quinta-feira, 25 de março de 2021

Versos lindos!

 Poema à Mãe


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Confissão...

Há uns anos,

Mudei-me para o novo quinto andar
E passei a viver cá nas alturas,
Custou-me mesmo muito a habituar;
Olhar pela janela fazia-me tonturas...
O sêr humano a tudo se habitua
E a minha pessoa não será excepção-
Já não fico perturbada ao ver a rua,
Nem ao pensar a que distância estou do chão.
Mas recordo o desânimo e o mêdo,
Que me assaltavam na noite e madrugada,
Tudo se conjugava pra meu desassossego;
Até no elevador fiquei trancada!
Aos poucos vi então tantas belezas
Que só do alto os olhos podem vêr;
Mas que saudade das casas portuguesas
Que nas aldeias ainda hão-de haver!
Sem grandes escadas, sem elevadores,
Com amigos que lá são os vizinhos;
Canteiros ás portas, muitas flores,
Pássaros trinando; e nos beirais, os ninhos.
(Dília Brandão Fernandes)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Ainda acerca das Rádios pirata...

 - Terminados os esclarecimentos sobre o desaparecimento das morcelas, o nosso amigo Santiago Pinto ainda um tanto irado pelo acontecido, encaminhou-se para o espaço fechado onde se situava o Estúdio da Rádio Montemor. O meu marido como colaborador seguiu-o de perto, e eu preparava-me para ficar na salita ao lado (levei um livro para ler) enquanto durasse aquele tempo de emissão do qual o Santiago Pinto era o produtor e que o havia baptizado de "Uma Hora há Beira do Mondego." Mas logo o ouvi dizer para eu entrar e já, porque estava a aproximar-se a hora. Fiquei contente, eu desejava tanto conhecer um estúdio radiofónico. Eles ocuparam os seus lugares e eu sentei-me na cadeira que me indicou, ao seu lado, e caladinha comecei a observar enquanto ele separava uns papeis e trocava palavras com o meu marido. Há hora certa deu inicio à transmissão e cada um deles ia apresentando o que havia préviamente programado. Aquilo era novidade para mim e eu estava a gostar, quando para surpresa minha ele me estende uma folha de papel A4 e me diz assim em jeito de ordem; "leia isso para ficar a conhecer, porque daqui a pouco vai ler esses versos para os nossos ouvintes; - vá, leia, vá treinando, que quando eu abrir o microfone tem de ler mesmo." Eu fiquei aflita, nem sabia o que dizer, e, não disse nada. Com o papel nas mãos que tremiam, li para mim em jeito de breve ensaio, as quadras da sua autoria dedicadas a Santa Ana, mãe da Virgem Maria, Santa que era venerada na sua Terra Natal. (Vila Nova da Barca) Na devida altura e obedecendo ao seu sinal, eu li para os ouvintes os bonitos e ternos versos, que me pareceram maiores do que toda a escrita do Jornal de Noticias... (passe o exagero) Ele gostou, mas eu não. E quando ouvi a gravação ainda fiquei mais desiludida e afirmava, a minha voz é baixinha, sem corpo, nada radiofónica. Uma vergonha, repetia eu sem parar. E prometi não voltar "nunca mais" ao Estúdio. Porém, nunca digas nunca... No sábado seguinte lá estava eu de novo...

domingo, 31 de janeiro de 2021

Que importa que na rua esteja a chover?! Ao escrever eu vejo o sol a brilhar, claro e lindo...

 Encontro ao Domingo

O sol acordou cedo: hoje é Domingo,
Chama-lhe o povo "o dia do Senhor,"
Confraterniza-se, neste dia lindo,
Nos lares onde ainda existe amor.
Amor, ternura, uma família unida,
Forte cadeia que importa não quebrar.
Uma das coisas boas nesta vida
É um bom repasto, no sossegado lar.
Há festa â mesa, há risos e finezas
Que se recebem e dão de modo igual:
Ali não há lugar para tristezas,
Triunfa o bem em desfavor do mal.
A vida é curta, apenas só passagem:
Pra quê vivê-la só em confusões?
Há que sentir o bom desta "miragem"
E nela só deixar boas recordações.
(Dília Brandão Fernandes)

domingo, 31 de maio de 2020

Ainda não esqueci

Foi há muito tempo...

Foi quando se instalaram as Rádios Pirata. Dum instante para o outro passou a haver um Estúdio Radiofónico em várias localidades e Montemor foi uma delas.
Durante muitos anos reinou a Emissora Nacional e de modo menos exuberante também o Rádio Clube Português, a Renascença e os Emissores do Norte Reunidos, situados respectivamente em Lisboa e no Porto. Apenas transmitiam.  Nunca qualquer voz do exterior seria considerada para ser dali transmitida.
Assim, a vinda das Piratas foi uma glória, porque dava voz a quem quisesse para lá telefonar e ser ouvida. A maior parte dos programas eram mesmo nesse sentido - faziam uma pergunta e abriam o microfone para os ouvintes que quizessem participar. E claro sucediam-se os telefonemas e ouviam-se as vozes de quem estava longe ou perto. Havia prémios para quem respondesse certo, e aquela quase brincadeira foi um êxito durante anos.
Naquela noite em casa na Figueira, eu ouvi a pergunta (qual o nome da Capital do Egito) e como sabia a resposta telefonei. E tive sorte porque ninguém mais acertou, e por isso eu ganhei o prémio que eram duas Morcelas da Beira, da Firma que tinha publicitado aquela hora de programa.
Ganhar é ganhar, fiquei contente, mas ainda mais porque seria um bom pretexto para pela primeira vez eu ir ver um Estudio Radiofónico. E assim aconteceu.
No dia seguinte à noite, o Jornalista Santiago Pinto nosso amigo, residente numa das Freguesias de Montemor, mais propriamente Vila Nova da Barca, iria deslocar-se à Rádio porque também ele tinha ali um programa a seu encargo. Havia convidado o meu marido para fazer parte, e eu como tinha as Morcelas para trazer, aproveitei a oportunidade e lá fomos os dois para Montemor pela estrada velha, que a actual ainda não existia.
Encontrámo-nos no Café e seguimos juntos. Lá chegados, primeiro fui saber das Morcelas. O nosso amigo que já sabia o local aonde eram colocados os prémios, estranhou não ver lá nada do género e foi saber. Ficou quase numa fúria - os rapazes que tinham feito aquela hora de Rádio tinham-nas comido. Ele classificou o facto como falta de respeito, e o caso chegou aos responsáveis da Rádio, mas também ao patrocinador, que até acabou por achar graça e dizer que na próxima semana me trazia as Morcelas, não duas, mas três! (mais uma para me compensar pela espera)
E assim como prometeu assim cumpriu. Ainda hoje recordo o delicioso tempero muito agradável ao paladar. E também de ficar  a saber como era um Estúdio Radiofónico. Aquele era muito singelo, pequenino, mas ouvia-se a uma boa distância, e assim foi por largo tempo até que a Lei entretanto promulgada o silênciou, como a mais alguns em iguais condições.

sábado, 11 de abril de 2020

Desculpas e Saudações Pascais!

Caras amigas e amigos, eu quero apresentar desculpas pelo atraso no envio deste meu livro. Tal facto deve-se à situação que se vive, e eu estar "em prisão domiciliária", isto de ser velha é um posto... Mas, haja esperança. Para vós amigos, conhecidos, e desconhecidos também, vão os meus desejos de que vivam a Páscoa com saúde e paz! Abraço forte!



sábado, 21 de março de 2020

Nesta altura de tantos receios, tanta incerteza e desânimo que estamos a atravessar, encontrei estes versos do grande Poeta Fernando Pessoa, e pareceram-me escritos para hoje...

Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora!

(Fernando Pessoa)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

É Carnaval, ninguém leva a mal... Será ?

Noite de Núpcias

Enquanto despia o fraque
Junto ao leito de noivado
Escapuliu-se lhe um traque
De timbre aclarinetado...

A noiva olhou-o de lado
E pôs-se, com ar basbaque,
A remirar o bordado
Das botinas de duraque...

Houve, após esse momento,
Naquela noite de gala,
Um duplo constrangimento.

E o noivo disse-lhe então:
- Ó filha, cu que não fala
é cu sem opinião...

      Augusto Gil

(Serão mesmo da sua autoria ? )

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

O que seria do mundo sem os Poetas e a beleza das suas rimas...


Transcrevemos, de Folhas Caídas,
um dos poemas mais conhecidos de Garrett )

OLHOS NEGROS

Por teus olhos negros, negros,
Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores...
E eles a dizer que não.

E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são;
Que os azúis dão muita esp'rança,
Mas fiar-me eu neles, não.

Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim...
Nunca mais dizem que não.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Morena

Não negues, confessa
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.

Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.

Eu não... mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.

Mas olha as violetas
Que, sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!

Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.

Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,
De cor de açucenas,
De muita outra cor;
Mas rosas morenas,
Só tu, linda flor.

E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei... mas seria
Morena também.

Moreno era Cristo.
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena!

Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'
// C

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Feliz Ano-Novo !

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E — ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

(Mário Quintana)

domingo, 22 de dezembro de 2019

Cristo, Bébé...


Amigas e Amigos

Que o vosso Natal seja vivido com Paz, Alegria e Esperança!
Boas Festas!
             

sábado, 14 de dezembro de 2019

Natal


Não sei porquê, mas cada vez me sinto mais triste com a festa do Natal. E chamo-lhe festa porque a recriação do nascimento de Jesus é sempre motivo de muita alegria. Também vivi essa alegria com a minha inocência de criança quando o Menino Jesus entrava pela chaminé e me deixava no borralho um qualquer presente embora modesto.Mais tarde nos tempos de juventude de modo diferente mas com a mesma ansiedade eu aguardava esta data única. Era pelo Natal que eu estreava um vestido, se necessário fôsse também um casaco e os sapatos, esses não podiam faltar. Ia à Missa como de costume mas neste dia para beijar o Menino Jesus, que o Sacerdote retirava do Presépio no fim da Missa e o chegava aos lábios de quem se aproximava do altar e se ajoelhava para proceder a esse ritual. Pelo meio da tarde havia outro Presépio para visitar, era na Capela do Hospital, obra das Irmãs de Caridade ali residentes em semiclausura e que caprichavam, quase rivalizando com o Presépio da Igreja Paroquial. Ir até ao Presépio do Hospital, para além da curiosidade e poder avaliar qual dos dois estava mais bonito, era também um passeio de muito agrado, era um dia diferente para novos e velhos. E depois da festa cristã, vinha o divertimento - à noite havia baile no Teatro. Tudo tão simples, mas cheio de significado para mim... 
Mais tarde, quando criei a minha própria família eu continuei a viver o Natal e nem sei se não seria com uma alegria ainda maior do que fora outrora. Eu fazia a Árvore de Natal para as minhas filhas, mas não me excluía e o meu entusiasmo era um facto. Nesta altura já não era o Menino Jesus que trazia os brinquedos, mas sim o Pai Natal que os deixava  sempre junto da Árvore, que para esse fim era colocada perto duma janela que eu deixava entreaberta (só até elas adormecerem) para ele entrar, visto que não tinha lareira com chaminé. As minhas filhas na sua inocência, nem por sombras duvidavam da vinda do Homem das barbas brancas, que elas só conheciam das ilustrações nas revistas e na televisão.
Actualmente é censurada esta atitude então usada com as crianças. Diz-se que eram enganadas. De facto assim era, mas viviam uma enorme alegria, alegria que nos contagiava também.
Hoje tudo é real, a fantasia voou não existe mais, e a idade da inocência também não. Mas eu tenho saudades do "meu" Natal.

 
Esqueceram-se de ti Menino Jesus
Ficáste no Presépio abandonado
As ruas resplandécem; tanta luz,
Mas de Natal pouco é o significado.

Boas Festas! Ouve-se aqui e ali.
Porém Natal cristão já não existe.
Mas o Menino Jesus inda sorri,
Embora o seu sorriso seja triste.

sábado, 30 de novembro de 2019

Verdades!

Caras amigas e amigos,
Encontrei este texto e não resisti a trazê-lo para aqui. Eu confessei o roubo à autora, escudando-me naquela máxima "quem confessa a verdade não merece castigo." Veremos...

Façam o maior esforço, possível, para estarem vigilantes.

Quem não ler fica mais pobre...

Do Mural de Lourdes dos Anjos: Quando os meninos me pediam "papel macio pró cu e roupa boa prá gente"…Um dos textos que mais me custou a escrever e por isso tem mais lágrimas do que palavras.

“Estávamos ainda no século XX, no longínquo ano de 1968, quando a vida me deu oportunidade de cumprir um dos meus sonhos: ser professora. Dei comigo numa escola masculina, ali muito pertinho do rio Douro, na primeira freguesia de Penafiel, no lugar de Rio Mau.Era tão longe, da minha rua do Bonfim, não podia vir para casa no final do dia, não tinha a minha gente, e eu era uma menina da cidade com algum mimo, muitas rosas na alma, e tinha apenas 18 anos. Nada me fazia pensar que tanta esperança e tanta alegria me trariam tanta vida e tantas lágrimas. Os meninos afinal eram homens com calos nas mãos, pés descalços e um pedaço de broa no bolso das calças remendadas.

As meninas eram mulheres de tranças feitas ao domingo de manhã antes da missa, de saias de cotim, braços cansados de dar colo aos irmãos mais novos, e de rodilha na cabeça para aguentar o peso dos alguidares de roupa para lavar no rio ou dos molhos de erva para alimentar o gado.

As mães eram mulheres sobretudo boas parideiras, gente que trabalhava de sol a sol e esperava a sorte de alguém levar uma das suas cachopas para a cidade, “servir” para casa de gente de posses. Seria menos uma malga de caldo para encher e uns tostões que chegavam pelo correio, no final de cada mês.
Os homens eram mineiros no Pejão, traziam horas de sono por cumprir, serviam-se da mulher pela madrugada, mesmo que fosse no aido das vacas enquanto os filhos dormiam (quatro em cada enxerga), cultivavam as leiras que tinham ao redor da casa, ou perto do rio e nos dias de invernia, entre um jogo de sueca e duas malgas de vinho que na venda fiavam até receberem a féria, conseguiam dar ao seu dia mais que as 24 horas que realmente ele tinha. Filhos, eram coisas de mães e quando corriam pró torto era o cinto das calças do pai que “inducava” … e a mãe também “provava da isca” para não dizer amém com eles…E os filhos faziam-se gente.

E era uma festa quando começavam a ler as letras gordas dum velho pedaço de jornal pendurado no prego da cagadeira da casa…o menino já lia.. ai que ele é tão fino… se deus quiser, vai ser um homem e ter uma profissão!

Ai como a escola e a professora eram coisas tão importantes!

A escola que ia até aos mais remotos lugares, ao encontro das crianças que afinal até nem tinham nascido crianças…eram apenas mais braços para trabalhar, mais futuro para os pais em fim de vida, mais gente para desbravar os socalcos do Douro, mais vozes para cantar em tempo de colheitas.

E os meninos ensinaram-me a ser gente, a lutar por eles, a amanhar a lampreia, a grelhar o sável nas pedras do rio aquecidas pelas brasas, a rir de pequenas coisas, a sonhar com um país diferente, a saber que ler e escrever e pensar não é coisa para ricos mas para todos, para todos.

E por lá vivi e cresci durante três anos e por lá fiz amigos e por lá semeei algumas flores que trazia na alma inquieta de jovem que julgava conseguir fazer um mundo menos desigual.

E foi o padre António Augusto Vasconcelos, de Rio Mau, Sebolido, Penafiel, que me foi casar ao mosteiro de Leça do Balio no ano de 1971 e aí me entregou um envelope com mil oitocentos e três escudos (o meu ordenado mensal) como prenda de casamento conseguida entre todos os meus alunos mais as colegas da escola mais as senhoras da Casa do Outeiro. E foi na igreja de Sebolido que batizou o meu filho, no dia 1 de janeiro de 1973.

E é deste povo que tenho saudades. O povo que lutou sem armas, que voou sem asas, que escreveu páginas de Portugal sem saber as letras do seu próprio nome.

Hoje, o povo navega na internet, sabe a marca e os preços dos carros topo de gama, sabe os nomes de quem nos saqueia a vida e suga o sangue, mas é neles que vai votando enquanto continua á espera de um milagre de Fátima, duns trocos que os velhos guardaram, do dia das eleições para ir passear e comer fora, de saber se o jogador de futebol se zangou com a gaja que tinha comprado com os seus milhões, e é claro de ver um filmezito escaldante para aquecer a sua relação que estava há tempos no congelador.

As escolas fecharam-se, os professores foram quase todos trocados por gente que vende aulas aqui, ali e acolá, os papás são todos doutores da mula russa e sabem todas as técnicas de educação mas deseducam os seus génios, os pequenos /grandes ditadores que até são seus filhinhos e o país tornou-se um fabuloso manicómio onde os finórios são felizes e os burros comem palha e esperam pelo dia do abate.

Sabem que mais?!
Ainda vejo as letras enormes escritas no quadro preto da escola masculina, ao final da tarde de sábado, por moços de doze e treze anos com estes dois pedidos que me faziam: “Professora vá devagar que a estrada é ruim, e não se esqueça de trazer na segunda-feira, papel macio pró cu e roupa boa dos seus sobrinhos prá gente”.

Esta gente foi a gente com quem me fiz gente.

Hoje, não há gente… é tudo transgénico .

O povo adormeceu à sombra do muro da eira que construiu mas os senhores do mundo, estão acordadinhos e atentos, escarrapachados nos seus solários “badalhocamente” ricos e extraordinariamente felizes porque inventaram máquinas e reinventaram novos escravos.

Dizem que já estamos no século XXI...”

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Talvez esteja à beira dos cem anos, e ainda não envelheceu...

