segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Nunca se está acabado, enquanto a vida durar...

O Jorge e a Rosa estavam ambos perto dos setenta, mas ninguém diria, porque eram pessoas bem dispostas, e de aspecto cuidado, ela em especial, que não descurava a ida periódica ao cabeleireiro, e nunca saia de casa sem antes proceder à respectiva maquilhagem.
Primos direitos, vizinhos e amigos desde a infância, nunca o Cupido os fez olharem-se doutra forma que não fosse a de irmãos muito queridos.
Muito nova ela trocou o conforto modesto de filha única, por um casamento aparentemente vantajoso, na opinião dos pais, e da maioria dos habitantes do lugarejo. E foi pelo braço do pai, que em ambiente de festa naquele Domingo, ela entrou na Igreja, tímida mas feliz, para contrair matrimónio com aquele com quem viveria para além das bodas de ouro.
Casamento vantajoso, no campo material, sim, mas...
Os sogros residiam na Vila, e tinham um empreendimento ligado à restauração - talho, café, restaurante, taberna, e residencial.
Ela foi viver com eles. Era ali a casa dela - em boa verdade era apenas um quarto, preparado e mobilado de novo para o casal de noivos.
Sem privacidade, sem férias, sem Domingos ou dias de descanso, apenas trabalho rotineiro e sorriso no rosto, fingindo uma felicidade que não tinha, calando os dissabores, e as traições do marido, porque era vergonha ter a coragem de se libertar, ou mesmo de se queixar...
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Alguns anos depois o Jorge também casou, e foi viver numa aldeia a alguns kilómetros do seu lugar de infância. Foi feliz - os sogros estimavam-no, assim como as gentes do lugar. Ele era calmo, e sociável, não tardou a ver-se envolvido na maior parte das actividades da terra. Era para o rancho folclórico, para o Teatro, e também fazia parte do grupo de vozes que actuavam  nas cerimónias religiosas. Tocava órgão na Igreja, e com o passar dos anos tornou-se Acólito - por vezes substituía o Padre na recitação do terço,  ia a casa dos doentes levar-lhes a comunhão, e não raro, uma palavra de conforto e de esperança. Tudo isto para além da sua actividade profissional.
E assim viveu uma vida cheia durante vários anos, até ao dia em que a esposa adoeceu - não com uma qualquer febre que se trata e cura, mas com uma doença mental incurável que se agravava dia após dia, não tardando a torná-la numa inválida. Durante muito tempo ele passou a viver em função do necessário que o estado dela exigia - dedicava-lhe todo o tempo possível durante o dia, e na totalidade de noite - melhoras não eram visíveis, e esperanças adivinhavam-se nulas. O médico que desde o inicio a acompanhava, aconselhou vivamente o respectivo internamento.
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E foi de lágrimas nos olhos, no primeiro dia da semana, que o Jorge a deixou naquela Unidade de Saúde entregue aos cuidados duma equipa especializada, e num ambiente em tudo idêntico a um hotel de luxo.
Fóra do átrio, ele ainda olhou demoradamente o edifício que deixava atrás de si, enquanto um pouco distraído entrou no carro, e rodou a chave da ignição -  acelerou, mas logo diminuiu a velocidade, ao mesmo tempo que murmurava: - deixei de ter pressa... Nem sou preciso em casa, e já nem tenho ninguém à minha espera... E pensando em tudo e nada em simultâneo, ia vencendo lentamente os kilómetros  que o separavam da sua aldeia, sem mesmo reparar que o dia estava a chegar ao fim.

Entrou em casa, era já noite. Alguns vizinhos apercebendo-se da sua chegada vieram bater à porta para saber noticias, e dar uma palavra amiga. Depois, antevendo que o descanso era uma prioridade, não tardaram a dar boa noite e a retirarem-se.
Ele fechou a porta, e encaminhou-se para a cozinha.
- Colocou a chaleira ao lume, não tinha fome, apenas um chá quente, isso sim, iria confortar-lhe o estômago. Sentou-se e esperou que a água fervesse.
Um silêncio profundo envolvia a casa. Que tristeza, pensou...  E no seu intimo quase desejou que a sua doentinha (como carinhosamente por vezes lhe chamava) ali continuásse, mesmo sem o deixar dormir...
Aquela foi a sua primeira noite de solidão, porque centos delas lhe estavam prometidos, e se sucederiam durante meses, (anos até) noites intermináveis sempre iguais, numa monotonia arrasadora.
A quebrar aquele silêncio, só o relógio de pêndulo batia as horas, num som melancólico repetitivo, e não raro os ruídos próprios da noite se faziam por vezes notar - um móvel que estalava, o galo que na capoeira nas traseiras da casa, anunciava o alvorecer, o vento em altura de tempestade, ou o bater monótono da chuva na vidraça, e sempre a ausência total duma qualquer voz humana.
E o Jorge detentor duma fé enorme, não ousava revoltar-se, antes dizia "é a Vontade do Senhor" - só tenho de aceitar - Deus assim Quer...
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Como se de uma promessa se tratásse, todos os Domingos e quintas feiras ele viajava para passar longas horas com a sua doentinha. E algumas vezes a trouxe a casa em datas marcantes, mas ela piorava logo, tornava-se agressiva com palavras e atitudes, e tinha de regressar de urgência ao Internamento, onde logo era tratada e se  acalmava.
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Muito tempo depois,

O outono tinha começado, as folhas secas já apareciam pelo chão, prenúncio da vinda do inverno que não tardaria muito. Até a claridade do sol era já um tanto menor. O  Jorge apreciava aquele tempo que muitos entendem como triste - ele dizia que estava mais de acordo com o seu sentir. Mas sem saber como, algo estava a mudar na sua vida. Era surpreendente, ele jamais pensara que tal lhe pudesse vir pela porta, como sói dizer-se. E que o coração lhe pregásse aquela partida.
                                    
Assim, ele sentia como que um peso no peito - não era doença, era um misto de satisfação e culpas, uma dualidade que o arrasava dia a dia.
Telefonou a um dos irmãos, tinha de desabafar...

No dia seguinte, à hora marcada, lá estava o irmão, o Rui. Tinha decidido ir com ele porque já há tempo que não visitava a cunhada, e sentia-se em falta - ele sabia  que por vezes ela perguntava por ele.
Ia gostar de estar com ela; e antes, durante a viagem ouviria então o irmão - "mas que raio é que ele terá de importante para me dizer?" pensava para si próprio, oxalá não seja nada mau...

Foram no carro do Jorge; o Rui acomodou-se e logo que arrancaram, foi directo ao assunto.
-Então pá, querias tanto falar comigo, afinal do que se trata?
E o Jorge emocionado até ás lágrimas, começou por dizer:  sabes, eu quero contar à nossa família toda, não quero que venham a saber pelas pessoas de fora, mas decidi que fôsses o primeiro a ouvir ...e cada vez chorava mais.
O Rui começou a sentir-se aflito, e exclamou
- Ai, ai, bem me quis parecer;  é algo de grave? Estás doente? Oh homem, encosta e pára o carro.
E o Rui apreensivo pensou logo em cancro...
O Jorge parou o carro um pouco adiante, e entre dois soluços respondeu; não, não é doença.
- Há, ainda bem! Mas então diz lá, homem, olha que estás a  preocupar-me...

E o Jorge reuniu toda  a coragem que pôde, e disparou:
Estamos apaixonados, eu e a nossa prima Rosa.
O Rui deu uma enorme gargalhada!
- Há, e então  é essa a razão desse teu rio de lágrimas?
Óh homem, deixa-me rir, porque eu já estava com o coração como a noite, a ver-te num hospital gravemente enfermo, e sem esperança de cura.

O Jorge ainda em lágrimas, continuou: mas, não achas mal? A sério?
É que ela é viúva, mas eu não sou, e isso pesa-me muito na consciência, como homem, e como cristão.
- O Rui sorria, agora de simpatia pelo facto, e depois já a sério disse de sua justiça.
-Olha, eu não acho mal, porque te conheço bem, e sei a vida triste que levas. Sempre sozinho, se adoeces de noite, nem um copo de água tens, que alguém te dê.
É muito bonito o teu comportamento respeitoso perante a tua espôsa, mas ninguém lucra com os teus maus bocados, nem  tu, nem  ela.
E não vejo neste vosso encontro uma ofensa, sois ambos idosos, e carentes de apoio. Vejo sim um amparo mutuo muito importante, em especial para ti que és homem, porque uma mulher faz muita falta numa casa.
Continua como tens procedido sempre, para com a tua doentinha, nunca a abandones nem esqueças, e verás que ninguém te vai censurar.
E fez outras considerações que deixaram o irmão mais leve, e mais animado.
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Mais uns dias, e toda a familia estava ao corrente, não por ninguém alheio, mas pela voz do Jorge, como ele entendia que devia ser.
- Mas, uma tempestade não teria feito mais estragos!
Dir-se -ia que começou a guerra...
Tudo de armas apontadas ao par, que só queria paz - irmãos, cunhados, cunhadas, sobrinhos, todos contra. Sorte já não existir Inquisição, porque seria no cadafalso o  fim destas duas almas.

Os filhos da Rosa, casados e bem na vida, que contra a vontade da mãe a queriam colocar num Lar de Terceira Idade, também lhes moveram guerra aberta.
Só os filhos dele sem alaridos, se mantiveram mais ou menos integros.
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E na quinta feira como de costume, o Jorge foi passar a tarde com a esposa. Porém desta vez, foi logo de manhã.
Como sempre fazia, entrou na Capela privativa para fazer as habituais orações, e depois sentou-se e ficou à espera que o Padre Matos terminásse as suas.

Depois levantou-se, e encontraram-se ambos perto do Altar-Mor.
O Sacerdote admirou-se por ele estar ali tão cêdo, porque não era Domingo, e o Jorge de imediato lhe disse que queria pedir-lhe para ele o ouvir.

-Queres que te ouça em confissão? perguntou a meia voz...
Ao que o Jorge de olhos baixos respondeu; confissão, prevê arrependimento, e eu não reúno para já esse predicado.
Quero contar-lhe os meus pecados, e ouvir a sua recriminação se esse for o caso. Preciso dum amigo que me condene, ou me aceite - tenho-o na minha frente, é o Sr. Padre Matos.
- Compreendo, disse o Sacerdote. Deus está sempre connosco, mesmo na  Sacristia, é para lá que vamos.
O Jorge baixou a cabeça em modo de assentimento, e seguiu o Sacerdote.

O Padre sentou-se, fez o sinal da cruz e aguardou.
Jorge ajoelhou, e disse,
Peço perdão, porque vivo em pecado.
Murmurou uma prece, depois ergueu-se, e tomou lugar na cadeira em frente do Sacerdote.

Talvez pelo ambiente, o Jorge experimentava agora alguma tranquilidade, e com a humildade que sempre o caracterizava, abriu a sua alma perante aquele homem da Igreja, que o escutava em silêncio, sem que um só músculo da sua face denotásse repúdio pelo que estava ouvindo.

Por fim o Jorge calou-se - tinha contado tudo, sem nada omitir.
Estava em pecado, mas agora sentia-se aliviado...

O Padre Matos, sem que ele reparásse, tinha colocado a Estola - assim, aquela conversa fôra uma confissão. Por isso, pediu que ajoelhásse  e deu-lhe a Benção.
Depois falou-lhe:

 - Meu filho,
Quem sou eu para te condenar? Deus não condena, e eu sou um seu pequenino representante...
Compreendo os teus escrúpulos de consciência, porque és cristão praticante, mas já não compreendo a tua familia, tornada Juíz... Os Juízes pronunciam-se nos Tribunais, e por vezes também erram.

Recriminam-te porque és casado, e à tua ligação actual corresponde a palavra adultério... mas todos sabemos que, tu há muito que és viúvo - viúvo de esposa viva, e práticamente morta para o mundo.
Eu sei que nunca a vais abandonar, isso é que é importante, conheço-te o suficiente para fazer esta afirmação. E teres uma companheira a teu lado, não é impeditivo dos teus deveres...
Ela foi e será sempre a mãe dos teus filhos, mas na realidade actual, ela é apenas uma irmã que adoras, e que sempre trazes no pensamento. A sua doença é irreversível; necessita cuidados que aqui lhe são prestados, com saber e carinho. Tudo lhe tens proporcionado, sem nada esperar como troca.
Nada lhe falta, mas nada mais está ao teu alcance - será assim até Deus querer.
Não exijas mais de ti, e nem te mortifiques, porque isso também é pecado.
Fica em paz contigo, e nunca te esqueças que Deus Escreve Direito por Linhas Tortas, e também que os Seus Desígnios são surpreendentes.
Sê igual ao que  tens sido, e Deus não te abandonará.

O Padre pôs-se de pé, e o Jorge curvou-se para lhe beijar a mão.
Ele retribuiu-lhe com um longo abraço.

sábado, 6 de agosto de 2016

Racismo? Nunca! Que importa a côr do pêlo?

Com uma festinha, e duas palavras ditas com bom modo pelo dono,eles subiram, sentaram e fizeram pose...

Cães criados com rispidez, torna os animais agressivos - é a opinião do dono destes animais, que os trata com brandura e é estimado por eles.

domingo, 31 de julho de 2016

Verdades Amargas


DECADÊNCIA

Afinal, é o costume de viver 
Que nos faz ir vivendo para a frente; 
Nenhuma outra intenção, mas simplesmente 
O hábito melancólico de ser... 

Vai-se vivendo... é o vício de viver... 
E se esse vício dá qualquer prazer à gente, 
Como todo prazer vicioso é triste e doente, 
Porque o Vício é a doença do Prazer... 

Vai-se vivendo... vive-se demais, 
E um dia chega em que tudo que somos 
É apenas a saudade do que fomos... 

Vai-se vivendo... e muitas vezes nem sentimos 
Que somos sombras, que já não somos mais nada 
Do que os sobreviventes de nós mesmos!...

                        Raul de Leoni
                   ( Poeta Brasileiro ) 
                       
               

domingo, 24 de julho de 2016

Com um agradecimento, tardio...

Há muito tempo atrás, a aldeia da Cova Gala era constituída na maior parte por pescadores, alguns vindos de outras localidades igualmente piscatórias, mas que eles deixaram, por constar e ao que parece com base de verdade, que neste mar havia mais peixe. Aqui criaram os filhos, e por cá ficaram, muitos deles ainda hoje recordados em escritos relativos à aldeia de então.
As casas que habitavam, pequeninas, modestas, feitas de madeira, e empoleiradas em estacas, são hoje recordação acarinhada, e existe até uma réplica duma delas, devidamente preservada, um encanto - onde funciona o Turismo.
Há dias fui presenteada com uma peça de artesanato, um miminho, e como eu gosto disto... Ouve um almoço na Colectividade, e como eu não estive presente, veio a prenda ao meu encontro.
É um quadrinho feito em gêsso, para pendurar na parede. Antes porém, encostei na janela e fotografei, e vou colocar aqui.

