domingo, 21 de dezembro de 2014

Era Noite de Natal

Adeus sr. engenheiro, Feliz Natal! Repetiam os empregados um a um, à medida que deixavam o escritório. Saíam apressados, era na véspera de Natal. Paulo Ferreira o engenheiro, de pé apertava a mão a todos, retribuía as Felicitações e sorria, aparentando uma disposição que na verdade não tinha.
As instalações ficaram em silêncio, e ele sabendo-se só, sentou-se na cadeira de espaldar, frente à secretária, deixou descair a cabeça para trás e fechou os olhos. 
Alheio a tudo o que o rodeava, deu largas ao pensamento, e deteve-se no passado cheio de boas recordações. Impossível não reparar no contraste em relação à sua situação actual, o que o levou a murmurar -"feliz nos negócios, infeliz nos amores" diz o povo, e tem razão.
Passaram alguns minutos antes que decidisse abrir os olhos. Verificou as horas, e então ergueu-se rápido, olhou em redor certificando-se de que estava tudo em ordem, desligou o ar condicionado, e deixou o escritório. 
Apressado caminhou os escassos metros que o separavam da sua residência, subiu no elevador, e entrou em casa. O silêncio no grande apartamento entristeceu-o, vacilou de novo, e desalentado deixou-se cair num maple com a cabeça entre as mãos. Lidava mal com o estatuto de divorciado, precisava de tempo, dizia ele para si próprio sem grande convicção.
Pouco depois, o ruído do telefone sobrepôs-se, e  embora contrariado, foi atender: - era um colega para lhe desejar Feliz Natal. Conversaram, e ele animou-se.
Depois, um banho quente ajudou, e daí a pouco, devidamente cuidado, descia à garagem carregando os presentes que tinha comprado para oferecer ao seu único filho, o Paulinho de quase quatro anos. A tristeza desvanecera-se um pouco, sentia-se melhor... Afinal é Natal, murmurava em pensamento, procurando ser forte.
Entrou no carro, ligou a ignição, e daí a pouco já circulava pela avenida a caminho da segunda transversal, aonde numa bela moradia viviam os  seus sogros.
Ao aproximar-se diminuiu a velocidade, e estacionou um pouco antes do portão do jardim. Pelas janelas do 1º andar via-se que grande parte da casa estava profusamente iluminada. Paulo dirigiu-se para a entrada e tocou à campaínha. A porta abriu-se, era a Alice a criada, que num misto de satisfação e mágoa, cumprimentou o sr. engenheiro e o conduziu á sala grande, aonde numa mesa preparada para a ceia, brilhavam as louças e os cristais. Num dos cantos lá estava uma enorme árvore de Natal, tudo como dantes tal como ele previra, toda a família reunida e ainda alguns convidados.

- Papá, Papá, gritou o Paulinho precipitando-se em correria para os braços do Pai, que enternecido o abraçava e lhe estendia os presentes. A criada levou os embrulhos para junto da árvore de Natal, enquanto o Paulinho monopolizava o Pai em todos os sentidos, e ele se julgava o mais feliz dos mortais.
- PaPá quero cólo!  Não me ponhas no chão!  Quero que fales comigo! Sabes, eu tenho amigos na escolinha, e já sei o nome deles. Ficas comigo e com  a Mamã, não ficas? Estão cá todos, e tu nunca mais vinhas... Olha, depois ajudas-me a abrir os presentes? São muitos anda cá ver!!! Paulo queria falar, mas não tinha palavras, aquela situação era nova, e muito embaraçosa...
O alvoroço do Paulinho contrastava com  a atitude da Familia que assistia á cena sem um único sorriso, colocando o engenheiro no papel de intruso. Aquele desdém era por de mais notório, e ele sentiu-se constrangido.
Logo que o filho "consentiu," apressou-se a cumprimentar todos os familiares, e a Leonor sua ex-esposa, que friamente aceitaram os cumprimentos. E como ninguém lhe disse para ficar, nem um pouco de tempo sequer, beijou o filho e saiu.
Já no jardim, aos seus ouvidos chegaram uns gritos: - Eu quero o PaPá! Eu quero! Eu quero! Seguiu-se  um  gritar  continuado... Paulo sentiu-se gelar, e parou indeciso ... Mas naquela casa já não havia lugar para si, nem mesmo durante uns minutos na noite de Natal. E com esta certeza e o coração partido, dirigiu-se ao carro, deu volta à chave e, acelerou, sem destino...

Áquela hora, as ruas da cidade estavam práticamente desertas, era a noite da consoada, a maioria das familias estava reunida em casa como é de tradição. O engenheiro Paulo conduzia agora sem pressa, um tanto a êsmo, duma rua virava para outra, dir-se-ia que andava a ver as ornamentações Natalícias... mas não, ele ainda sentia nos ouvidos os gritos do filho a chamar por ele, e isso doía, doía muito... Depois também a forma desagradável como fora recebido naquela casa... Não esperava ser convidado para jantar, nem tão pouco aceitaria, mas aquele desprezo, foi de mais... E afinal porquê? Se ele nem sequer era culpado...
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Enquanto conduzia sem rumo, a memória trazia-lhe "o filme" dos seus ultimos anos de casado...

