sábado, 8 de novembro de 2014

Os pinheiros

Na pequena aldeia toda a gente o conhecia, era o homem que tinha habilidade para tudo. Era chamado para podar as árvores de fruto, para empar as vinhas, varejar as oliveiras aquando da apanha da azeitona, e era ele também que passava noites e dias no alambique, a fazer a aguardente dos homens ricos da terra. Era até apontado como especialista para a qualidade daquela bebida.
Também era habilidoso com as madeiras, e quando nascia um bébé logo o "ti Manel" era encarregado de fazer o berço, e depois uma arquíta para arrumar a roupinha ... Não era obra fina, mas servia. Também quando os pratos de loiça ou as caçarolas de barro se partiam, ele consertava. Punha uns agrafos de arame rematados com cal; davam-lhe o nome de gatos. ( Quem se recorda disso, actualmente? Quase ninguém...)
Sabia ler, mas pouco tempo andou na escola. Quase menino ainda, começou a trabalhar na lavoura com os pais, e deles seguiu também o exemplo da honestidade, e do respeito a ter por toda a gente.
Assim cresceu e chegou à idade adulta, e era muito estimado.

O ti Manel mais a sua Maria até tinham uma vida jeitosa, muito trabalho e duro, mas viviam com o suficiente. Tinham umas térrinhas que amanhavam, oliveiras, uma pequena vinha, e um bom bocado de pinhal donde traziam os ramos secos para o lume, e o moliço para o curral das vacas. Poupavam os pinheiros para crescerem, porque teriam mais valor quando quisessem vender alguns.

Uma manhã por volta das dez, estava a Maria a amassar a brôa, quando pelo postigo da porta da cozinha o vê a caminhar para casa  a passos largos, parecia zangado... preocupada, correu para a porta.
- Então homem, que aconteceu? ainda à pouco daqui saíste... Mas tu não trazes nada, então que fôste tu fazer ao monte?
Eu; eu; eu nem sei que te diga... eu até venho tonto; nunca pensei. Canalha! Se eu o tenho encontrado lá no pinhal eu estrafegáva-o, ai de certeza.
- Mas quem?! Oh homem, fála que se me parte o coração só de te ver assim... Valha-me Nossa Senhora, fála...
-Aquele safado, roubou-nos dois pinheiros dos maiores, vê lá tu, vê lá tu...
-Quem ?
- Quem, pois, quem ? Tens razão. O tráste do Zacarias, grande ladrão... Ah, mas ele paga-mas, tu vais ver...
A Maria já apertava as mãos na cabeça...
Mas, admirada repetia; - o Zacarias? Não pode ser! Então esse é o homem mais rico da terra, ele tem três ou quatro pinhais, tem pinheiros com fartura, havia de ir cortar os nossos?!
Tu tens a certeza que foi ele?

-Pois é o mais rico, e também o mais sem vergonha. Foi ele; o  nosso Padrinho Felício viu tudo e contou-me, mas pediu muito segredo, porque com aquele animal todo o cuidado é pouco.

Fiquei sem pinga de sangue, parece que até cambaleava... mas depois sentei-me numa pedra na beira da estrada já aqui perto, e procurei acalmar-me, e depois  fui a casa dele.
- O quê homem, o que me estás tu a dizer, foste a casa dele, fazer o quê?
- Olha fazer nada! Mas ao menos procurei.
-Sabendo eu o bruto que ele é, fui com boas fálas e disse-lhe que os trabalhadores dele tinham feito a asneira de cortar dois pinheiros meus, secalhar sem ele saber, porque o meu pinhal era mais perto. E que ele não tinha culpa, mas tinha o dever  de mos pagar, enfim, eu lá fiz das tripas coração para me atrever a falar assim...

-Então, e ele?
-Ele? destratou-me, ofereceu-me porrada, e gritou-me  que saísse dali depressa, se não queria que ele me  assanásse os cães...  Aquele ladrãozão! Fiquei tão triste e até envergonhado... Eu é que ainda fiquei envergonhado vê lá tu. Mas com uma danação tão forte que ainda não me passou! Eu nem sei explicar o que senti e ainda sinto!  Ah, mas isto não fica assim! Não fica não! Ele ainda se há-de arrepender, isso te juro eu...

-Ai homem, não digas isso! Acalma-te, por Deus te peço que te acalmes. Ai que estou com o coração mais negro do que a noite, e apertado que nem ervilha sêca...

-Tem paciência mulher; mas olha, ir dar parte na Guarda, de nada vale, eles vendem-se pelos garrafões de vinho e de azeite que ele lhes dá, portanto nada a fazer, mas ele não vai ficar a rir-se de mim, isso te garanto, ou eu não me chame Manuel Silva.

Os dias iam passando e o Manuel não voltou a falar no caso. Havia porém uma alteração no seu modo de vida;  passou a ir todas as noites à taberna. A Maria reparava, mas não ousava falar, com receio da razão de tal comportamento.
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Entretanto a oportunidade esperada chegou:
O Manuel estava na taberna quando viu o Zacarias entrar. Fez que não o viu, e continuou a fumar o cigarrito habitual após o café. Daí a pouco pagou a sua despesa disse adeus, e calmamente saiu.
Caminhou pela ruela de chão de terra batida até chegar á enorme  figueira, velha árvore situada na borda do caminho, mas cuja copa enorme se dividia entre a terra de semeadura e a estreita ruela.
Subiu pelo tronco escorregadio e acomodou-se entre os ramos, e depois esperou. "Quem espera sempre alçança, diz o provérbio..." quando o Zacarias ia de regresso a casa, ao passar por baixo da figueira, ele saltou-lhe pra cima. Embora de muito menor estatura, com este ataque imprevisto atirou-o ao chão, e não lhe perguntou quantas queria, deu-lhe forte e feio, até o deixar ferido e inanimado. Depois, conhecedor do local, deixou a ruela, entrou na terra de semedura, e daí a pouco estava em casa.

O Zacarias homem de teres e haveres, detestado por muitos, e amado por alguns, tinha os seus conhecimentos, e mesmo sem testemunhas, o Manuel teve de responder perante um Juíz.

No dia da audiência ao ouvir da parte do Juíz a pergunta - o sr. confessa que bateu no Sr. Zacarias?
O Manuel imperturbável respondeu:- Meritíssimo Juíz, não bati! Mas confesso que gostaria muito de ter batido!
-Ainda por cima é petulante, comentou o Juíz a meia voz.

Bem, o Manuel apanhou dez dias de cadeia, secalhar pela petulância...

E lá foi cumprir, contrariado, e toda a aldeia lamentava o facto: "o ti Manel um homem tão respeitador, e foi posto na cadeia... Foi roubado, e ainda por cima está preso..."

A Maria, todos os dias palmilhava a pé os sete kilómetros, para lhe ir levar o almoço. Por volta do meio dia, de cêsta à cabeça, ela entrava na cadeia, sempre triste; não conseguia evitar, por ver o seu Manuel preso como se fosse um malfeitor.

Tinham passado cinco dias, já era noite fechada, e a Maria já tinha comido; sentou-se, ia tecer na camisola até que o sono aparecesse. