segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Nunca se está acabado, enquanto a vida durar...

O Jorge e a Rosa estavam ambos perto dos setenta, mas ninguém diria, porque eram pessoas bem dispostas, e de aspecto cuidado, ela em especial, que não descurava a ida periódica ao cabeleireiro, e nunca saia de casa sem antes proceder à respectiva maquilhagem.
Primos direitos, vizinhos e amigos desde a infância, nunca o Cupido os fez olharem-se doutra forma que não fosse a de irmãos muito queridos.
Muito nova ela trocou o conforto modesto de filha única, por um casamento aparentemente vantajoso, na opinião dos pais, e da maioria dos habitantes do lugarejo. E foi pelo braço do pai, que em ambiente de festa naquele Domingo, ela entrou na Igreja, tímida mas feliz, para contrair matrimónio com aquele com quem viveria para além das bodas de ouro.
Casamento vantajoso, no campo material, sim, mas...
Os sogros residiam na Vila, e tinham um empreendimento ligado à restauração - talho, café, restaurante, taberna, e residencial.
Ela foi viver com eles. Era ali a casa dela - em boa verdade era apenas um quarto, preparado e mobilado de novo para o casal de noivos.
Sem privacidade, sem férias, sem Domingos ou dias de descanso, apenas trabalho rotineiro e sorriso no rosto, fingindo uma felicidade que não tinha, calando os dissabores, e as traições do marido, porque era vergonha ter a coragem de se libertar, ou mesmo de se queixar...
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Alguns anos depois o Jorge também casou, e foi viver numa aldeia a alguns kilómetros do seu lugar de infância. Foi feliz - os sogros estimavam-no, assim como as gentes do lugar. Ele era calmo, e sociável, não tardou a ver-se envolvido na maior parte das actividades da terra. Era para o rancho folclórico, para o Teatro, e também fazia parte do grupo de vozes que actuavam  nas cerimónias religiosas. Tocava órgão na Igreja, e com o passar dos anos tornou-se Acólito - por vezes substituía o Padre na recitação do terço,  ia a casa dos doentes levar-lhes a comunhão, e não raro, uma palavra de conforto e de esperança. Tudo isto para além da sua actividade profissional.
E assim viveu uma vida cheia durante vários anos, até ao dia em que a esposa adoeceu - não com uma qualquer febre que se trata e cura, mas com uma doença mental incurável que se agravava dia após dia, não tardando a torná-la numa inválida. Durante muito tempo ele passou a viver em função do necessário que o estado dela exigia - dedicava-lhe todo o tempo possível durante o dia, e na totalidade de noite - melhoras não eram visíveis, e esperanças adivinhavam-se nulas. O médico que desde o inicio a acompanhava, aconselhou vivamente o respectivo internamento.
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E foi de lágrimas nos olhos, no primeiro dia da semana, que o Jorge a deixou naquela Unidade de Saúde entregue aos cuidados duma equipa especializada, e num ambiente em tudo idêntico a um hotel de luxo.
Fóra do átrio, ele ainda olhou demoradamente o edifício que deixava atrás de si, enquanto um pouco distraído entrou no carro, e rodou a chave da ignição -  acelerou, mas logo diminuiu a velocidade, ao mesmo tempo que murmurava: - deixei de ter pressa... Nem sou preciso em casa, e já nem tenho ninguém à minha espera... E pensando em tudo e nada em simultâneo, ia vencendo lentamente os kilómetros  que o separavam da sua aldeia, sem mesmo reparar que o dia estava a chegar ao fim.

