todos os momentos!
Feliz Ano Novo!

Manuel disse...

Lindo. Promessas são para cumprir. Eu não prometi nada disso e sempre me calha, mas que posso fazer?
Homem sofre!
Bom 2016.

Viviana disse...

Querida Dilita

Contou tão bem o acontecido que eu "vi tudo".
Aprendi uma coisa, quando me aproximo dos 50 anos de casada: Então havia ( creio que hoje não deve haver) namorados que para obterem "uma licença" de namoro, prometiam carregar as coisas pesadas?
Que engraçado! "Vivendo e aprendendo!"

Mas sabe uma coisa? O Jorge, meu marido, nunca me fez tal promessa mas...é ele que hoje carrega todos os pesos, porque como diz o povo, eu, devido à artrite, "Não posso com uma gata pelo rabo".

Agora, a queda...foi o máximo. tem a certeza que não havia por lá uma Câmara oculta?
É que podia vender a imagem a uma televisão...era um sucesso.
Obrigada por ter partilhado isto connosco.
Dispôs-me bem. ainda estou a sorrir.

Um abraço, boa amiga e uma boa noite de chuva
Viviana

Belinha Fernandes disse...

AHhaha! Até parece que estava a ver a cena!

Antonio Batalha disse...

Estou a tentar visitar todos os amigos da verdade em poesia afim de lhes desejar um 2016 muito feliz cheio de grandes vitórias e muita saúde e Paz.
António.

jair machado rodrigues disse...

Minha adorada amiga Dilita, minha parente portuguesa, só passando para dizer que tou de volta, cheio de saudade e cheio de vontade de blogar...voltarei para me por em dia com teu blog.
ps. Carinho respeito e abraço.

jair machado rodrigues disse...

Querida Dilita, agora li tua aventura, tua e de teu esposo e dessa vizinha rs...pensei no vestido longo e esvoaçante trancado no elevador, mas não se deu rs...aqui onde moro existe próximo um mercadinho, do qual já sou sócio, mas aqui é interior do interior...bem dizes que hoje é diferente o início dos relacionamentos, às vezes não tem nem começo, simplesmente ficam, mas esqueçamos isso e brindemos a promessa cumprida e cumprindo de teu adorado esposo. Saudade minha amiga e parente portuguesa.
ps. Carinho respeito e abraço.

Rosangela disse...

Um 2016 com muita saúde e muitas felicidades para vc e para os seus, minha amiga querida.
Beijo.

Nouredini.'. Heide Oliveira disse...

Seu Olimpio não e pesado cara senhora Rosa, ele é um homem de peso e palavra.