Bonito não é? Os antigos já tinham bom gosto. Era a petróleo, hoje está e há muito já, electrificado. É uma recordação que guardo quase religiosamente.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

No Jardim

Em fim de Setembro, a calma era por de mais evidente neste Jardim frente à praia em Armação de Pêra. Esqueci as horas e prendi-me ao bailado forte e gracioso das gaivotas que em gritos estridentes cruzavam os céus. Tão rápidas não se deixaram fotografar. O cheiro a maresia aliado ao odor dos arbustos ao meu redor, proporcionava uma atmosfera deliciosa naquele fim de tarde, que dava bem estar. E para mim pensei, não é preciso muito para me sentir no Paraíso...  ----------------------------

 Não sei porque foram retiradas daqui as fotos deste texto e do seguinte. São fotos de paisagens que eu fiz em Armação de Pêra. São motivos do Jardim com suas palmeiras, e um pouco da Avenida frente à praia.
 

Um pormenor do Algarve


As palmeiras de Armação de Pêra também estão a começar a envelhecer. É pena, mas a ordem é comum a tudo o que nasce. (nascer, crescer e findar.)


segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Este Natal, ofereça Montemor...e Fantasia!


Olá amigos e amigas!

O blogue está entregue ao abandono desde Junho e agora apareço aqui a fazer publicidade ao meu livro! O que é que hão-de vocês pensar de mim? Mais: apareço, além disso, para pedir a vossa colaboração na divulgação do meu livro, já que ainda disponho de muitos exemplares. Posso adiantar que as opiniões têm sido muito mais favoráveis do que alguma vez imaginei. Por isso atrevo-me a sugerir que possa ser uma surpresa e uma boa prenda de Natal para quem goste de ler e tenha algum interesse ou ligação afectiva à vila de Montemor-o-Velho.

Agradeço-vos, pois, caso decidam ajudar no processo e dedicar alguns minutos do vosso ocupado tempo à partilha desta postagem no vosso blogue, no Facebook, no Twitter, por correio electrónico, da melhor forma que entenderem. Sei que existem potenciais leitores que talvez apreciassem ler Montemor, verdade e fantasia, mas não é fácil chegar até eles sem auxílio.



terça-feira, 18 de junho de 2019

Na Feira do Livro em Montemor-o-Velho

Pois minhas amigas e amigos, ontem dia 15 de Junho estive na Feira do Livro na minha terra Montemor-o-Velho, para autografar o meu livro Montemor Verdade e Fantasia. Estava um vento um tanto antipático, mas o calor humano e simpatia foram mais fortes.

Montemor Verdade e Fantasia (o meu filho mais novo)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Montemor, Verdade e Fantasia: sessão de autógrafos na Feira do Livro de Montemor-o-Velho



Entre 11 e 16 de Junho vai decorrer em Montemor-o-Velho mais uma edição da Feira do Livro.  No dia 15 de Junho, pelas 15:00 horas terá lugar uma sessão de autógrafos do meu livro Montemor, Verdade ou fantasia. Convido-vos a aparecerem para trocarmos impressões e também a divulgarem a minha presença no evento!

Recordo aos mais distraídos que o livro foi  lançado em Novembro passado e que surgiu depois de, durante alguns anos, ter escrito histórias sobre a minha infância e adolescência na antiga vila, neste blogue. Incitada pelos blogueiros  meus leitores, e amigos, acabei por concretizar uma ideia nunca pensada: escrever e publicar um livro. Foram muitas horas a rever e melhorar os textos que escrevera no Renda de Birras, algumas contrariedades e até desânimos, antes do livro chegar à mão dos leitores. Embora seja uma publicação que interesse sobretudo aos nascidos e crescidos em Montemor, o livro já atravessou o Atlântico e chegou a terras brasileiras.

A publicação tem sido bem  recebida pelos leitores em geral o que me tem deixado muito satisfeita. Por vezes ainda me surpreendo com aquilo que consegui fazer: um livro. E agora estarei numa Feira de Livro, e até me chamam "escritora", o que não sou, na verdade sou uma amadora da escrita. Só isto já dava uma nova história! Uma sinopse detalhada das diversas histórias pode ser linda aqui, no blogue Renda de Birras, através do qual também podem, os interessados, solicitar a compra de um exemplar.

Sinopse breve

Em Montemor, verdade e fantasia, Dília Brandão Fernandes, junta trinta e uma estórias que resgatam do esquecimento um tempo sem retorno. Através de uma escrita simples mas cativante, onde se entrelaçam realidade e ficção, a autora relata memórias de Montemor-o-Velho, onde nasceu há 81 anos.