E também acrescento uma foto da casinha verdadeira, e dum barco na rotunda, que não é da minha autoria. Pelo que se alguém se sentir prejudicado faça favor de dizer que eu retiro de imediato.

Actualmente esta localidade, ascendeu a Vila. E o seu nome é maior.
Chama-se Vila de São Pedro - Cova Gala


sábado, 16 de julho de 2016

A Arte das Caldas da Rainha

Olá amigas e amigos, companheiros nas andanças blogueiras.

Depois dum pequeno período de hibernação, estou a acordar... Porém, ainda um tanto indolente, talvez por causa do calor que se faz sentir, e que tal como o frio em excesso me atrapalha um pouco. Mas nada suficiente para queixas.
Hoje não trago nenhuma estória, nem poesia, trago um pedaço de argila transformado em arte, um prato de louça das Caldas da Rainha. Os motivos nele representados, são todos em relevo, o galo a galinha e os pintos, são peças inteiras só coladas pelas patas. A foto não mostra com exactidão, mas dá uma ideia. Eu sempre o achei  muito bonito, e agora quis vir partilhar convosco esta peça (portuguesa) que guardo com muita estima.
Não será único, naturalmente. Mas na altura só havia este, e nunca mais vi outro igual, apesar de já terem passado 27 anos sobre a data em que veio para mim.




domingo, 26 de junho de 2016

Gratidão e Poesia

Caras amigas e amigos,

Muito grata pelas palavras que encontrei escritas por vós, em resposta ao meu último post. Todas tão certas, tão verdadeiras, tão amigas. Senti-vos  a todas ao meu lado, irmanadas no meu desalento, mas em simultâneo apontando para a mudança, para o reagir embora sem pressa, mas com firmeza e determinação.
Irei visitar os vossos blogs, promessa feita a mim mesmo, a qual não posso descurar - de resto já tenho saudades, e já sinto a falta de "vos ver..."

Entretanto comecei pelo Jair, que é natural do nosso País irmão, o enorme Brasil.
Pois o Jair, é o meu amigo e parente brasileiro, e eu para ele, sou a amiga e parente portuguesa concerteza.
Mas na verdade, somos mesmo amigos - e quem foi o intermediário para tal facto, quem foi ? Foi essa coisa que existe e não se vê, baptizada com o nome de  internet.

Mas, por vezes a amizade presta-se a um ou outro abuso, e foi o caso - passei pelo blog dele, e mesmo estando com pressa, deu tempo para lhe roubar este soneto. É tão bonito, tinha de o trazer comigo para partilhar convosco, e foi o que fiz.

O teor é sobre separação, mas não influi em nós, que naturalmente já estamos todos separados pela distância, mas basta um simples clic, para nos sentirmos juntos no mesmo abraço.(de repente)


Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


by Vinicius de Moraes

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Para Vós, um Sorriso e um Olá

Oh minhas amigas, meus amigos, visitantes e conhecidos,quero dizer-vos que ainda cá estou, porém tão cheia de não presta,que não tardarei a começar a detestar-me.
É verdade; sem paciência, sem gosto, sem interesses...
Ainda não foi hoje que escrevi alguma coisa, como dantes fazia.
Estarei a querer equiparar-me ao Jorge Palma que canta assim:-
«Tenho uma página em branco
  E uma guitarra na mão
  Ando nisto há quatro dias
  E não me sai a canção...»

Pois, é isto mesmo, de que estou a enfermar, não sai nada...
E então, fiz uma ronda pelos blogs, porque ler, cura-me de todos os males.
E encontrei estes versos - que não falam de amores, nem de flores, e talvez por isso me agradaram neste dia em que eu me confesso azeda, tipo limão. Melhores dias virão, pelo menos assim espero.
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Onde está o Poema?

Alguns poetas me deixam mais à vontade,
na hora de poetar.
Outros tentam me desestimular,
exibindo poemas
que não consigo “diagnosticar”...

Onde está o poema?
Este é o meu tema...
Ou, para dizer melhor: meu dilema.
Vou ali no mato, e volto...
Para engajar uma rima:
vou fazer uma “obra prima”.

Mas acontece que eu
não primo tanto por “obras primas”...
Primo por obras irmãs,
obras amigas... Obras sãs
e loucas também.
Afinal todos têm
o direito de “obrar”.

A.J. Cardiais

(Poeta Brasileiro
Blog Desvários do Cotidiano)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

As Côres da Primavera

Estamos na Primavera, porém ainda não vi as andorinhas.
A Figueira da Foz, minha actual cidade, tem uma temperatura amena, e cedo elas aqui aterram...
Mas neste ano não sei o que se passa. Terão abandonado a minha zona?
Todos os dias venho à varanda à espreita das asas negras, e nada. Vale-me a presença dum casal de melros que estabeleceu residência por perto há algum tempo já, e agora se passeia na companhia dos seus melritos.
Entretanto as plantas floresceram.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

NA 4ª IDADE (105 anos)

Pois é verdade minhas amigas, continuo a destralhar - será que esta palavra existe?
Bem, o certo é que eu ando a tentar diminuir as tralhas que acumulei durante anos. Mas isto está a fazer-me gastar demasiado tempo. Por vezes dá-me vontade de adoptar o desapego, e despachar pró contentor, sem querer saber o que vai... mas logo, logo, recuo, e volto à escolha prévia. E com esta ocupação que a mim própria impus, estou a descurar outras tarefas, porque encontro livros há muito guardados e fico a "adorá-los" sem reparar no relógio que me informa do tempo que está a passar.
Assim aconteceu com este, A História do Traje, que é veterano, está com 105 anos, mas é tão gracioso, tão bonitinho, não é?
Ou sou eu que exagero?

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Livros Com Idade

Caros amigos

Este tempo cinzento tira-me a disposição. Eu quero rejeitar tal influência, não lhe dar crédito, porém não consigo.
Então resolvi ir fazer umas limpezas nos papéis que acumulei durante anos e anos. E alguma coisa seguiu pró contentor, nesta primeira escolha.
Em contrapartida matei saudades de alguns livros que já não via há muito tempo, gostei de os rever, e até decidi fotografá-los, eles merecem, porque estão na 3ª idade.

 Está com 88 anos este livro, que decerto muitos açoreanos gostariam de folhear. Nele se encontram (fotografadas) cartas escritas manualmente por grandes portugueses, são eles Gago Coutinho, Magalhães Lima, e António José de Almeida.

Um pouco do interior do referido livro; e uma frase de Guerra Junqueiro.
Em segundo plano a contra-capa, achei bonita, alusiva ás antigas Caravelas.


segunda-feira, 2 de maio de 2016

Lembrar quem merece...

 Isto é na praia da Vieira de Leiria. Um bloco de pedra tosco, propositadamente mal aparelhado, um monumento simples, para quem é simples também. Simples e em simultâneo um gigante, um herói, é o Pescador.
 As letras acusam desgaste, mas ainda se consegue adivinhar o que está escrito...
Este elegante barco pintado com cores garridas, faz parte do monumento ao Pescador.

