Teria eu talvez vinte dois anos, a bonita capicua, a idade em que eu me sentia eterna... E agora olhando com atenção a antiga foto, eu lembro-me um fado antigo e colho um pouco dos seus versos que dizem assim:
" E, ao lembrar o que já fui / Tenho saudades de mim... "
Pois, eu também tenho, mas gosto do que vejo.
Corriam os anos sessenta e estavam na moda as Vespas, havia-as de vários tamanhos, com acabamento prateado, ou tinta de côr clara. Também os nomes variavam, Scooter, GS, Vespa, todos diferentes, todos iguais.
Eu apreciava aquele meio de transporte, era novidade! Namorei um rapaz que tinha uma: grande, novinha, reluzente no tom prateado. Eu dizia para mim, sem ninguém ouvir, gostava de experimentar andar nisto| e ela ali tão perto, mas na verdade era impossível eu tocar-lhe.
Mas quem é que se atreveria a sentar no veículo do namorado? É que nem pensar, quanto mais agir... O lugar dele era na rua e o meu do lado de dentro, à janela - e já era uma concessão mas feita sem sorrisos. Depois o namoro acabou e sem saudades,
na juventude é tudo cor de rosa e a esperança uma certeza.
Num fim de tarde, aparece à nossa porta em Montemor, um casal com uma bebé de colo, vinham visitar-nos. Eles já tinham combinado tudo com o meu pai, eu e a minha mãe é que nada sabíamos: vinham convidar-me a ser madrinha da bonita menina, a sua primeira filha.Que surpresa boa, eu disse logo que sim. Comprei tudo o necessário, e eu própria confeccionei a indumentária que a menina usou na cerimónia. Um longo vestido de organdi branco com rendas incrustadas e mangas de balão, uma mini touca com duas rosas de fita de seda dos lados da cara e um enorme laço a ajustá-la por cima do ombro. Babete bordado a linha seda, enfim, eu quase me senti a mãe - eu adorava crianças, e, realizei-me.
Ganhei uma afilhada e uns compadres que foram uns grandes amigos. Visitávamo-nos amiúde, sentíamo-nos família. E foi numa dessas visitas que eu me atirei para cima duma Vêspa, a do meu compadre -esta era mais pequenina do que a outra que eu vira tão perto e longe de mim. Gostei!
Na risada, a sobrinha dele, muito mais nova do que eu, colocou-se no lugar do pendura, e depois de alguns testes aconteceu a fotografia, um instantâneo que ficou como recordação duma tarde de Domingo bem passada em Gatões, local de residência dos meus amigos.Hoje, ao folhear o antigo álbum encontrei a foto e fiquei a olhá-la sem pressa e a reviver com gosto os belos tempos. Contente e enternecida, sorri...Entretanto fechei o álbum mas já absorta pela melancolia, porque a vida dá com uma mão e retira com outra... A minha afilhada e a prima, com vidas felizes, há muito que partiram, vítimas de pérfida doença, o meu compadre também, num fatal acidente e a minha comadre que visitei há tempos num Lar já não me conheceu. Fiquei triste como a noite quando a ouvi a perguntar-me "então quem é vossemecê ? " A minha comadre Alice com esta expressão... já não era ela. Quase em lágrimas, dei-lhe um beijinho "e fuji" daquela realidade, que tanto me fez doer.
É a vida com seus encantos e mágoas, há que aceitar porque o inevitável não tem alternativa.
Aqui fica a fotografia, afinal ela é a causa que me levou a escrever.

2 comentários:
Amada Dilita, amiga e parente portuguesa com certeza ; com os olhos marejados na deliciosa leitura de teus escritos. Tão delicado, saudoso, belo, e, majestosamente real, com nossas dores na vida, mas também fomos felizes, e jovens hehe. Não tenho mais a senha para abrir e continuar, talvez, meu blog. Conversando com um amigo aqui a falar de Potugal, meu coração me trouxe aqui. Que maravilhoso saber de ti, querida amiga de além mar. Moras em meu coração brasileiro.
Caro amigo. Quantas saudades! Afinal sem nunca nos vermos pessoalmente, nasceu e ainda mora em nós uma enorme amizade, uma enorme estima. Lembro-me muitas vezes "do meu Parente brasileiro"... Breve escrevo mais, agora foi mesmo só uma resposta breve. Oxalá aí chegue. Abraço forte da velhota, a amiga portuguesa Dilita. (Dília Maria)
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