Tinham tido um casamento auspicioso, e foram muito felizes até ao nascimento do Paulinho. Depois a Leonor alterou-se completamente, vivia dominada por uma neurose obsessiva  pela criança, e aos poucos foi-se afastando do Paulo.
Ele adorava-a, e entendia o facto como sendo um caso patológico mas que havia de curar-se, e voltariam a ser felizes. Não queria duvidar. - A medicina faz milagres, dizia ele cheio de esperança...
Consultaram vários especialistas, ela fez a medicação recomendada, mas à medida que o tempo passava, maior era a aversão que ela manifestava em relação ao casamento, e ao marido. Era de facto um caso patológico, do foro psiquiátrico. Paulo sofria, mas continuava a esperar...
Foi ela que pediu a separação, o Paulo não queria, mas dada a insistência dela e da familia, acabou por aceitar. Seguiu-se um divórcio de comum acordo e até a promessa de que ficariam amigos; era uma boa decisão até pelo Paulinho.
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Paulo sentia a cabeça a estoirar... encostou à beira e saiu do carro. O ar frio bateu-lhe em cheio na cara,e  embora desagradável foi de  efeito benéfico, qual sedativo natural sem contra indicações.   E começou a raciocinar de modo mais lógico : -" Ficarmos amigos? Mas afinal para quê? " Para isto?
Até me fica mal ser tão ingénuo... Mas que posso eu esperar?  Nada! Eu é que estou errado.
E já não se atreve a comentar de modo tão negativo, a atitude dos seus sogros. Vai mesmo mais longe e escreve na pequena agenda, o pensamento que lhe surgiu no actual momento: - " Talvez esta família, que já não é a minha, se esteja a reger pelas leis da razão - enquanto eu me regi, pelas leis do coração... "
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Ufa!!! Que noite de Consoada...
Começou a sentir frio, desconforto, e recordou-se que não tinha jantado; precisava de fazer uma refeição, uma comida quente. Entrou no carro e seguiu devagar até à ponte, rumo a um restaurante que ficava do outro  lado do rio. Um pouco de nevoeiro alterou em parte a visibilidade; - abrandou ainda mais a velocidade, e reparou então num vulto negro que corria, e parou a meio da ponte fixando o abismo. Havia ali forte determinação pois nem deu conta do carro que parou próximo.  Pousou a mala de mão, e agarrou-se ao gradeamento para ganhar impulso. Ia lançar-se, mas os braços vigorosos de Paulo conseguiram segurá-la a tempo.

Uma figura elegante de mulher jovem, vestida de preto, estava ali encostada ao seu peito, envergonhada e cheia de lágrimas. Paulo respeitou o seu sofrimento, e não lhe fez perguntas, apenas lhe dirigiu palavras de compreensão, e aguardou. Quando lhe pareceu que podia ajudá-la, tentou...
-Agora que já está mais calma, vou levá-la a casa, disse-lhe, ao mesmo tempo que a encaminhava na direção do seu carro desarrumado. - A sua família deve estar  a sofrer de preocupação; diga-me onde mora... ela parou e com a voz embargada respondeu; - eu não tenho família nesta cidade... Estou cá há pouco tempo. Sou professora e dou aulas numa vila deste Distrito. Agradeço, mas não é necessário, tenho o meu carro ali atrás, meio escondido, não esperava precisar mais dele.
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Paulo não demonstrava, mas neste momento sentia-se muito contente - tinha salvo uma vida na noite da Consoada! E este facto fazia-o esquecer as contrariedades que vivera neste principio de noite.
Perguntou-lhe o nome, e ela disse, sou Rosália.
-Então Rosália venha jantar comigo, sou um desconhecido para si, mas pode confiar, sou o Paulo Ferreira, disse, enquanto lhe estendia um cartão de visita com a sua identificação.
O  restaurante Rio Calmo fica perto, se fosse de dia, via-se daqui.
Rosália aceitou. Jantaram juntos, e o Paulo até ficou assim um pouco de asa caída por ela, embora não o confessásse, ainda...  Ela era uma jovem discreta, fina, e educada, mas triste, e carregada de luto. Acabou por lhe contar com palavras misturadas com lágrimas, que era viúva, e tinha sido muito feliz com o seu Rui, mas um brutal acidente de viação roubara-lhe a vida, à pouco mais dum mês. Ela tinha família na terra, mas não quis ir lá passar o Natal, não tinha alegria para isso. E duas semanas passavam rápido, logo findavam as férias, e voltava  o trabalho que sempre distrai...
Mas hoje, tinha sentido tantas saudades do Rui, que pensou ir para junto dele...

E Paulo não disse, mas também pensou -  "ela queria ir para junto dele, mas eu não deixei ! "
E nem vou deixar !...





segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Mimos do Brasil

Surpresa agradável dá boa disposição. Foi o que aconteceu quando o carteiro me entregou uma encomenda, uma caixa amarela que vinha de São Paulo no Brasil. Pela letra eu fiquei logo a saber de quem era, mesmo antes de ler o remetente. Vinha da amiga Lígia do blog Liláses Azuis, uma das primeiras bloguistas a deixar comentários no meu blog, há mais de cinco anos atrás. Sem nos conhecermos pessoalmente, aconteceu uma certa estima entre nós, e da minha parte também extensiva à sua familia mais próxima "que eu já conheço..."
Já não é a primeira vez, mas mesmo já tendo acontecido, foi com algum alvoroço que abri esta encomenda. Quem não gosta de ser mimada? Eu gosto, e muito.
E dentro encontrei coisas com muita graciosidade, eu vou mostrar.-
 Quis colocar tudo nesta foto, mas ficou assim um amontoado sem graça...
 É para fazer o bolo de caneca, mas tem o feitio de chávena (mais bonito) é branquinha e decorada a castanho.
Os enfeites, são a receita do bolo, numa sequência de imagens com o modo de o fazer, e as quantidades de produtos necessárias.

Mimos do Brasil

 Gatinho fofinho provido de iman  para se segurar no frigorífico.
 Cãosinho porta chaves, porta tesoura, e um cestinho iman com frutas, recordação de São Roque.
O mesmo gatinho, com as molinhas para prender os recados que não podem ser esquecidos.

Mimos do Brasil

 Que cheirinho, destes "ovinhos..."  Gostei muito do lápis, recordação do Sr. do Bonfim.
 Um estôjosinho de pelinha personalisado com carinho para mim.
O mesmo estôjo, deste lado decorado a côres.

Mimos do Brasil

Um suporte mimoso para colocar na parede. Um lápis com borracha, e as letras Brasil, e fita a decorar com as cores da bandeira do grande País. E a louça azul sempre vistosa.
 Só para se ver em maior plano a perfeição das flores, parecem verdadeiras.
E aqui os meus doces preferidos. Línguas de gato, de chocolate é novidade, não temos cá.

Foram as primeiras prendas de Natal que recebi, são muitas, e bonitas, tudo a meu gosto, surprêsa agradável, que jamais esquecerei.
Obrigada, amiga Lígia.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Rosas sem espinhos

Encontrei esta "rosa verde" num dos canteiros que ladeiam a porta da entrada do prédio onde moro. Gostei e, fotografei.

No céu da minha rua

Ontem ao fim da tarde, as nuvens em passeio...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Um animal com personalidade



Bonito não acham? Muito senhor de si, sem dar confiança...
Austero, também.
O seu nome é mosquito. É já veterano, tem dez anos, e o seu peso?
Pasme-se ; - 7 kilos e 300 gramas.