Na Vieira de Leiria

 Eu comprei os carapaus, e a banca ficou vazia. Mas não quis esperar que colocássem mais. E elas nem sequer fizeram pose, ocupadas com os trocos, mas autorizaram que fotografasse. São as vendedoras de peixes de salmoura, secos com o sol. Também conhecidos pelos carapaus da Nazaré.

domingo, 1 de maio de 2016

Ainda não é verão...

 Na Figueira as nuvens andavam a passear no céu azul. Já na Vieira de Leiria havia céu limpo e a praia a mostrar-se uma tentação...

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Os Cravos na Revolução

Oh meus queridos Senhores "das Noticias ao Minuto", perdoem-me porque eu não me contive sem vos roubar esta noticia. Quero que ela chegue aos meus amigos de além mar................
"Foi Celeste Caeiro, agora quase com 83 anos, que em plena revolução, entusiasmada, se recusou a ir para casa e ofereceu um cravo a um soldado. Ao Notícias ao Minuto contou a história."

"Tinha então 40 anos e trabalhava num restaurante na Rua Braancamp, em Lisboa. A casa comemorava no dia 25 de abril o seu primeiro aniversário e os patrões decidiram fazer uma festa.No dia antes, compraram dezenas de cravos vermelhos e brancos que guardaram no restaurante em baldes com água, com intenção de, para assinalar a data, decorar o espaço e oferecer uma flor às clientes.“Levantei-me cedo, como de costume, mas quando cheguei ao trabalho os patrões disseram ‘meus senhores, a casa hoje não abre porque se está a dar um golpe de Estado. Vão para casa’. Pediram-me a mim e a outra empregada que levasse os cravos para casa”.Celeste pegou num grande molho e foi para o metro, com intenção de ir para o centro do acontecimento, apesar dos avisos da colega, que a aconselhou vivamente a ir para casa.

Ir para casa?! Então está-se a dar uma revolução e eu vou para casa?! Estava entusiasmada, já estava à espera que aquele dia chegasse há muito tempo”.Saiu do metro no Rossio e foi até ao Chiado onde se deparou com “um grande aparato”, tanques e soldados armados. Perguntou a um deles o que se estava a passar e disseram-lhe que iam para o Carmo deter o Marcelo Caetano.“Um dos soldados pediu-me um cigarro. Nunca fumei e tive pena de não o poder ajudar. Ainda olhei em volta para ver se lhe podia comprar um maço mas estava tudo fechado. Disse-lhe ‘Só tenho estes cravinhos’”.

“Tirei um do molho e dei-o ao soldado. Nunca esperei que ele aceitasse mas ele pô-lo no cano da espingarda. Comecei a distribuir os cravos por todos e a pô-los nas espingardas até ficar sem nenhum”.Celeste foi para casa e contou à mãe o que tinha feito, com intenções de voltar para a rua. “Esta rapariga é maluca! Vais levar um tiro!”.

“Até o escritor Luís de Sttau Monteiro, que eu conhecia - morava lá no prédio -, me disse que não voltasse a sair de casa. ‘Isto é uma guerra’, disse ele, e eu a pensar que ia correr tudo bem”.

“Fui festejar. Foi muito bonito, uma maravilha”, ainda houve “gente que não queria a revolução”: chegou a ver a polícia a bater em pessoas e outras “escaramuças”, mas no geral o ambiente era de “euforia", contou Celeste que ainda se "comove" ao recordar aquele dia há meia vida atrás e sabe bem que, se fumasse, o 25 de Abril seria hoje completamente diferente."

sábado, 9 de abril de 2016

Esqueceram-se do Poeta

Caros visitantes,

Quero deixar desculpas pela minha ausência, não é demasiada é certo, mas um constante adiar tem-me deixado calada mais tempo do que é habitual. Os vírus deram comigo, e tem sido difícil irradicá-los. Mas, como diz a canção "a tempestade há-de passar..."

Sem procurar muito, encontrei um blog da região de Viana do Castelo, mais própriamente de Afife.
Afife, Cabanas, nomes ligados ao Poeta Pedro homem de Melo, que nos deixou há 32 anos. Tanto tempo que já passou... Parece que ainda o estou a ver na TV, e a ouvi-lo declamar com a sua voz forte os lindos versos da sua autoria, ou a falar do folclore e da gente humilde, do povo que ele tanto valorizava.
Nascido no Porto, de ascendência fidalga, iniciou os estudos em Coimbra, continuando depois em Lisboa onde concluiu o curso de Direito, e posteriormente desempenhou vários cargos públicos.
O seu currículo é rico, mas não vou aqui reproduzi-lo, apenas e só, por ser demasiado extenso. E de resto porque é conhecido da maioria dos portugueses.
Estou a escrever porque li no tal blog de Afife, noticias que me deixaram um tanto penalizada.
E porquê ? Pelo que encontrei escrito.

Diz assim o bloguista :-

«Hoje o poeta está esquecido, Cabanas já não é mais o local de inspiração dos poetas, nem tão pouco o terreiro que servia para se dançar o folclore a 6 de Setembro, não tem hoje qualquer significado...
Agora é só lembranças de alguns, e que se vão perdendo conforme as pessoas vão desaparecendo, levando consigo muitas das histórias vividas em Cabanas e do Poeta.»
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Como é possível, murmurei para mim própria...
É simplesmente triste, que no nosso País se votem ao esquecimento homens que foram grandes no seu saber, como é o caso deste Poeta e grande folclorista, que marcou uma época com a sua extraordinária versatilidade. Mas não é só triste, é injusto, é falta de respeito, é ignorância em relação ao belo, às letras, à poesia, aos cantares do povo... Ao que é nosso, e de que actualmente já nem se fala.

Pedro Homem de Melo nasceu no Porto, mas passou grande parte da sua vida em Afife, na localidade de Cabanas, local inspirador para a sua poesia.

A entrada da antiga mata de Cabanas, onde se encontram os poemas de Pedro Homem de Melo, "Eternidade e Ascenção" datados de 1939.


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Estas fotos foram feitas há seis anos - já então era notória a degradação dos muros que outrora receberam os azulejos...
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Pedro da Cunha Pimentel Homem de Melo, faleceu com 74 anos na cidade do Porto, mas por vontade expressa repousa em campa rasa no cemitério de Afife. Ali se encontram há entrada, algumas das suas poesias.

Obviamente destaco esta, "ULTIMAS VONTADES"


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Posteriormente, na data do centenário do seu nascimento, foi-lhe prestada merecida homenagem, póstuma.

E depois, veio o silêncio, e o esquecimento...
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Quero dizer que só me foi possível fazer este post, indo buscar elementos e fotografias ao
Afife Digit@l Jornal on-line de Afife.
E caso alguém se sinta desagradado, agradeço me informe, que apagarei de imediato.

sábado, 26 de março de 2016

Saudações Pascais

Ainda nos recordamos do Natal, parece que foi à pouco, contudo, já estamos em tempo de Páscoa - está a findar a Semana Santa, e amanhã será a Festa da Ressurreição. Tempo de alegria, as flores brancas já desabrocharam (as páscoas, como eram chamadas) e o sol e céu azul costumam vir à Festa. Porém, neste ano deram lugar à cor cinza, e alguma chuva está prometida. Mas não faz mal, que importa que chova lá fora, se em casa o sol está a brilhar?!
E é isso mesmo que desejo ás amigas e amigos blogueiros e vizitantes - que a ressurreição de Cristo seja uma festa de alegria, e o prenúncio duma Páscoa Feliz e Abençoada.
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«Que fazes tu aí ó Cristo antigo
Pregado nessa cruz,eternamente?
Liberta a tua mão omnipotente,
Desprega esses teus pés...e vem comigo!

