domingo, 15 de janeiro de 2012

Recordar um Poeta Português

Gostos são gostos cada qual tem o seu, e nem sempre o que me agrada terá a aprovação de quem passa por aqui. Por isso apresento já as minhas desculpas aos caros visitantes que não gostem desta poesia.Perdoem a minha birra, mas eu quero aqui lembrar este grande português. Adivinhem o seu nome.......

A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa,porque o não merece.
Nem minha amada,porque é só madrasta.
Nem pátria minha,porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido dela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela.
Saudosamente nela,mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza.
De mesquinhez,de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre,castos
nas horas vagas de doença oculta;

terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros que deixam
moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro dum sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de Coração.
Eu te pertenço: mas seres minha, não.

                               (Jorge de Sena)



2 comentários:

Jesus te ama! disse...

LINDÍSSIMO POEMA!!!
UM DIA ABENÇOADO MINHA QUERIDA.

dilita disse...

Olá querida!
Muito grata pela visita.
Também por ter gostado desta poesia do grande Jorge de Sena.
De certeza escrita num momento de grande revolta e sofrimento interior,pelas injustiças que viveu em Portugal onde nasceu.

Beijinhos,saude e paz.
Dilita.