(Pertence ao Sr. Aníbal de Matos, também bloguista.)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O meu neto Gabriel no jornal

A semana passada quando abri o jornal tive uma surpresa. Vinha lá a fotografia do meu neto Gabriel a jogar xadrez no torneio de xadrez da escola. É o segundo a contar do topo da mesa, vestido de escuro. Ele disse que tinham estado mais de duas horas a jogar. Foi o que aguentou mais tempo, disse ele. Ganhou uma medalha e ficou todo contente. Ninguém sabia que ele era assim tão bom. O mestre deu-lhe os parabéns e disse que ele jogava muito bem. E nós que pensávamos que ele só gostava de jogos de computador! Parabéns Gabriel! Quando é o próximo torneio?

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O vil metal

"Um nevoeiro descomunal atingiu o nosso País. Suponho que aconteceu a partir de Domingo passado, próximo. Essa massa que cobre o sol, não deixa ver nada, excepto a letras enormes a palavra SÓCRATES..."
Todas as preocupações que andavam de boca em boca, perderam sentido de oportunidade e foram adiadas sine-dia, com certa razão. Agora é Sócrates o tema, e toda a gente dá palpite.
Já ouvi de tudo; desde pessoas emocionadas de verdade, a reprimirem lágrimas por o sentirem uma vitima, a outras que situando-se na idade média lhes agradava que fosse morto e esquartejado... Outros ainda confessam-se contentes!
Contentes, que mentalidade...
Como pode algum português sentir-se contente, ao saber desta vergonha? - Lembrar-se que teve por chefe do Governo, um homem que em vez de ser íntegro, actualmente está preso e acusado de fraude, corrupção, e outras coisas do género. Jurou pela honra no acto de posse, tudo fazer por Portugal...

Não é caso para regozijo, isto só demonstra a miséria de valores humanos a que chegámos.

Parafraseando o grande Poeta, mas em sentido inverso, eu escrevo:-

Desgraçada Pátria, que tais filhos tens...




A foto foi só para amenizar, talvez proporcione um pálido sorriso...

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O Sr. Prior

Naquela semana a aldeia andava toda atarefada. Em boa verdade não era a aldeia mas sim os residentes, é que estava a chegar o dia da festa de Nossa Senhora. As raparigas que habitualmente cuidavam da Igreja, nesta altura redobravam de capricho para que no dia da festa tudo estivesse perfeito. O soalho lavado, as toalhas dos altares branqueadas e engomadas, e flores em todas as jarras.  Outro grupo ia procurar verduras, algumas aromáticas para  espalhar na rua por onde iria passar a procissão. E os mordómos encarregavam-se da aquisição dos foguetes, e do resto dos pormenores.

A festa começava com o têrço e sermão à noite na véspera, e no Domingo havia missa cantada e procissão. Era também a festa das crianças que nesse dia faziam a primeira comunhão; comunhão solene assim se dizia. Iriam vestidas de branquinho, vestidos vaporosos compridos, véus de tule e florinhas a pender-lhes da cabeça. Os meninos de fato escuro e laço de seda branca suspenso da manga do casaco; tudo fatinhos modestos, mas uma ternura!

De casa do Sr. Prior ia o pequeno almoço para as crianças, que para comungar estavam em jejum desde a meia noite até ao fim da missa. Comiam na sacristia em alegre convívio, onde eram colocadas mesas com loiças suficientes, não só para as crianças mas também para as familias que as acompanhavam; o meio era pobre, e o sr. Prior sabia disso.

Ele "apertava" com a governante: - Ó Júlia já amassaram as broínhas ? Não se esqueceram de lhe pôr as nozes, pois não? E os pinhões, e... Mas não chamou a mulher do Toníto para a ajudar, porquê? Ainda se vai atrasar...
A  Júlia veterana no assunto, estava tranquila; - descanse sr. Prior que tudo vai estar pronto a horas. -Claro que a chamei, já cá esteve a trabalhar e agora só foi a casa, e daqui a pouco voltará para pôr o lume ao forno.
- Espero que sim!  Já sabe que eu quero broínhas e café com fartura! Não quero ninguém a olhar!

-Está tudo tratado, não se apoquente e não me apoquente a mim. Ainda agora daqui vai o Ti Augusto das ovelhas, com o apontamento dos litros de leite que são precisos para amanhã de manhãsinha.
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Os pais do padre Matias possuíam muitas terras. Nesse tempo, quem tinha muitas terras era rico.
Tinham dois filhos, um foi para a Universidade, estudou Direito, e foi Advogado, e depois Juíz.
O irmão foi para o Seminário, é o Padre Matias.
Depois de rezar a primeira missa, veio para a sua aldeia viver o sacerdócio, e em simultâneo administrar os bens que havia herdado dos pais, entretanto já falecidos.

Também ele ficou rico; tinha casa, vinhas, e terras de semeadura; e pessoas a trabalhar para ele ao longo do ano. Era extremamente bem disposto; não raro ia até junto dos trabalhadores e fazia-os rir com as suas adivinhas...
Conhecedor da pobreza existente na sua aldeia, era muito generoso, quem lá fosse a casa tinha de comer; nunca perguntava se queria... apenas dizia;- ó Júlia não tem aí nada, peixe frito, ou bacalhau, e um copito para este ou esta fulana?! E logo de seguida -sente-se, para comer qualquer coisa!
Ela tinha sempre, e se mais não fôsse, broa, azeitonas e sopa nunca faltavam.
Não cobrava dinheiro algum, aos seus paroquianos. Todos os serviços religiosos necessários ele fazia de boa vontade, e não queria dinheiro. Mas aos lavradores ele fazia uma exigência; queria uma galinha como folár na Páscoa. E argumentava;- num ano vocês têm tempo de sobra para criar uma galinha para mim... Ele tinha criação no galinheiro, não tinha necessidade, mas queria aquele presente...
O Sr. Prior merecia, ele era um amigo, e o seu desejo era cumprido.
Assim, ninguém sequer se atreveu a censurá-lo quando constou que a Dª Júlia não era só governante, era algo mais...  Ela tinha vindo da cidade que ficava a uns 50 km (naquela altura era longe) era educada, e comunicativa, e não tardou a ser "adorada" por toda a gente da aldeia. Com o passar do tempo já lhe chamavam a Dª Júlia do Padre; mas de modo natural, nada de depreciativo. E assim o tempo ia passando no maior sossego.
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O sr. Prior achou que ela devia arranjar uma empregada doméstica. Fez mesmo questão; uma criada de servir, (era assim que se dizia) iria proporcionar-lhe mais descanso, e também seria uma companhia, até porque o sr. Prior não parava em casa. Ela achou bem e procurou.

