domingo, 31 de agosto de 2014

A vidraça indiscreta

Depois duma noite bem dormida, ele acordou muito cedo. Das janelas compostas com cortinas de tecido fino, apenas sobressaía uma ténue claridade, era o alvorecer. A seu lado a esposa dormia placidamente o sono dos justos. Reparou nela, não era feia nem bonita, mas fora o seu grande amor. Tinham passado já alguns anos, quantos? Se calhar alguns 10, quando ele, terminado o curso universitário e arrumado num emprego, se apaixonou pela filha do seu próprio patrão. Já a conhecia dos tempos em que ambos estudavam na mesma Universidade, sem contudo alguma vez lhe ter falado mais do que uma fugaz saudação. Mas estava escrito no destino e, numa manhã de primavera, ambos ajoelharam na Igreja junto ao altar, trocaram as promessas habituais, as alianças, e receberam as bênçãos matrimoniais da igreja católica, embora ele fosse ateu.
Entenderam-se, e foram felizes, até aquele fim de tarde em que a mulher, da sua casa, o viu abraçado à Júlia, a vizinha da frente, na casa dela. Ficava perto, e a vidraça estava aberta. Sentiu que o mundo desabava e com ele todos os sonhos e esperanças que acalentava. Após uma troca de palavras duras, e algumas lágrimas, tornaram-se dois estranhos, mas continuaram a viver lado a lado.

Ainda a recordar o passado, ele  levantou-se devagarinho e saiu do quarto. Pouco depois entrava na cozinha, e olhando pela janela viu o que sempre quisera esquecer.Aquela vidraça antiga a uns metros de distância  ainda  ali estava, qual testemunha acusatória. A Júlia partira para o estrangeiro, e só a recordação ficara. - Não, nunca a amei! Tenho a certeza! - disse a meia voz. Contudo fora ela a causadora  da facada no seu matrimónio, e que alterou a sua vida para sempre.E de que forma? Depois de tanto email para que fosse a sua casa, mandou aquela sms em que afirmava com juras, que se suicidava se ele não fosse. Ele, ingénuo, acreditou. E foi.



11 comentários:

Leila Silveira disse...

que coisa mais graciosa este teu blog. amei! beijos

Mona Lisa disse...


Quando existe a desconfiança nada mais existe!

Beijinhos.

Nouredini.'. Heide Oliveira disse...

Ele vai e fica a por a culpa na outra! Depois do corrido, o casal se decidem por viver uma faz de contas. Não entendo estas coisas.
Como somos rápidos em julgar? quem sou eu para julgar! basta um impeto e já derramamos com base no espelho das nossas vivências, as sentenças.
Que vivam como quiserem e só a eles cabe entender!

Manuel disse...

Será que há casos assim?
Deve haver,
Adorei este seu pequeno conto, delicioso.

Clara Fernandes disse...

Um conto que pode ser a realidade de muita gente. O "faz de conta" não faz apenas parte das histórias de crianças, infelizmente,no mundo dos adultos "o faz de conta"é bem real; como disse Nouredini no seu comentário, "sentenciamos com base no espelho de nossas vivências", mas cada um fará do seu "faz de conta" a realidade e só cada um a saberá entender, de facto.
Conto muito interessante ! :)

dilita disse...

Bem vinda Leila!

Grata pela visita e pelos comentários nos dois textos.
Aceite desculpas pela demora em responder.
Abraço.

dilita disse...

Lisa

Gosto de a ter por aqui.

Assim é; a desconfiança tem o mau predicado de vir para ficar.

Aqui já estava para além, havia facto à vista. não era muito fácil mostrar ignorância, de ânimo leve...
Beijinho, e obrigada.

dilita disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
dilita disse...

Olá Nouredini!

Pois, tem razão; quem está de fora até aconselharia a fingir que de nada sabia.
Mas na real, o caso já muda...
Abraço,e um obrigada.

dilita disse...

Caro Manuel

A sua opinião anima-me. Obrigada.

Se há casos assim? Há, e talvez mais do que nós sabemos. As paredes da casa tudo escondem...

dilita disse...

Olá filha, Clarinha!

O faz de conta existe, alguns adultos adotaram-no. É triste, bem diferente do faz de conta da infãncia...

(quanto a este, qualquer semelhança, é pura coincidência)

E ainda bem!