Acontecimentos coletivos e fenómenos hoje desaparecidos, usos, costumes e modos de vida dos anos 50-60 sustentam peripécias bem humoradas ou episódios mais sombrios protagonizados pelos habitantes da vila. São as jovens lavadeiras e as suas brincadeiras impensáveis, as bordadeiras e costureiras e o seu lavor, as trabalhadoras do arroz e a sua labuta, a sorte de mulheres companheiras da jornada de homens de virtudes e defeitos, quinteiros, agricultores, soldados, padres, as suas mágoas e os seus triunfos. São as figuras da terra, o gasolineiro, o farmacêutico, os médicos, o melómano, os “doutores” e os trabalhadores do campo, as suas brigas e ajustes de contas, e ainda seus ídolos, o ciclista Alves Barbosa, ou o artista e inventor das Espigas Doces, Henrique Flórido, que conseguiu fazer história na doçaria regional com as Espigas Doces. É também a paisagem anualmente transfigurada pelas cheias do rio Mondego, a escola da disciplina “à reguada” e o recreio, sessões de cinema ao ar livre que provocavam emoções fortes nunca vistas, as feiras da fartura e da miséria humanas, os pobres que pediam esmola de porta em porta aos sábados de manhã quase um  ritual, ou ainda a banda filarmónica no olhar de uma criança, entre outros ecos ímpares de um tempo e Montemor hoje incomparáveis.

O livro, uma edição de autor, de 196 páginas, inclui também mais de duas dezenas de fotografias de Montemor antigo, a preto e branco, feitas pela autora, e um prefácio escrito por Manuel Carraco dos Reis.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Feliz pelo merecimento!

Sobre este s

Chico Buarque é o vencedor do Prémio Camões 2019 o artista, que é músico e escritor, Chico Buarque vence o Prémio Camões Camões 2019, anunciou hoje o júri reunido no Rio de Janeiro, BrasilO Prémio Camões, considerado o maior prémio da Língua Portuguesa, foi instituído por Portugal e pelo Brasil em 1988 com o objectivo de distinguir um autor "cu...

quarta-feira, 15 de maio de 2019

A Rotunda

Da minha janela eu não vejo o Tejo preguiçoso, como dizia a cançoneta, nem tão pouco o sereno Mondego que aqui na linda Figueira da Foz se entrega ao mar. Vejo esta rotunda que tão mal recebida foi por mim, quando ela ainda era só projecto. Custou-me ver as árvores por terra sem apelo nem agravo como sói dizer-se, vítimas da alteração do espaço em beneficio do trânsito mecanizado, e também dos peões. É certo o ditado, não se pode ter tudo... Hoje, esquecidas as penas, eu gosto do que vejo, e bendigo a alteração. Da minha janela, cá do alto (frente ao candeeiro) eu fiz estas fotos com intervalo dum ano entre si.


segunda-feira, 6 de maio de 2019

O bem duma saudação amiga



Do Jair meu amigo e parente brasileiro eu surripiei este texto da sua autoria.
Gostei, fala-nos da triste realidade actual, vão gostar de ler - tenho a certeza.

Sempre Bom Dia!

Quando tudo o que se esperou era paz e sossego, entra um homem bomba e morremos ou nos ferimos, mas sofremos mesmo assim com a dor alheia, com a destruição das casas e igrejas e sonhos. Respirar profundamente, pensando em Deus e seus anjos, para que amenizem esta intolerância, o ódio que destrói vidas, trocá-lo pelo amor que salva...Como crianças perdidas na floresta, fugindo do lobo mal e da casa de doces da bruxa, vamos correr nos campos abertos e respirar o ar puro da pampa. No Sri Lanka ou no Rio de Janeiro somos metralhados, somos destruídos como nada, e nada não somos, somos tudo que quisermos ser de bom...a liberdade se limitou ao nosso cérebro, se sair um pensamento, já não somos mais livres, pois sempre haverá alguém cheio de ódio para nos atirar pedras e falar mal de nós na internet. Quando estou deitado em casa pensando na minha vida, não tenho tempo para cuidar a vida do vizinho, mas ele perde seu tempo cuidando da minha vida. E meu cão late, como se ouvisse o barulho de uma explosão. Tempos passados e distantes, uma leve memória de felicidade, de paz...éramos inocentes crianças brincando de ser feliz, correndo livres na rua, ciranda cirandinha vamos todos cirandar...Oremos à Deus pedindo paz. Olhemos nossos vizinhos e vamos dizer bom dia. Não viremos as costas para quem pede comida em nossa porta. Vamos responder aos bons dias de todos, todos os dias. Devemos perdoar quem nos metralha? Devemos perdoar que explode igrejas nos festejos da Páscoa? Eu não sei, mas não desisto de Deus, não desisto de minha boa vontade. Não desisto de dizer BOM DIA.

Postado por jair machado rodrigues

terça-feira, 30 de abril de 2019

Soneto do amigo


Enfim depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...


by Vinicius de Moraes

terça-feira, 26 de março de 2019

A ternura duma amiga que está longe, mas sempre perto. Obrigada Nouredini.