A Florência começou a trabalhar lá, no principio do mês seguinte. Não sabia fazer quase nada, mas a Júlia, boa pessoa, ensinava-a com bom modo, e ela aprendia  com facilidade. Era muito dócil e alegre, não tardou que se tornássem a equipa perfeita, apesar de alguma diferença nas idades.

E tudo estava na maior paz, quando a Júlia, alta noite, lhe pareceu ouvir uns rumores estranhos no piso superior da casa, onde ficava só o quarto da Florência.
Apurou mais o ouvido, e nada, só silêncio...
-Que Deus me perdôe, murmurou para si, e daí a pouco adormeceu.
Mas numa das noites seguintes, já não teve dúvidas. Ali havia mesmo pela calada da noite "romaria de pé descalço..." Um misto de revolta e mágoa tirou-lhe o sono.
De manhã chamou a Florência, falou-lhe com brandura, e a pobre môça em pranto, só lhe pedia segredo, e que não a despedisse. Teve pena dela, choraram as duas, num só abraço.
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A Júlia era boa cozinheira, e o sr. Prior um bom garfo. Gostava de caça. Ele próprio era caçador, e quando lhe apetecia, lá ia ele de espingarda ao ombro calcorrear os montes à procura  dum coelho bravo, ou duma perdiz...
Naquele dia regressava ele feliz com dois coelhos, quando ao entrar em casa se deparou com a Júlia bem vestida, sentada na saleta, e duas malas no chão a seu lado.
Prevendo algo desagradável perguntou.
- O que é isto?
A Júlia levantou-se e com a calma que conseguiu reunir, respondeu:
- Estava à sua espera, para lhe dizer que me vou embora. E isto porque lhe tenho respeito, porque se assim não fosse, tinha ido sem lhe dar nenhuma satisfação. Sabe do que estou a falar, não preciso de lhe dar pormenores.
O sr. Prior engoliu em sêco, porque não entendia nada - espere, eu quero...
Ela não esperou.
-Adeus!
Pegou nas malas e saiu. Ia voltar prá sua cidade.

Sentada na carruagem quase vazia, no combóio que saira da estação aos solavancos, a Júlia olhava a paisagem sem a ver, só via a sua vida passada e presente. Sentia-se triste, e dizia para si - é bem verdade -"o amor não se vai buscar à Igreja..." não é um exclusivo dos casados.
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O padre Matias era alto, de boa figura e bom aspecto, mas foi a sentir-se pequeno que ele entrou na sala onde o sr. Bispo o aguardava.
Não tinha dormido nada na noite anterior, depois de ter recebido o recado para se apresentar com brevidade. A viagem de combóio foi lenta, desagradável. Encostado no canto do banco, e de olhos fechados, ele recordava o dia em que a prima Lurdes lhe apresentou a Júlia, para trabalhar na sua casa como governante.  No coração não se manda, e ele gostou logo dela. - Mas para que me havia de dar? dizia para si próprio.... É bem certo, na hora do diabo, não lembra Deus... E não lembra mesmo! Ora eu não podia ter procurado uma velha? E agora o que vou eu responder ao sr. Bispo, sim, porque eu já sei do que ele me vai acusar...

O Bispo recebeu-o com frieza, como ele previra, e de seguida informou-o da acusação que sobre ele caía  referente à governante, que com ele coabitava havia já muito tempo. (palavras do Bispo)
Por incrível que pareça, não se sentiu perturbado, e foi com muita calma que esperou as ordens do seu superior, que foram no sentido de mandar a Júlia embora de imediato.
- Sentiu-se gelar e respondeu com uma pergunta: - mandar a Júlia embora?
Mas, sr. Bispo permita  que eu explique; - neste caso pecaminoso que confesso verídico, estão envolvidos dois sêres. Qual deles terá a maior cota de pecado, a Júlia ou eu? A nossa doutrina só aponta o pecado no mais débil?  Então e o outro, o mais forte, está isento? Aceita-se o seu mau
procedimento  como normal ? Use, abuse e ponha fora, será esta a regra? Então a nossa doutrina manda-me jogar na valeta a mulher que eu próprio desencaminhei?
-O Bispo  olhava para ele com ar estarrecido, e nada dizia.
-Não me revejo na sua doutrina sr. Bispo. Confesso que fiz mal ! Mas não vou duplicar o mal que fiz. Não posso! E não devo, e nem quero. E deitando as mãos ao pescoço arrancou a identificação de Padre, aquela tirinha branca a que chamam cabeção. Pôs-se de pé, agora um tanto exaltado, aproximou-se do Bispo  ao mesmo tempo que lhe estendia "o objecto" e  em voz alta exclamou: - tome a coleira, não a quero mais!
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Alguns mêses depois, dois pares de noivos recebiam as bençãos matrimoniais no mesmo dia, na Igreja da aldeia, toda florida para a cerimónia:- eram eles, a Dª Júlia, e o Sr Matias.

E também a Florência e o Armando.
(o Armando era o maroto  que subia pela parreira, e entrava pela janela do quarto da Florência, altas
horas da noite...)

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

domingo, 16 de novembro de 2014

Poesia antiga



SONETO

Um de meus bisavós foi mercador,
Outro foi de alfaiate oficial,
Outro tendeiro foi sem cabedal
E outro, que juiz foi, foi lavrador.

O meu paterno avô foi professor
De latim, que ensinou ou bem ou mal;
E o materno viveu no seu casal
De que inda agora eu mesmo sou senhor.

Meu pai médico foi, e homem de bem,
Minha mãe «dom» teria, porque enfim
Muitas menos do que ela agora o têm.

Abade eu fui; e se saber de mim
Alguma coisa mais quiser alguém,
Saiba que versos faço e faço assim.