Entrou em casa, era já noite. Alguns vizinhos apercebendo-se da sua chegada vieram bater à porta para saber noticias, e dar uma palavra amiga. Depois, antevendo que o descanso era uma prioridade, não tardaram a dar boa noite e a retirarem-se.
Ele fechou a porta, e encaminhou-se para a cozinha.
- Colocou a chaleira ao lume, não tinha fome, apenas um chá quente, isso sim, iria confortar-lhe o estômago. Sentou-se e esperou que a água fervesse.
Um silêncio profundo envolvia a casa. Que tristeza, pensou...  E no seu intimo quase desejou que a sua doentinha (como carinhosamente por vezes lhe chamava) ali continuásse, mesmo sem o deixar dormir...
Aquela foi a sua primeira noite de solidão, porque centos delas lhe estavam prometidos, e se sucederiam durante meses, (anos até) noites intermináveis sempre iguais, numa monotonia arrasadora.
A quebrar aquele silêncio, só o relógio de pêndulo batia as horas, num som melancólico repetitivo, e não raro os ruídos próprios da noite se faziam por vezes notar - um móvel que estalava, o galo que na capoeira nas traseiras da casa, anunciava o alvorecer, o vento em altura de tempestade, ou o bater monótono da chuva na vidraça, e sempre a ausência total duma qualquer voz humana.
E o Jorge detentor duma fé enorme, não ousava revoltar-se, antes dizia "é a Vontade do Senhor" - só tenho de aceitar - Deus assim Quer...
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Como se de uma promessa se tratásse, todos os Domingos e quintas feiras ele viajava para passar longas horas com a sua doentinha. E algumas vezes a trouxe a casa em datas marcantes, mas ela piorava logo, tornava-se agressiva com palavras e atitudes, e tinha de regressar de urgência ao Internamento, onde logo era tratada e se  acalmava.
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Muito tempo depois,

O outono tinha começado, as folhas secas já apareciam pelo chão, prenúncio da vinda do inverno que não tardaria muito. Até a claridade do sol era já um tanto menor. O  Jorge apreciava aquele tempo que muitos entendem como triste - ele dizia que estava mais de acordo com o seu sentir. Mas sem saber como, algo estava a mudar na sua vida. Era surpreendente, ele jamais pensara que tal lhe pudesse vir pela porta, como sói dizer-se. E que o coração lhe pregásse aquela partida.
                                    
Assim, ele sentia como que um peso no peito - não era doença, era um misto de satisfação e culpas, uma dualidade que o arrasava dia a dia.
Telefonou a um dos irmãos, tinha de desabafar...

No dia seguinte, à hora marcada, lá estava o irmão, o Rui. Tinha decidido ir com ele porque já há tempo que não visitava a cunhada, e sentia-se em falta - ele sabia  que por vezes ela perguntava por ele.
Ia gostar de estar com ela; e antes, durante a viagem ouviria então o irmão - "mas que raio é que ele terá de importante para me dizer?" pensava para si próprio, oxalá não seja nada mau...

Foram no carro do Jorge; o Rui acomodou-se e logo que arrancaram, foi directo ao assunto.
-Então pá, querias tanto falar comigo, afinal do que se trata?
E o Jorge emocionado até ás lágrimas, começou por dizer:  sabes, eu quero contar à nossa família toda, não quero que venham a saber pelas pessoas de fora, mas decidi que fôsses o primeiro a ouvir ...e cada vez chorava mais.
O Rui começou a sentir-se aflito, e exclamou
- Ai, ai, bem me quis parecer;  é algo de grave? Estás doente? Oh homem, encosta e pára o carro.
E o Rui apreensivo pensou logo em cancro...
O Jorge parou o carro um pouco adiante, e entre dois soluços respondeu; não, não é doença.
- Há, ainda bem! Mas então diz lá, homem, olha que estás a  preocupar-me...

E o Jorge reuniu toda  a coragem que pôde, e disparou:
Estamos apaixonados, eu e a nossa prima Rosa.
O Rui deu uma enorme gargalhada!
- Há, e então  é essa a razão desse teu rio de lágrimas?
Óh homem, deixa-me rir, porque eu já estava com o coração como a noite, a ver-te num hospital gravemente enfermo, e sem esperança de cura.