Não sabes que sem ti nada consigo?
Não vês que fazes falta a tanta gente?
Oh! Vem de novo,como antigamente!
Viver connosco e nós, contigo!

Não vens? Não queres ouvir a humilde prece
Num mundo que, sem ti, desaparece,
Vencido pela morte e pela dôr ?

Não vens? Não pode a cruz ficar sózinha?
Pois bem: permite então que seja minha!
Eu fico nela... e desce tu, Senhor!»

(Padre Doutor Abel Varzim)

domingo, 20 de março de 2016

Recordando Nicolau Breyner

Foi na passada semana. Mas embora eu não tenha escrito nada sobre o facto tão falado na altura, tive conhecimento e lamentei a perda. Refiro-me ao desaparecimento da vida terrena do Actor Nicolau Breyner.
E qual foi o português que não terá feito um Ah... misto de espanto, e de pena?!  Nenhum!
A Televisão trouxe-o até nossas casas, e por isso o conhecia como Actor excelente que era, não o recordo apenas nos papéis cómicos, mas também nos papéis ditos sérios, em que era igualmente perfeito.
Como pessoa, os que com ele conviveram de perto, são unânimes na afirmação de que era um homem superdotado de qualidades, destituído de vaidades ou caprichos, amigo desinteressado e sempre solidário.
E como é bonito deixar atrás de si, quando o corpo desaparece em pó, lembranças tão ricas !

São pessoas assim que fazem a diferença...
Está em Paz, Nicolau !

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Quero também aqui  recordar Joaquim Rosa, outro actor igualmente desaparecido há poucos dias. Pouco se falou acerca do seu falecimento. Contudo era um Grande Actor. Tinha uma dicção correcta e uma voz de tonalidade inconfundível.
Nunca esquecerei a sua interpretação no papel de Tomaz Moor...
- E daí para cá (pois foi há muito tempo) quantos personagens
ele incarnou, magistralmente?!
Muitos; tantos e sempre com êxito.
Porém, parece-me já votado ao esquecimento, mas...
                    --------------------
«Não choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas.
Deixai crescer, à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos,
Agonizar... Guardai, longe, as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras,
Para os que vivem, mudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,
Da multidão sem fim dos que são vivos,
Dos tristes que não podem esquecer.

E, ao meditar, então, na paz da Morte,
Vereis, talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.»

(Pedro Homem De Melo)

quarta-feira, 16 de março de 2016

A Primavera vai e volta sempre...

Vem aí a Primavera !
Chega no próximo Domingo, dia 20 de Março ás quatro horas e trinta minutos.
Mas  as flores chegaram antes!
Já cá estão para a receber.
Bem-vinda sejas Primavera!


domingo, 6 de março de 2016

Poesia sem Rima

VIDA SEM SEGREDO

O palco,
é a vida.
São muitos os cenários.
A harmonia não se faz sem luta.
Nem sobrevive sem vigilância.
Do micro,
ao macro cosmo,
todo equilíbrio exige treino,
em corda esticada,
e em corda bamba.
A corda também se solta.
Exige,
então,
mais do que equilíbrio.
Para que não se caia no abismo,
é preciso saber voar.
Mas,
se houver vítima,
quem assiste ao treino,
cuida também da vítima.
O palco,
é a vida.
O assistente,
é o Criador.
O artista do micro é o átomo,
é a bactéria,
que também luta.
O glóbulo branco,
enfrenta o vírus,
e protege o sangue.
Nele,
vive de sentinela.
Mas,
o vírus também é vivente.
Compõe a cena do cenário,
sob a vigilância do Criador.
A batalha não é somente do homem.
O artista é também o bólido,
é também o astro.
Não se despreze a poeira cósmica,
que também compõe a dança do universo.
O maestro de tudo,
não pense o homem que é ele,
juiz,
cego,
e parcial.
Há quem garante o palco,
há quem garante o artista.
Pode ser o átomo,
pode ser o vírus,
pode ser o homem,
pode ser a poeira cósmica,
pode ser o astro.
O garantidor é o Intuitivo,
é o Criador.

Evaldo

E quem é Evaldo? - Alguém do País Irmão, com sensibilidade bastante para escrever nestes termos (bonitos) o que pensa sobre a realidade da vida. 

No Blog -  
epomoreira.blogspot.com. br. (escritos e desenhos do Evaldo)

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Na Gala (Figueira da Foz)

Caras amigas e amigos,

Por motivo alheio à minha vontade, não tenho postado nada no blog. E hoje mantém-se o facto, de modo que vou colocar apenas duas fotos.


Num Domingo de inverno, mas sem chuva.
A Praia deserta, e o mar em sossego - talvez nuns momentos de descanso, da sua constante labuta...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ajudar alguém, dá felicidade...

Acidentes sempre acontecem, e sempre também os lamentamos. Mas alguns pelas suas consequências extremamente desumanas e penosas, perduram na nossa lembrança.Ainda não passaram muitos meses sobre um naufrágio que aconteceu aqui na nossa Barra, a barra da Figueira da Foz apontada por quem sabe, de perigosa e assassina.
Os mortos foram a enterrar, adornados de lágrimas de dor pelos seus familiares e amigos.
E o tempo foi passando, e deixando a nu as dificuldades de ordem monetária, que os parentes vão suprindo com dificuldade.
Ontem aconteceu no Casino um espetáculo, um desfile de moda, cujo produto monetário será entregue ás familias dos referidos náufragos.
Cabeleireiros mostraram a sua arte ao pentearem os modelos no Palco, a que se seguiu o desfile das lindas mulheres exibindo a sua elegância e arte de pisar.

Ora o meu marido não podia ficar "a leste..."  ( Na altura ele até sofreu, porque conhecia estes homens do mar.)
E assim, agora,  só foi preciso uma palavrita, e logo ele disse presente!

Mas presente, querendo levar vestido um fato de oleado dum pescador - o modelo seguiu no mesmo encalço quanto à indumentária, homenageando os dois à sua maneira, todos os pescadores. E assim  permaneceram no palco enquanto durou o trabalho de pentear, e até ao fim.

Também não dispensou  umas singelas rimas que fez questão de ler ...
 
 Ao pescador português, na Gronelândia

Na Gronelândia gelada
Onde o sol não aparece
A vida é amargurada
Só a esperança prevalece

O dia parece noite,
Noite fria e sem luar
Ao longe serras geladas
E boreais de assustar

Navios fortes, bacalhoeiros,
E nos seus Dóris remando
Os valentes marinheiros
Horas e horas pescando

Há tristeza há desalento
Suas lágrimas de sal
Ali ao frio e relento
Tão longe de Portugal...

Aves marinhas voando
Impelidas pelo vento
E eles falam com elas...

Pedem que levem recados
Aos familiares amados
Que trazem no pensamento.