(Paulino António Cabral)

sábado, 15 de novembro de 2014

Veio para ficar

Passaram três mêses e meio, sobre o dia em que o passarinho voou para mim... Hoje decidi fotografá-lo, como fiz quando ele chegou; e comparando as fotos vejo com agrado que já está maior.



Está bonito, não acham? Eu até estou vaidosa  com ele...

sábado, 8 de novembro de 2014

Os pinheiros

Na pequena aldeia toda a gente o conhecia, era o homem que tinha habilidade para tudo. Era chamado para podar as árvores de fruto, para empar as vinhas, varejar as oliveiras aquando da apanha da azeitona, e era ele também que passava noites e dias no alambique, a fazer a aguardente dos homens ricos da terra. Era até apontado como especialista para a qualidade daquela bebida.
Também era habilidoso com as madeiras, e quando nascia um bébé logo o "ti Manel" era encarregado de fazer o berço, e depois uma arquíta para arrumar a roupinha ... Não era obra fina, mas servia. Também quando os pratos de loiça ou as caçarolas de barro se partiam, ele consertava. Punha uns agrafos de arame rematados com cal; davam-lhe o nome de gatos. ( Quem se recorda disso, actualmente? Quase ninguém...)
Sabia ler, mas pouco tempo andou na escola. Quase menino ainda, começou a trabalhar na lavoura com os pais, e deles seguiu também o exemplo da honestidade, e do respeito a ter por toda a gente.
Assim cresceu e chegou à idade adulta, e era muito estimado.

O ti Manel mais a sua Maria até tinham uma vida jeitosa, muito trabalho e duro, mas viviam com o suficiente. Tinham umas térrinhas que amanhavam, oliveiras, uma pequena vinha, e um bom bocado de pinhal donde traziam os ramos secos para o lume, e o moliço para o curral das vacas. Poupavam os pinheiros para crescerem, porque teriam mais valor quando quisessem vender alguns.

Uma manhã por volta das dez, estava a Maria a amassar a brôa, quando pelo postigo da porta da cozinha o vê a caminhar para casa  a passos largos, parecia zangado... preocupada, correu para a porta.
- Então homem, que aconteceu? ainda à pouco daqui saíste... Mas tu não trazes nada, então que fôste tu fazer ao monte?
Eu; eu; eu nem sei que te diga... eu até venho tonto; nunca pensei. Canalha! Se eu o tenho encontrado lá no pinhal eu estrafegáva-o, ai de certeza.
- Mas quem?! Oh homem, fála que se me parte o coração só de te ver assim... Valha-me Nossa Senhora, fála...
-Aquele safado, roubou-nos dois pinheiros dos maiores, vê lá tu, vê lá tu...
-Quem ?
- Quem, pois, quem ? Tens razão. O tráste do Zacarias, grande ladrão... Ah, mas ele paga-mas, tu vais ver...
A Maria já apertava as mãos na cabeça...
Mas, admirada repetia; - o Zacarias? Não pode ser! Então esse é o homem mais rico da terra, ele tem três ou quatro pinhais, tem pinheiros com fartura, havia de ir cortar os nossos?!
Tu tens a certeza que foi ele?

-Pois é o mais rico, e também o mais sem vergonha. Foi ele; o  nosso Padrinho Felício viu tudo e contou-me, mas pediu muito segredo, porque com aquele animal todo o cuidado é pouco.

Fiquei sem pinga de sangue, parece que até cambaleava... mas depois sentei-me numa pedra na beira da estrada já aqui perto, e procurei acalmar-me, e depois  fui a casa dele.
- O quê homem, o que me estás tu a dizer, foste a casa dele, fazer o quê?
- Olha fazer nada! Mas ao menos procurei.
-Sabendo eu o bruto que ele é, fui com boas fálas e disse-lhe que os trabalhadores dele tinham feito a asneira de cortar dois pinheiros meus, secalhar sem ele saber, porque o meu pinhal era mais perto. E que ele não tinha culpa, mas tinha o dever  de mos pagar, enfim, eu lá fiz das tripas coração para me atrever a falar assim...

-Então, e ele?
-Ele? destratou-me, ofereceu-me porrada, e gritou-me  que saísse dali depressa, se não queria que ele me  assanásse os cães...  Aquele ladrãozão! Fiquei tão triste e até envergonhado... Eu é que ainda fiquei envergonhado vê lá tu. Mas com uma danação tão forte que ainda não me passou! Eu nem sei explicar o que senti e ainda sinto!  Ah, mas isto não fica assim! Não fica não! Ele ainda se há-de arrepender, isso te juro eu...

-Ai homem, não digas isso! Acalma-te, por Deus te peço que te acalmes. Ai que estou com o coração mais negro do que a noite, e apertado que nem ervilha sêca...

-Tem paciência mulher; mas olha, ir dar parte na Guarda, de nada vale, eles vendem-se pelos garrafões de vinho e de azeite que ele lhes dá, portanto nada a fazer, mas ele não vai ficar a rir-se de mim, isso te garanto, ou eu não me chame Manuel Silva.

Os dias iam passando e o Manuel não voltou a falar no caso. Havia porém uma alteração no seu modo de vida;  passou a ir todas as noites à taberna. A Maria reparava, mas não ousava falar, com receio da razão de tal comportamento.
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Entretanto a oportunidade esperada chegou:
O Manuel estava na taberna quando viu o Zacarias entrar. Fez que não o viu, e continuou a fumar o cigarrito habitual após o café. Daí a pouco pagou a sua despesa disse adeus, e calmamente saiu.
Caminhou pela ruela de chão de terra batida até chegar á enorme  figueira, velha árvore situada na borda do caminho, mas cuja copa enorme se dividia entre a terra de semeadura e a estreita ruela.
Subiu pelo tronco escorregadio e acomodou-se entre os ramos, e depois esperou. "Quem espera sempre alçança, diz o provérbio..." quando o Zacarias ia de regresso a casa, ao passar por baixo da figueira, ele saltou-lhe pra cima. Embora de muito menor estatura, com este ataque imprevisto atirou-o ao chão, e não lhe perguntou quantas queria, deu-lhe forte e feio, até o deixar ferido e inanimado. Depois, conhecedor do local, deixou a ruela, entrou na terra de semedura, e daí a pouco estava em casa.