O Jorge ainda em lágrimas, continuou: mas, não achas mal? A sério?
É que ela é viúva, mas eu não sou, e isso pesa-me muito na consciência, como homem, e como cristão.
- O Rui sorria, agora de simpatia pelo facto, e depois já a sério disse de sua justiça.
-Olha, eu não acho mal, porque te conheço bem, e sei a vida triste que levas. Sempre sozinho, se adoeces de noite, nem um copo de água tens, que alguém te dê.
É muito bonito o teu comportamento respeitoso perante a tua espôsa, mas ninguém lucra com os teus maus bocados, nem  tu, nem  ela.
E não vejo neste vosso encontro uma ofensa, sois ambos idosos, e carentes de apoio. Vejo sim um amparo mutuo muito importante, em especial para ti que és homem, porque uma mulher faz muita falta numa casa.
Continua como tens procedido sempre, para com a tua doentinha, nunca a abandones nem esqueças, e verás que ninguém te vai censurar.
E fez outras considerações que deixaram o irmão mais leve, e mais animado.
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Mais uns dias, e toda a familia estava ao corrente, não por ninguém alheio, mas pela voz do Jorge, como ele entendia que devia ser.
- Mas, uma tempestade não teria feito mais estragos!
Dir-se -ia que começou a guerra...
Tudo de armas apontadas ao par, que só queria paz - irmãos, cunhados, cunhadas, sobrinhos, todos contra. Sorte já não existir Inquisição, porque seria no cadafalso o  fim destas duas almas.

Os filhos da Rosa, casados e bem na vida, que contra a vontade da mãe a queriam colocar num Lar de Terceira Idade, também lhes moveram guerra aberta.
Só os filhos dele sem alaridos, se mantiveram mais ou menos integros.
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E na quinta feira como de costume, o Jorge foi passar a tarde com a esposa. Porém desta vez, foi logo de manhã.
Como sempre fazia, entrou na Capela privativa para fazer as habituais orações, e depois sentou-se e ficou à espera que o Padre Matos terminásse as suas.

Depois levantou-se, e encontraram-se ambos perto do Altar-Mor.
O Sacerdote admirou-se por ele estar ali tão cêdo, porque não era Domingo, e o Jorge de imediato lhe disse que queria pedir-lhe para ele o ouvir.

-Queres que te ouça em confissão? perguntou a meia voz...
Ao que o Jorge de olhos baixos respondeu; confissão, prevê arrependimento, e eu não reúno para já esse predicado.
Quero contar-lhe os meus pecados, e ouvir a sua recriminação se esse for o caso. Preciso dum amigo que me condene, ou me aceite - tenho-o na minha frente, é o Sr. Padre Matos.
- Compreendo, disse o Sacerdote. Deus está sempre connosco, mesmo na  Sacristia, é para lá que vamos.
O Jorge baixou a cabeça em modo de assentimento, e seguiu o Sacerdote.

O Padre sentou-se, fez o sinal da cruz e aguardou.
Jorge ajoelhou, e disse,
Peço perdão, porque vivo em pecado.
Murmurou uma prece, depois ergueu-se, e tomou lugar na cadeira em frente do Sacerdote.

Talvez pelo ambiente, o Jorge experimentava agora alguma tranquilidade, e com a humildade que sempre o caracterizava, abriu a sua alma perante aquele homem da Igreja, que o escutava em silêncio, sem que um só músculo da sua face denotásse repúdio pelo que estava ouvindo.

Por fim o Jorge calou-se - tinha contado tudo, sem nada omitir.
Estava em pecado, mas agora sentia-se aliviado...

O Padre Matos, sem que ele reparásse, tinha colocado a Estola - assim, aquela conversa fôra uma confissão. Por isso, pediu que ajoelhásse  e deu-lhe a Benção.
Depois falou-lhe:

 - Meu filho,
Quem sou eu para te condenar? Deus não condena, e eu sou um seu pequenino representante...
Compreendo os teus escrúpulos de consciência, porque és cristão praticante, mas já não compreendo a tua familia, tornada Juíz... Os Juízes pronunciam-se nos Tribunais, e por vezes também erram.