O jovem modelo Luís Borges, durante um dos ensaios do trabalho a apresentar.
Olímpio o cabeleireiro, e o modelo Luís Borges, vestidos com roupa dos pescadores.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O Meu Obrigada


Caras amigas e amigos, esta sou eu, hoje. Bem diferente do que era há cinquenta anos atrás... Pois, todos nos recordamos da canção que dizia "porque a beleza é fugidia como a aurora..." E é verdade. Por isso, é que se lhe dá valor, à beleza, porque ela vai sumindo e não volta.
Hoje fiz esta foto a mim própria, com a minha máquina fotográfica, e como tal não escolhi bem o cenário, é o meu museu, que não favoreceu nada.
Mas o propósito era  eu vir aqui deixar os meus agradecimentos pelos Parabéns que recebi  na data das minhas (nossas) Bodas de Ouro. E então aqui estou, manifestando a minha gratidão, e contente por ter amigas e amigos que "apareceram" para me mimar naquela data única.
Peço que aceitem, um beijinho da velhota.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

BODAS de OURO

                       
                                FOI ASSIM HÁ 50 ANOS

                             (16 - 1 - 1966 ) (16 - 1 - 2016 )

Entre ondas revôltas, e mares de pequena vaga, conseguimos lado a lado ultrapassar os obstáculos, e manter-nos à superfície.
Força Suprema, permitiu vida e saúde para  vivermos esta data única, assinalada como Bodas de Ouro.

Estes noivinhos de loiça, (que no bolo de noiva) também foram companheiros da nossa festa em 1966, estão de modo igual a festejar as suas Bodas de Ouro... merecem por isso fotografia.

*
O meu neto, um mocinho já crescido (13 anos) trouxe -me estas flores, lindas. Planta de esperança, a avaliar pelas várias flores ainda em botão.

Em datas marcantes, os amigos aparecem - quero aqui relevar o Zito, amigo sempre gentil, que nos enviou este presente muito gracioso, uma surpresa linda que nos deixou enternecidos; vai o nosso agradecimento, e um grande abraço dos velhotes.

E também um abraço grande ao Valdemar, (o decano...) pelas felicitações cheias de espírito, com que nos brindou nesta data.

domingo, 3 de janeiro de 2016

A queda em duplicado

Naquela sexta feira, eu fui às compras ao supermercado.Durante muitos anos comprava num mini mercado uma vez por mês, e entregavam em casa sem eu precisar de me deslocar - até a encomenda fazia por telefone. Mas tudo mudou com as enormes superfícies de vendas que se instalaram na cidade. Uma a uma, as mercearias fecharam, e o "meu" mini mercado aguentou-se mais uns tempos, mas posteriormente e com pena minha, também encerrou as suas portas. O ser humano tem o poder de se adaptar, e eu não sou excepção - tornei-me cliente dum supermercado que se situa perto da minha residência, e não quero outro.
Vou até lá a pé, faço as compras calmamente, distribuo os artigos pelos quatro sacos grandes e fortes, só usados para este fim, e entretanto o meu marido vem para almoçar, mas antes encontra-se lá comigo para trazer tudo no carro para casa.  
Aqui chegados, o carro fica no estacionamento da urbanização. Ele não é pessoa de fazer caminho pra cá e pra lá, do carro até à entrada do prédio - pega nos sacos todos duma vez, dois em cada mão, pesadíssimos, e apressado aí vai ele...

Mas por vezes manifesta-se, meio a sério, meio a brincar, e diz:
- Ora esta, pra que um homem se casa - e estou a ver que vai ser assim até ao fim da vida...  
E eu a rir sempre lhe respondo
- então que queres, tu prometêste... 
e ele confirma; Pois, prometi ! - Bem me tramei !!!
Mas foi verdade - uma promessa que hoje ninguém faz... 
Foi quando pediu para eu namorar com ele, naquele tempo em que namoro não tinha o mesmo significado que hoje tem, entre outras coisas que eram relevantes, também prometeu que carregaria os volumes pesados - amável, sem dúvida... 
Pois nessa tal sexta feira, os sacos estavam com muitas compras, e eu também segurava numa das mãos  um frascão dum produto liquido para lavar a roupa. A outra estava livre, apenas a carteira no braço, e foi com essa mão que acionei o elevador.  
Logo depois reparei que do andar inferior ao nosso tinham premido o botão, pelo que iríamos parar lá. E disse ao meu marido, vamos ter uma paragem extra.
Era a nossa vizinha  Rosa, que mal abriu a porta fez uma exclamação de surpresa agradável... cumprimentos, palavras ruidosas de ocasião, e entrou no elevador ao mesmo tempo que dizia - eu também vou, depois venho pra baixo - os sacos ocupavam espaço, não era muito boa opção, pensei, mas não disse nada. Contudo adverti-a que se afastásse da porta, e que agarrasse o vestido. (que era comprido e esvoaçante.)
Chegámos logo, era no piso seguinte - ela tinha de sair primeiro, para depois nós sairmos. Ainda pôs o pé no chão fora do elevador, mas logo entrou em desiquílibrio, e impossível de parar murmurou, olha, olha, e estatelou-se no chão - acto continuo o meu marido sem largar os sacos, fez igual, e ainda com os mais de cem quilos da sua pessoa, caiu de barriga em cima dela. 
Ambos altos, tiveram sorte por não baterem com a cabeça no gradeamento de ferro que guarnece a escada, porque caíram enviesados, mas os pés atravancaram a saída  do elevador, não me deixando espaço para eu passar e acudir, foi uma aflição pra mim.
Sem ajuda, lentamente levantaram-se, e já estavam de pé, aturdidos compondo as roupas, mas calados. O meu marido estava bem, mas a Rosa é uma pessoa doente, e eu sentia-me muito preocupada com ela; e por isso insistia várias vezes na mesma pergunta  - se estava magoada - ansiando por uma resposta que me tranquilizasse, e que tardava.
Então finalmente, depois de alguns segundos de silêncio que me pareceram horas, ela olhou para mim e muito séria, respondeu-me - pôrra, que ele é pesado...  

(A causa das quedas, foi o elevador ter parado desnivelado em relação ao pavimento fixo.)

Só falta dizer que ao fim da tarde, arrumados os meus receios, eu lembrei a cena, perfeita, qual pedacinho dum filme. (esta sem ensaios) - e dei num riso imparável, até ás lágrimas.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Aniversário do Birras

Olá queridas amigas e amigos, visitas deste espaço, colegas de blog, que me têm acompanhado por aqui ao longo de alguns anos já.
Pois reparei agora, que faz hoje sete anos que coloquei o primeiro post neste meu Birras. Como o tempo passa rápido na sua cavalgada silenciosa...
Distraída como ando, não preparei a festa do aniversário - nem bolo nem champanhe. Vai ser tudo virtual, "embarco na modernice..."

Mas para toda a familia blogueira vai o meu abraço de agradecimento, pela simpatia que me dedicaram relativamente ao que rabisco, e aqui tenho colocado ao longo dos sete anos passados.

E hoje não escrevo nada, com o tempo tão cinzento falta-me a inspiração... Mas vou colocar uma linda poesia - e garanto que vale muito mais que a minha humilde prosa.


EXEMPLO DE PEDRINHO

(a bicicleta verde)

Tudo começou naquele dia
em que Pedrinho a conheceu:
era toda verde,
os raios brilhantes,
o farol enorme.
- a mais bonita bicicleta da loja.

- "Seu moço, quanto custa?"

O negociante estendeu o lábio com desprezo:
- "Tres mil cruzeiros."