Querida amiga,

ao retornar de uma viagem a serviço na região de Juazeiro, lugar onde se moha os pés com o Rio São Francisco - nosso Velho Chico, tive a grata surpresa da chegada do vosso livro.
Fiquei alguns minutos em extase, manuseando o pacote, olhando a letra do remetente, imaginando-o atravessando mar e desaguando na Bahia. Depois, cuidadosamente abri o pacote e ohei para ele como se estivessemos nos apresentando. Olá, eu sou a Nouredini, a quem sua mãe lhe confio a guarda!
Cheirei as folhas, senti a maciez do papel, imaginei-a indo aos correios postar e meu coração se encheu de felicidade e gratidão pela sua amizade e tanta consideração. 
Por um breve momento senti um aperto no peito, quem derá Zito vivo estivesse  e certamente, colocaria com toda distinção um post no Arrozcatum, entretanto, de imediato, me recompus ao lembrar, com alegria, que o Renda nos uniu  - eu , você e Zito. É verdade , que conheci outros, mas amizade a vera, ficou a nossa.
Minha amiga, quanto orgulho desta sua vitória. Hoje carriei o livro ao trabalho e mostrei a todos. Não canso de dizer:  - a minha amiga de Portugal escreveu seu primeiro livro e na minha fala fica a certeza de que outros virão.
Obrigada por esta alegria. Toda a família lhe envia saudações e lhe parabeniza a vitória.
Vou fazer um bolinho, passar um café e prazerosamente inicar a leitura.
Com carinho,

Nouredini

domingo, 17 de março de 2019

Foi há cinquenta anos...



Foi na madrugada de 28 de fevereiro de 1969 que aconteceu em Portugal um dos grandes sismos de que há memória. São passados cinquenta anos, porém ainda não esqueci o grande susto que me deixou apavorada por largos meses e receosa para sempre, pois é fenómeno que não avisa quando se manifesta.


Eram quase quatro horas da manhã, e (nós) eu, dormia tranquilamente, mas a sonhar que a terra tremia enquanto eu tentava colocar os chinelos de quarto debaixo da mesa de cabeceira. Acordei e a terra tremia mesmo,sucedeu-se o alvoroço entre nós e a expectativa, pois a calma aconteceu, para logo logo depois, tremer a valer acompanhado dum ruído surdo que parecia paralisar-nos de terror. Apressadamente a minha mãe pegou ao colo a nossa filha bébé de dois anos, e precipitou-se a correr para o pequeno jardim tentando ultrapassar o pequeno muro que o separava dum espaço amplo de terra de semeadura paralelo à estrada. Nós corremos em sentido inverso e saímos pela porta principal achando-nos na rua aonde parte da vizinhança se juntou num ápice. Era em Braga num lugar chamado Ponte dos Falcões um subúrbio da cidade. Uma única rua de chão mal calcetado, mas de casas novas, lindas, pintadas de verde.Todas de rés do chão e primeiro andar com jardim nas traseiras. Mesmo com pressa de sairmos, ainda batemos violentamente á porta dos nossos senhorios que viviam no andar superior, receando, sei lá, que a casa caísse e eles adormecidos lá ficássem. Nem toda a gente teve presença de espírito para vestir um robe ou roupão, a maioria saiu como estava, de modo que se não fôsse a aflição instalada em que ninguém reparava em ninguém, aquilo até seria hilariante... Os minutos pareciam anos e os vizinhos de cima não desciam. Repetição de pancadas na porta, e eles falaram - já vai! E daí a mais um bocado lá apareceram então. Ainda os estou a ver... E como dizem os crentes" não os estou a chamar cá pra mal." Ouviu-se o som da chave e do trinco da porta e apareceram os dois na maior calma, impecávelmente vestidos e calçados como se fôssem para a cidade ás compras. Ela de vestido e casaco, e ele de fato inteiro camisa e gravata.


Apesar do mêdo reparei, e sorri. E pensei, que mesmo no meio do perigo há sempre quem seja forte e esteja para além...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A Natureza também capricha...

Entre muitas e da mesma árvore esta laranja nasceu diferente. Achei interessante e fotografei-a. E a origem? Daqui perto, duma aldeia bonita de nome Ereira.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A brincadeira