Recriminam-te porque és casado, e à tua ligação actual corresponde a palavra adultério... mas todos sabemos que, tu há muito que és viúvo - viúvo de esposa viva, e práticamente morta para o mundo.
Eu sei que nunca a vais abandonar, isso é que é importante, conheço-te o suficiente para fazer esta afirmação. E teres uma companheira a teu lado, não é impeditivo dos teus deveres...
Ela foi e será sempre a mãe dos teus filhos, mas na realidade actual, ela é apenas uma irmã que adoras, e que sempre trazes no pensamento. A sua doença é irreversível; necessita cuidados que aqui lhe são prestados, com saber e carinho. Tudo lhe tens proporcionado, sem nada esperar como troca.
Nada lhe falta, mas nada mais está ao teu alcance - será assim até Deus querer.
Não exijas mais de ti, e nem te mortifiques, porque isso também é pecado.
Fica em paz contigo, e nunca te esqueças que Deus Escreve Direito por Linhas Tortas, e também que os Seus Desígnios são surpreendentes.
Sê igual ao que  tens sido, e Deus não te abandonará.

O Padre pôs-se de pé, e o Jorge curvou-se para lhe beijar a mão.
Ele retribuiu-lhe com um longo abraço.

15 comentários:

Manuela Pacheco disse...

LINDO,LINDO E LINDO!!!

Mona Lisa disse...

Belíssimo e comovente texto.

Beijinhos.

dilita disse...


Manuela Pacheco
Grata pela visita, gosto de a saber por aqui.
Fico contente pela sua opinião.
Beijinhos.

dilita disse...

Lisa

A sua opinião é muito importante para mim.
Um beijinho, e um obrigada.

Nouredini.'. Heide Oliveira disse...

Querida amiga,
a delicadeza com que abordas os assuntos delicados, as intrincadas redes que compõem o labirinto do coração humano é impar e bela.
Sua prosa é leve, ainda que profunda. Bela, mesmo que sofrida.
Parabéns, beijos

dilita disse...

Amiga Nouredini,

Obrigada. Fico vaidosa com a sua opinião.
Beijinhos.

Eloah disse...

Amei o texto.Bela história e comovente.Forte abraço.

Manuel disse...

Apenas uma visita, para ler, matar saudades e deixar um abraço.

ANNA disse...

Me gusta mucho tu blog te invito a que pases por el mio y me comentes si te agrada

gracias
http://anna-historias.blogspot.com.es/

Anna Lírios disse...

Que texto belo, cheio de sentimentos, de vida. Acompanhei em pesamento cada momento, cada sentimento, muito emocionante a história. Nos bota a pensar na vida e em seus caminhos.
Um abraço!!!
Paz e luz!!!

✿Te Marquei em uma tag, visita lá.

Anna Lírios em Letras

Smareis disse...

Você teceu fio a fio lindamente essa história. Uma história que me fez refletir muito... Imagino que devem existir tantos outros casos similares a esse. É muito complicado para o Jorge, com certeza, tomar qualquer decisão diante desses fatos. Com a idade avançada, uma esposa com uma doença irreversível, e ainda apaixonada pela prima Rosa. Imagine a situação!

Parabéns muito emocionante a história!
Um abraço!

Nouredini.'. Heide Oliveira disse...

Olá querida amiga,

Chegamos na primavera e vcs no outono. que possamos fazer um belo ramalhete com nossas flores e suas folhas dourado amareladas.
Saudades!

ANNA disse...

Te dejo mi blog de poesia por si quieres criticar gracias.
‌Me gusta mucho el tuyo.
http://anna-historias.blogspot.com.es/2016/09/muerte.html?m=1

Rosangela disse...

Fiquei presa ao seu texto da primeira a última palavra.
Linda, linda sua narrativa.
O Jorge é um homem especial, o padre então... que alma sensível.
Saudades de ti.
Lindo domingo para todos aí.
Beijo.

dilita disse...

Caras amigas e amigos

Muito grata e contente com a vossa vinda até aqui, e também com as vossas críticas positivas; até acabo por sentir um pouquinho de vaidade... Confesso que "amei" escrever esta estória.

Posteriormente estive longe do computador (senti a falta) e só ontem vim até aqui.
Muito e muito obrigada, e desculpem por não agradecer individualmente, mas estou a apertar-vos num mesmo abraço.

Beijinhos para vós, com a estima da
Dilita
Dilita