Tres mil cruzeiros?!
Pedrinho coça a cabeça desanimado,
mete a mão no bolso
e tira, envergonhado,
uma amassada notinha de dois cruzeiros.
Sai da loja,
sobe o morro
e entra no barraco
onde o tio dorme o seu sono de ébrio.
Apanha uma lata vazia
e guarda a velha nota.
Era o início da luta:
engraxa os sapatos,
carrega água,
guarda carros,
aluga os bracinhos magros
nas feiras de sábado...
Quanto tempo!
Quanto sacrifício!
Quanto ponta-pé do tio embriagado,
até ao dia em que Pedrinho pode contar:
- 50, 100, 500, 1000, 2000, 3000 cruzeiros...
Faz um pacote e desce o morro
para o grande encontro.

Na casa da esquina Pedrinho pára.
Havia tanta gente...
Entra.
Um homem de preto falando:
"Irmãos, grande desgraça na China:
doença, frio, falta de pão.
Crianças morrem de fome,
velhos perecem sob a neve..."

Mostra fotografias:
crianças amarelinhas,
de mãos estendidas,
os olhos amendoados no rostinho sujo.

Passam uma bandeja pelo auditório
e começam a cair as moedas.
Pedrinho não entende porque dão dinheiro.
As crianças da China querem pão.
Ele não sabe onde é a China,
nem o que é morrer sob a neve,
mas sentir fome ele o sabe bem.

O menino não resiste.
Deixa o auditório, corre à padaria
e começa a comprar muitos,
muitos pães cobertos de açúcar.
O preço do seu tesouro,
toda sua economia de longos meses...

Volta curvado sob os pacotes enormes.
O homem de preto interrompe o apelo
e Pedrinho explica:
- "Moço, é para as crianças da China."

A multidão está boquiaberta.
Teria roubado?
Interrogam-no.
E a criança, fazendo força para não chorar,
piscando para esconder a lágrima teimosa,
balbucia:
- "É o dinheiro da bi-ci-cle-ta verde..."

Um murmúrio cresce no auditório
de admiração e vergonha
diante do sacrifício da criança.
Os pães são vendidos por milhares de cruzeiros,
maravilhosamente multiplicados
como os cinco pães do menino galileu...

As crianças da China teriam pão
porque um menino pobre do morro
dera tudo quanto possuía,
seu sonho,
sua bicicleta verde,
seu primeiro amor...

Talvez pareça um exagero de poeta
numa tremenda força de expressão.
Mas se sentirmos em toda intensidade
o peso de toda a humanidade
que geme sem Cristo, o verdadeiro pão.

Se contemplarmos milhões de mãos crispadas,
de almas revoltadas que suplicam amor,
milhões de famintos, pobres que morrem de frio
num mundo vazio - rebanho sem pastor.

Se olharmos através do IDE de Jesus
o campo enorme que é o mundo sem Deus;
se sentirmos também de igual maneira,
tudo entregaremos à Obra verdadeira
de semear na terra para colher nos céus.

Eu sou, tu és, nós somos responsáveis
pelos que perecem sem amor, sem luz.
Que Deus nos arranque do vil comodismo,
nos faça mártires, se assim for preciso,
mas que o mundo se dobre ao nome de Jesus.


 Myrtes Mattias
(Poetisa Brasileira)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A Oferta do Poeta

Descalço venho dos confins da infância
E a minha infância ainda não morreu
De traz de mim em face inda distante
Menino Deus Jesus da minha infância
Tudo o que tenho e nada tenho é Teu.

Venho da estranha noite dos Poetas
Noite em que o mundo nunca me entendeu
E trago a noite vazia dos Poetas
Menino Deus Amigo dos Poetas
Tudo o que tenho e nada tenho é Teu

Feriu-me um dardo ensanguentando as ruas
Onde o demónio em vão me apareceu
Porque as estrelas todas eram Tuas
Menino irmão dos que andam pelas ruas
Tudo o que tenho e nada tenho é Teu

Quem Te ignorar, ignora os que são tristes
Óh meu Irmão Jesus triste como eu
Óh meu Irmão Menino de olhos tristes
Nada mais tenho além de uns olhos tristes
Mas o que tenho e nada tenho é teu

     ( Pedro Homem de Melo)

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O Poeta das Árvores


PELA PÁTRIA - por António Correia de Oliveira


Primavera, pintura de Claude Monet

Ouve, meu Filho: cheio de carinho,
Ama as Árvores, ama. E, se puderes,
(E poderás: tu podes quanto queres!)
Vai-as plantando à beira do caminho.

Hoje uma, outra amanhã, devagarinho.
Serão em fruto e em flor, quando cresceres.
Façam os outros como tu fizeres:
Aves de Abril que vão compondo o ninho.

Torne fecunda e bela cada qual,
a terra em que nascer: e Portugal
Será fecundo e belo, e o mundo inteiro.

Fortes e unidos, trabalhai assim...
- A Pátria não é mais do que um jardim
Onde nós todos temos um canteiro.

O Manuel, meu colega blogueiro, a propósito das árvores, lembrou-me um Poeta português que amava a Pátria, a Natureza e as árvores. Eu recordo-me de o "ter conhecido" na escola, na instrução primária de então, e até parte deste soneto, que figurava no Livro de Leitura. Hoje fui procurar, e além do Poeta encontrei o Pintor - e, trouxe os dois.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Poesia antiga, sempre actual

A minha amiga Viviana sabe que eu gosto muito de poesia, e que também tenho um certo carinho pelas árvores. Gosto de todas; das altas e fortes, ou das esguias como são os choupos, das mais maneirinhas de copa redonda, e até dos arbustos. Nelas predomina o verde, a côr da esperança, mas numa gama variada de tons entre si. Sempre que é possível guardo-as em fotografia, chamo-lhes monumentos com vida. Então esta senhora, que sabe das minhas preferências, mandou-me estas rimas que achei muito bonitas, e por isso as vou colocar aqui.

Árvores

Parece-me que nunca ninguém há-de
Ver poema tão belo como a árvore.

Árvore que sua boca não desferra.
Do seio doce e liberal da terra.

Árvore, sempre de Deus a ver imagem
E erguendo em reza os braços de folhagem.

Árvore que pode usar, como capelo,
Ninhos de papo-ruivo no cabelo;

Em cujo peito a neve esteve assente;
Que vive com a chuva intimamente.

Os tontos, como eu, fazem poesia;
Uma árvore, só Deus é que a faria.

(J. Kilmer
Poeta americano
1886-1918)


domingo, 29 de novembro de 2015

É passado, mas não esquecido

Hoje resolvi falar de mim. Já não é a primeira vez, mas não é muito meu hábito, porém e sem algo que o fizesse prever passei a recordar, e aqui estou eu a contar...
Recordei-me dos anos em que em Portugal se fabricavam Máquinas de Costura. A fábrica situava-se em São João da Madeira, e a marca da máquina era OLIVA. Ali não se fabricavam só máquinas, também criaram a publicidade inerente e puseram-na em prática. E era assim - uma Firma idónea em terra que parecesse promissora, era convidada a ser Agente daquela Marca - depois tratava-se de bater todos os lugares ao redor, para vender as máquinas. Falava-se da qualidade do produto, da facilidade de pagamento, e o mais importante - a menina para quem a máquina era comprada, tinha direito a ir aprender costura e bordados gratuitamente, num curso com a duração de três meses, o qual teria inicio em breve, em local perto da Agência.