Hoje acordei cedo. O sol muito descorado já me espreitava por entre as pregas dos cortinados do quarto incitando-me a deixar a cama. Porém aquele aconchego da roupa ainda quente, era por de mais agradável e sem mesmo me mexer deixei-me ficar a olhar o teto. Naquele silêncio um breve trinado fez-se ouvir - a minha vizinha do andar superior deixou que um casal de passarinhos fizesse o ninho na sua varanda, e são os seus pios que de vez em quando eu ouço com verdadeira delicia. Fazem-me lembrar a infância vivida de perto com a Natureza. Com outras meninas eu ia para a Cêrca, assim chamada porque eram as terras envolventes dum antigo Convento, nesta época já totalmente descaracterizado. Os pais da minha amiga Alice residiam nele, à época casa de lavoura, cultivavam as terras, e aturavam a invasão das meninas companheiras de brincadeiras da filha. Acercávamo-nos das pereiras e roíamos as pêras maduras ou verdes e as amêndoas duma única amendoeira raquitica que ainda subsistia. Entre duas pedras partíamos as cascas e comíamos o miolo ainda leitoso. Nada nos fazia mal, chapinhávamos na pequena regueira que corria em chão de areia entre a terra de semeadura e a estrada, e onde cresciam desordenados os "gordos" agriões na fresquidão da água nascida não sei onde. Mesmo com os pés molhados calçávamos os sapatos e reatávamos a brincadeira.  Uns pequenos salgueiros que se erguiam acima, na pequena encosta, também eram tentação, agarradas a eles saltávamos a pequena valeta de cá para lá e vice-versa, vangloriando-nos depois pelo feito, quando pela quantidade de vezes sem cair era apontada a vencedora. Quando eu conheci a Alice ela morava numa casa em frente à minha, e se a memória não me falha foi uma estadia transitória enquanto eram feitas umas obras no convento aonde ela e a família já residiam. Eu e algumas companheiras da escola, brincávamos na casa dela e na minha, mas a dela tinha um grande quintal e por isso era preferida. E saltavámos à corda na rua, que era uma via com trânsito mas chegava também para nós. Nesse verão a rua foi alcatroada de novo, um trabalho que durou semanas e nos aborrecia sobretudo pelo cheiro do alcatrão. Finalizaram a obra com uma camada de areia normal, e outra de areia grossa. Os automóveis ao passar afastavam essa areia grossa para os lados da estrada. E naquele fim de tarde em vêz de saltarmos à corda começámos a juntar a areia e a atirá-la para o meio da rua. Eu até era bem comportada e sossegada, mas deu-me para a asneira - agarrei duas mãos cheias de areia grossa e atirei-a propositadamente contra um automóvel que vinha em andamento. O Sr. falou alto, e parou adiante, e logo começou a recuar. Fugimos todas cada uma para seu lado, e eu e a Alice ignorando as nossas portas de casa ali mesmo em frente, fugimos esquina acima e entrámos na casa dela por uma porta do quintal ás escondidas da mãe, e fomos meter-nos de baixo da cama. Passado algum  tempo deixámos o esconderijo e eu regressei a casa cheia de mêdo, mas a fazer fé no nosso segredo. Mas qual?  Não me livrei da sova no dia imediato, porque a minha mãe teve conhecimento da "minha proeza" e, caiu das nuvens, como sói dizer-se. E ainda me prescreveu uma semana sem saltar à corda. E assim aconteceu sem lamentos nem queixas.
( as crianças não avaliam o mal e por vezes erram, e foi o meu caso, mas hoje ao recordar não fui alheia a um sorriso "ao ver" a cena da fuga...)


sábado, 19 de janeiro de 2019

Recordando...

Era um caixotito verde escuro com uma alça para colocar ao ombro, ou ao pescoço.E a alegria que eu vivi quando de regresso duma ida a Coimbra o meu pai me entregou aquele objecto... Foi a minha primeira máquina fotográfica. Eu teria então dez anos, tinha as minhas amizades, meninas da minha idade e companheiras de brincadeira. Aos Domingos saltávamos à corda, jogávamos ao esconde, mas a máquina veio alterar tudo, eu só queria fotografar, e para isso era necessário aprender. E foi então que toda vaidosa de máquina ao ombro eu passei a calcorrear as ruas íngremes da vila ao lado do meu pai, que cheio de paciência me explicava a posição a escolher em relação ao sol, as distâncias a observar, etc. (hoje nada disso é necessário) As fotos eram quadradas e pequenas, e passado algum tempo o meu pai trouxe-me outra máquina, já um modelo de fole que fazia fotos de 6x9 e com mais qualidade. Tinha feito uma troca e por isso levaria esta.
Ai que má noticia, ia levar o meu caixotinho... Triste, chorei, chorei, mas pai era para ser obedecido e, também depois de ouvir a sua argumentação propicia ao meu entendimento, enxuguei as lágrimas e no Domingo seguinte fiz as primeiras fotos com a máquina nova. Anos depois ofereceu-me a sua própria máquina, cujas fotos eram de 6,5X11, uma ICA que me acompanhou durante largos anos. Hoje é centenária, e como tal, objecto de estimação. Fotografei-a para colocar no cabeçalho do Blog e também no do Facebook.