O Zacarias homem de teres e haveres, detestado por muitos, e amado por alguns, tinha os seus conhecimentos, e mesmo sem testemunhas, o Manuel teve de responder perante um Juíz.

No dia da audiência ao ouvir da parte do Juíz a pergunta - o sr. confessa que bateu no Sr. Zacarias?
O Manuel imperturbável respondeu:- Meritíssimo Juíz, não bati! Mas confesso que gostaria muito de ter batido!
-Ainda por cima é petulante, comentou o Juíz a meia voz.

Bem, o Manuel apanhou dez dias de cadeia, secalhar pela petulância...

E lá foi cumprir, contrariado, e toda a aldeia lamentava o facto: "o ti Manel um homem tão respeitador, e foi posto na cadeia... Foi roubado, e ainda por cima está preso..."

A Maria, todos os dias palmilhava a pé os sete kilómetros, para lhe ir levar o almoço. Por volta do meio dia, de cêsta à cabeça, ela entrava na cadeia, sempre triste; não conseguia evitar, por ver o seu Manuel preso como se fosse um malfeitor.

Tinham passado cinco dias, já era noite fechada, e a Maria já tinha comido; sentou-se, ia tecer na camisola até que o sono aparecesse. Nisto ouviu bater suavemente na janela, e também a vóz do seu Manuel, quase um susurro: - abre Maria sou eu! Ela estremeceu... seria verdade? Esperou, ouviu de novo; já não tinha dúvidas, correu a abrir e aflita murmurou - Ah, Manuel, tu fugiste, Tu fugiste da cadeia! Ai homem, tu desgraçáste-te a ti e a mim... Vá-lha-me Deus, e sem palavras desatou em pranto.
-Está calada mulher, ninguém me seguiu, quando derem pela minha falta não sabem onde eu estou, e não veem aqui, não estejas assim nessa aflição.
Ela calou-se, mas sempre aflita não conseguia ter sossego. Já via os guardas à porta, e o seu Manuel no meio deles a caminho da cadeia outra vez, e o povo a ver... aquelas horas foram um tormento.

Amanheceu, e a Maria sempre previdente disse: - ó Manuel, tu daqui a bocado voltas prá cadeia, não é? Eles não te vão castigar, o guarda é tão boa pessoa, fálas com ele, vais ver que ele não te denuncía...
- Não vou nada prá cadeia, bem me custou lá estar estes dias parado, a olhar pró sete-estrelo. Eu não roubei nada a ninguém e nem matei, portanto não volto pra lá.  Ora vamos mas é combinar:- tu logo à hora do costume, vais na mesma lá à cadeia levar-me a comida, porque pra todos os efeitos tu não sabes de nada. Ouves o que eles te vão dizer; eu fico aqui em casa à espera de ti, e das novidades que me vais trazer, e depois logo se vê o que eu hei-de fazer...

A Maria chorou que nem Madalena enquanto preparou o almoço e o arrumou na cêsta, e depois partiu rumo à cadeia, como tinha feito nos dias anteriores, mas hoje além da  tristeza, ia cheia de preocupação e receios.

Quando a Maria chegou à cadeia, com a cêsta da comida, foi informada de que o marido não estava porque tinha fugido. Então é que a Maria deu largas ao choro e aos lamentos verdadeiramente sentidos. Já não ouvia ninguém, só gritava, e agora? o que vai ser de mim? o que vai ser dele?
O guarda da cadeia deixou-a desabafar a sua mágoa, e depois amparando-a  carinhosamente, sorriu e disse com ar amigo: - não chore mais, não se aflija, vá para casa, e quando ele aparecer, porque ele vai aparecer, diga-lhe que a partir de amanhã ele já está livre. É a ordem que aqui tenho.

domingo, 2 de novembro de 2014

Serão mesmo caprichosas?

São as Boas-Noites. 
Não apreciam o sol, e por isso as suas flores permaneciam fechadas. Só quando a noite chegásse, elas iriam abrir, e mostrar a sua singela beleza.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Na feira - mentira e violência...

Na Vila,cheia de história e belezas naturais, a vida era demasiado pacata, mas à quarta feira de quinze em quinze dias, acontecia a feira. Era centenária, tinha lugar cativo, e como mercado era deveras importante. Ali se vendia de tudo; - desde o simples mólho de erva (escalrrácho) para o gado cavalar, até aos finos objectos do mais puro ouro. Tudo o que era necessário se comprava na feira. Neste dia a Vila transbordava de gente, das freguesias e terras ao redor, e mesmo de algumas situadas a alguns kilómetros de distância.
Os feirantes vinham de lugares distantes, de furgoneta velha mas grande, outros menos abastados tinham carroça e cavalo, outros de carro de bois, ou burro, dependia dos géneros que vinham vender. Tinham lugar marcado no chão de terra batida, e bancada de madeira, e em local perto mas afastado, estacionavam os animais, e mais ao lado as viaturas.
A feira estendia-se por todo o grande  Largo da Feira, frente à estrada, e seguindo por ela e andando uns bons metros chegava-se à feira da sardinha. Sardinha e carapaus maiores e menores, fresquinhos ou salgados, era o peixe que nunca faltava.
Neste bocado de estrada que separava relativamente as feiras, na espécie de valeta que ladeava a via, e observando algum espaço entre si, estavam os mendigos. Também eles vinham de longe, não eram da Vila. Era um espectáculo triste, deprimente, desolador... Sentados no chão, todos tinham mazelas;  braço empanado, perna coberta de ligaduras, grandes chagas, sujos, ali exibiam as suas desgraças e pediam ajuda com lamentos em alta voz. As pessoas (eram muitas neste dia) condoíam-se e davam...
E nada mudava, e na feira seguinte, era igual...
Neste grupo, estava um pedinte diferente: tinha um pedaço de manta no chão, e nele uma criança que aparentava uns oito anos, e tinha umas proteções de borracha nos joelhos e nos cotovelos. A criança rastejava no pequeno espaço. E ele de pé chamava a atenção e pedia nestes termos: - olhem para esta desimfeliz!  Não se levanta, é como um gato. Tenham pena da minha Xiquinha!  A miúda gritava a dizer - eu não sou isso! Sou Zulmira! - Não és nada!  Vêem? ela também é maluquinha da cabecinha dela, tenham pena!
Sobretudo as mulheres comoviam-se com a triste sorte da menina, e deitavam na "bandeja" uma moeda, ou alguns géneros que retiravam do que haviam comprado. E assim passou muito tempo, a menina até estava maior, e mais pena dava a quem a olhava, e ouviam-se comentários;- coitadinha está a tornar-se uma mulhersinha, e nesta desgraça.

Um dia a menina não veio, mas o pai estava no mesmo local, agora sentado no bocado de manta, e de camisa prêta. Na mesma estendia a mão à caridade, e às perguntas sucessivas que lhe faziam, respondia pesaroso que a sua Xiquinha tinha morrido num desastre, onde ele também ficara ferido, e ainda trazia a perna com talas.
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Era verão. Estava um sol bonito, mas sobretudo muito calor. Na fonte à beira da estrada no lado norte da Vila, a Nazaré e a Anita aguardavam que a água lhe enchesse  os cântaros, para regressarem a casa. Conversavam sobre a séca que neste ano estava a dar prejuísos enormes, e nem repararam que um pequeno automóvel havia parado do outro lado da rua. Só quando ouviram falar é que o viram, e se aperceberam de que no seu interior estava um casal. A senhora era nova (viram depois) e saiu rápida do carro dirigindo-se logo para a fonte. Sorridente, saudou as duas mulheres com um sonoro Boa Tarde! Depois acrecentou:
-Está  tanto calor, que eu estava desejando chegar aqui para beber água...
- Beba beba, que é fresquinha e não custa dinheiro... Mas diga-me uma coisa, disse a Anita  - então já sabia que havia aqui uma fonte? Mas a senhora não é daqui...  Querem ver que adivinha?
-Ela sorriu agradada com aquela quase familiaridade, e respondeu.
- Ah, quem me dera ter esse predicado, de adivinhar...Também eu, retorquiu a Anita; sobretudo se adivinhásse o numero da sorte grande; olhe, não andava mais a acartar a água, pagava a quem ma viesse buscar. A Nazaré que até aí tinha estado calada, resolveu também meter palavra; - não querias mais nada, ora esta? Só querias ficar rica, para te dares à molenguísse... ora, morrias logo, tu sabes lá estar quieta.
Riram-se em coro. O marido que entretanto saiu do carro juntou-se ao grupo, e também entrou na risada; depois olhou o relógio e disse, temos de ir andando.
Vinham do Pôrto e iam para Fátima, queriam chegar cedo, e já se despediam quando a Anita se lembrou ;- então, mas afinal não satisfez a minha curiosidade; - não disse ainda como sabia que havia aqui esta fonte....
Não é de cá, e agora já sei que vive no Norte...

Súbitamente o riso desapareceu completamente do rosto da senhora bonita, que ficou calada um momento como que a ganhar  coragem, mas depois respondeu:
- eu quase fui criada por aqui, as senhoras secalhar até me conheceram... E os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, e o peito estremeceu-lhe em soluços que não conseguia evitar.
A Nazaré ficou sem palavras, e a  Anita muito aflita por ter sido a causadora, com a sua insistência, daquela reação, da qual não entendia o porquê. Quis manifestar-se, dizer algo que trouxesse de volta a boa disposição anterior, mas só lhe ocorreu perguntar:
- Então, e está a chorar só por isso? Por ter sido criada por aqui? Não é razão...
-Por um momento ela reprimiu as lágrimas teimosas e respondeu:
-Eu sou aquela menina, que rastejava na feira. Sou a Zulmira.
-Nunca fui deficiente, nem tolinha...

domingo, 26 de outubro de 2014

Pela Cidade de Tomar

 A tarde estava no fim, já não havia sol, e o Parque ficou deserto.
 Acho o Corêto engraçado; - páro sempre a apreciá-lo quando aqui venho. Parece-me um bolo de noiva; - só lhe falta ser branquinho...
A paisagem habitual do Outono, as folhas caídas fazendo tapete sobre a relva. A Natureza marcando seu ciclo, sem precisar de relógio.

sábado, 25 de outubro de 2014

Na Cidade dos Templários...

 As águas calmas do rio Nabão, numa tarde quentinha de Outono.
 A ponte a convidar-nos a atravessá-la e a entrarmos para um passeio no Parque.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Isto é Portugal

Subimos até ao alto e entrámos no Castelo Mourisco. Fotografei ao acaso, e na segunda foto sobressai um edificio de grandes dimensões, é o Hotel dos Templários. Qual é o nome desta cidade?
Eu sei que sabem, querem dizer-me?

sábado, 18 de outubro de 2014

Já fez cem anos

O sino da Igreja começou a repicar alegremente, e as pessoas que no adro esperavam para ver sair os noivos repetiam: - já está casada! Já está casada!  Umas quatro raparigas aproximaram-se da porta da Igreja, cada uma com um prato de pétalas de flores na mão, para as atirar ao casal assim que ali chegásse. A aldeia era pequena, todos se conheciam, e todos participavam das alegrias uns dos outros.
A comida para a boda estava decerto a esfriar, porque os abraços não acabavam mais, e retinham os noivos ainda no Adro da Igreja.

Uma familia em perspectiva, dizia um dos acompanhantes, ambos sabem bem tratar da lavoura, irão ter casa farta com o produto do seu trabalho. E assim aconteceu, fizeram as sementeiras, as  sachas e as mondas, e viram as searas crescer, porém o Zé já não fez as colheitas.
Num dia que foi demasiado triste para a Rita, o Zé recebeu ordem para se apresentar no Quartel, que ele já conhecia, porque iria ser mobilizado para seguir para França; a guerra  havia começado, e Portugal como aliado de Inglaterra ia participar.

A Rita gritou, e depois desfez-se em lágrimas. O Zé  fazia-se forte e repetia;- tem coragem mulher, nem todos que vão prá guerra lá ficam.- Eu hei-de voltar! - Eu volto, vais ver...  - Sei lá se voltas, dizia em lágrimas a Rita. - Estou cheia de maus presságios, tenho o coração negro como a noite...

Passados dois dias, o Zé lá partiu, e com ele também outros homens dos lugares próximos. Na aldeia só se ouviam lamentos, não se falava noutra coisa.

Entretanto o tempo foi passando, a Rita tomou coragem, e deitou mãos ao trabalho; a lavoura ocupava-lhe o tempo de sol a sol.
Começou a ter esperança, e pensava - talvez Deus o proteja... E à noite na cama sózinha, rezava e pedia a almejada proteção. Era crente, e a fé uma enorme força, agora já não queria pensar no pior, o seu Zé iria voltar, dizia em pensamento.

Mas não... numa manhã de céu enevoado, inesperadamente alguém bateu à porta:
- quem é? inquiriu a Rita antes de abrir...
A voz de fora respondeu - carteiro! Sobressaltada correu a abrir a porta, ansiosa...
- trago uma carta, é do exército; disse o Sr. João, o carteiro, com ar apreensivo.
- eu não sei ler, abra se faz favor, e diga-me o que é que aí vem... disse a Rita já de lágrimas nos olhos.

Choraram os dois, o Zé não voltaria mais, ficara naquela batalha maldita.

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A Rita vestiu o luto das viúvas, chorou a sua mágoa, viveu a desilusão e a tristeza, maldizendo aquela guerra estúpida e má, que tanto mal lhe tinha causado. As amigas davam coragem, com opiniões repetidas, que ela só tinha era de procurar conformar-se, porque já nada havia a fazer...

O tempo ia passando, a Rita continuava a trabalhar, e quantas vezes com as lágrimas a cairem na terra que cavava.

E um dia um primo do Zé, o Jorge, fez por se encontrar com ela no caminho para a mercearia. Falaram pouco tempo, ela tinha sempre pressa. A situação repetiu-se algumas vezes, sempre de modo igual. Mas um dia depois de muito pensar, ela decidiu dar crédito ao que ele lhe andava a propôr, e aceitou recebe-lo em casa para acertarem pormenores.

O Jorge todo palavroso, fazia-lhe referência favorável, dizendo que se sentia com sorte, pois ela até já tinha a casa posta, era um bom principio para ele. Começou o namoro... Combinaram casar daí a tres meses.
A Rita voltou a sonhar!
Mas o sonho acabou em pesadelo, quando um dia por uma questão fútil o Jorge se mostrou agastado e deixou de aparecer.

Ela deixou-se ficar "nas suas tamanquinhas" como sói dizer-se, mas daí a uma semana as lágrimas voltaram aos seus olhos. O Jorge ia casar com uma vizinha que já esperava um filho dele, e até a data para o casamento estava marcada.

No dia do casamento, a Rita, pela janela entreaberta viu o cortejo com os noivos todos sorridentes.
Também ela esperava um filho do Jorge... Em lágrimas ajoelhou-se no chão da cozinha,  e desta vez não pediu ao seu Deus qualquer proteção. Pediu para aquela mulher que hoje era noiva, que se gozásse tanto do marido, como ela, que foi enganada na sua boa fé, e estava só.


Um mês depois, também o Jorge foi mobilizado, e mandado para a guerra. Morreu no campo de batalha em França.
Não chegou a conhecer o filho legitimo, nem a filha da Rita, ambos da mesma idade.

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( Estamos em 2014.  100 anos sobre o inicio da primeira Guerra Mundial )
Escrevi este texto, simples, baseado em factos verídicos)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Presentes da Natureza

Não sei qual será o nome destas flores, mas atrevo-me a chamar-lhes sorrisos.
                     E a estas chamaria esperança e prosperidade...
Quem pela hera passou, e uma folhinha não apanhou, dos seus amores não se lembrou...
                                       Eu lembrei-me....

Na varanda

Hoje amanheceu enevoado, a anunciar que a chuva não tardaria a cair. Estamos assim numa espécie de inverno antecipado; mas sem frio.
Abri a janela, e tinha uma visita na varanda, uma pombinha.Tenho de dizer que me  esperava, pois se até ficou à espera que eu fôsse buscar a máquina para a fotografar...
Só depois sem pressa ou qualquer susto, voou ao encontro das companheiras,

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Adeus Algarve

 
O tempo magnifico, quentinho, o mar em que eu vejo sempre beleza, e a ausência de  tarefas de que ainda não me divorciei e que na Figueira me aguardavam, fez-me sentir pena de me ausentar sem termo, deste Paraíso. Um tanto penalizada, fotografei, e disse adeus...  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A Natureza em paz

       As pedras que parecem restos de animais mumificados...
                                    O anoitecer à beira mar.

Sem mêdo da água...

 O Cão dos vizinhos, do chapéu ao lado do nosso, só queria brincar e ser simpático.

Ainda o mar

Pela manhã cedinho, com sol pouco intenso e pouca gente também.
Caprichos da água no chão rochoso.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Milagres da Natureza

Duas flores bonitas que eu trouxe de Armação de Pêra para a minha amiga Nouredini, com um beijinho e um lamento, por não conseguir colocar comentário no seu Café e Bolinho.
Mesmo sem culpas, eu me sinto em falta com esta anomalía prolongada.


Abraços apertados para você amiguinha Nouredini.
Daqui, deste Portugal, da Dilita.

domingo, 5 de outubro de 2014

Mesmo na praia...

Olá amigas e amigos!

Neste momento em minha casa,a T.V. está a apresentar um jogo de Futebol entre o Benfica e o Arouca. O meu marido que entre nós se tem confessado "curado" ( o que não é verdade) está ali caladinho a roer a unha, porque o Benfica ainda não marcou.
Assim, benfiquista sofre.....

Um dia depois de chegarmos ao Algarve ele somou mais um aniversário. Já sabemos que a boa disposição tem de vir de nós, principalmente quando não há mais ninguém por perto que ajude à festa.
Então eu sósinha, cantei-lhe os parabéns, com os versos todos,como cantam os Brasileiros. E ofereci uma prenda que tinha comprado cá, e levei escondida.
Ele gostou muito, usou logo nesse dia, e em muitos mais. Vou colocar a foto, ela diz tudo...

 Só lhe falta a coroa de louros para parecer um romano, mas fora de tempo, pois  os dedos em V de vitória, referem-se ao Benfica.
Coloquei também esta, afinal "o velhote" ainda tem boa perna...

Outras escadas...


Seriam estas a meu gosto?
 São um pouco mais agradáveis, por serem de madeira e divididas em  patamares...
Mas são quarenta degraus... Mesmo assim tiveram a minha preferência, e como recordação a foto.