Em Montemor uma Firma de prestígio aderiu e tornou-se Agente. Fizeram uns arranjos num rés do chão desabitado na rua principal, criando um amplo espaço. Ao lado da porta da entrada que era parcialmente de vidro, abriram a parede e criaram uma enorme montra também em vidro, de modo que claridade não faltava no Stand, e a luz fluorescente fazia o resto.
Quando o cheiro das tintas desapareceu, chegou o mobiliário... máquinas, bancos, uma mesa enorme, uma estante e um armário. Posteriormente veio o resto: tesouras, agulhas, linhas, esquadros,fitas métricas, papel, e artigos de tecido com motivos já desenhados, prontos a serem bordados.

Como na Vila não se passava nada, qualquer coisa de diferente era logo notada. Não foi preciso muito tempo para que toda a gente soubesse, que iria funcionar um curso de corte e bordados...

Eu já tinha acabado a minha aprendizagem, já tinha três anos de bordados à máquina, e de costura tinha a técnica, e alguma prática. Eu só tinha 16 anos.

Um dia passei e fui espreitar pela montra, lá estavam as máquinas alinhadas... A Agência ficava em frente do outro lado da rua, e não tardou ouvi uma voz ao meu lado - era dum contabilista que lá trabalhava à pouco tempo; era novo, simpático, e de modo delicado perguntou-me quando é que eu me queria inscrever para participar no curso... eu disse que já trabalhava, e que também não precisava de comprar máquina, porque já tinha - então ele disse-me que não fazia mal, podia ir na mesma, não era obrigada a comprar... mesmo assim eu declinei o convite.

Mas, daí a dias fui lá inscrever-me. Eu acho que no intimo me assaltou a vaidade, se bem que nunca soube lidar bem com a dita. Era uma vaidade escondida que me dava um certo gozo, porque de antemão eu tinha a certeza que já sabia bordar bem, e as outras não.

E na data marcada lá fui, e caladinha, fiz o que a Professora mandou fazer a todas - uns riscos de cordonett - pela forma como eu conciliava a máquina com o mexer do bastidor, não tardou que a Professora viesse ter comigo - deixei logo os riscos e passei a trabalhar a sério, de imediato.

Foram três mêses maravilhosos para mim, eu ia só na parte da tarde e, estava como peixe na água - convivi com as jovens do meu tempo, eu até as ensinava, conheci outras de terras mais distantes, fiz trabalhos bonitos, mas não aprendi mais nada, para além do que já sabia quando para lá fui.

No fim do curso os nossos trabalhos foram expostos num espaço alugado para o efeito, e ficaram durante uns dias. Ouve baile no sábado, e no Domingo fez-se fotografia, e ouve festa no Teatro - entrega de diplomas, e variedades com artistas do Porto, recordo o Ângelo Fernandes e a Maria Amélia Canóssa, entre outros.

Consideraram que entre os trabalhos expostos, um dos meus era o melhor, e a Agência atribuiu-me um prémio que ainda conservo - um espelho em forma de leque com aplicações em prata.

E tudo voltou ao antes, as máquinas calaram-se e regressaram "à base", o resto ficou, e a chave deu volta na fechadura.
Esta a foto do curso onde eu fui aluna... E agora digam lá, qual sou eu?
( Na fila inferior, sentadas, sou a terceira da esquerda, com blusa branca.)

Passado algum tempo, sei lá, teria eu talvez 19 anos - o mesmo empregado de então, agora já fazendo parte integrante da firma, foi ter com o meu pai (dantes era assim) convidando-me para  ir dirigir o Stand em continuidade, só era necessário eu ter o curso de corte Oliva (eu tinha outro) mas era fácil, ia a Coimbra fazer isso que eles pagavam as viagens.

E daí  a pouco mais dum mês, voltei ao Stand, agora como encarregada, cheia de entusiasmo e também com um pouquinho de mêdo... Posteriormente constatei que não devia ter sentido receio - algumas alunas eram mais velhas do que eu, mas sempre o respeito imperou entre todas nós - sem o pressentirmos, éramos uma familia...
Foi positivo, direi mesmo que para além de tudo o que classifico de agradável e vantajoso, foi igualmente motivo de realização pessoal.

E os dias iam passando, entre bordados e costuras.
Um dia este empregado, que já era um amigo, e amigo de toda a gente na Vila,entrou no Stand como de costume para levar o correio que o carteiro sempre lá deixáva, e depois de me cumprimentar falou assim  - tenho um pedido a fazer-lhe. - Precisamos duma bandeira bordada para o Monte Pio, e queria pedir que a fizesse, não há prazo, embora seja muito necessária, pode até levar um ano, mas há um pormenor, não nos leve dinheiro.

Fiquei surpreendida, e nem respondi nada.

Não era fácil o que me estava a ser pedido...
Havia ali alguma responsabilidade. Não era um bordado qualquer, era uma cópia da antiga bandeira. Esta, um trabalho perfeitíssimo, bordado á mão sobre sêda natural, uma maravilha - na altura em tiras a desfazer-se em pó.

O meu pai sempre conselheiro alertou-me - "se és capaz vai em frente, se não és, não aceites..."

Eu fiz a bandeira!
E de acordo com o pedido não cobrei dinheiro algum.

"Eu amei"aquela bandeira.

Foram muitos dias de trabalho, curvada sobre a máquina, sempre com entusiasmo para chegar ao fim. Mas nesse dia eu senti-me triste, porque ia deixar de a ver... E antes de a embrulhar para entregar, levei-a para casa e coloquei-a na minha mala do enxoval, queria que ela levásse o perfume dos sabonetes... Eu se pudésse guardava-a para mim... Foi a minha melhor obra!
Num canto em pontos miudinhos e linha amarela (quase despercebido) bordei o meu nome, só a provar a minha autoria.

Guardei a fotografia que o meu pai fez questão que fosse feita - foi o Sr. António Rodrigues, o fotografo que a fez. É a única recordação que guardo.

E falo com mágoa ao dizer que dos responsáveis pela Associação em questão, nem um mísero cartão com a palavra obrigado,tiveram para mim. Nem tão pouco, pessoalmente, uma palavra.
Reuniram e apresentaram a bandeira  aos membros presentes, mas também não me convidaram para a respectiva sessão.
Sei que alguns deles, talvez mais sensíveis, se manifestaram maravilhados.
Mas comigo, só silêncio e nada mais.

Não é percetivel na foto o desenho - é um castelo encimado por uma corôa - e sobre ele a meio, duas mãos ( um aperto de mão) um ramo de loureiro, e outro de folhagem menor. A rematar, uns arabescos bordados a azul forte, e contornados a cordão dourado, assim como todas as letras, mesmo as do lado inverso.


sábado, 28 de novembro de 2015

As malhas que as mãos tecem

Estive de visita nuns blogs, onde apreciei trabalhos de crochet e de tricô transformados em bonitas peças para vestir, nomeadamente vestidos, e camisolinhas. (há quem lhe chame blusas)
Peças mais fresquinhas para o verão, e outras apropriadas para usar nos dias frios que nos estão prometidos para breve.

Então lembrei-me de vos mostrar a vós "colegas na arte das farpas", duas peças que também tricotei à mão.

Esta é a mais nova, pois vou colocar também a mais velha. Elas (camisolas) são irmãs, mas não são gêmeas... Esta de cor rosada foi tecida com fio brilhante. 

Esta de cor de trigo é de lã fininha, chamada fio industrial. Para os canelados dos punhos e decote,teve de ser com dois fios de lã. Bem, e o ponto é conhecido, é o Pavão.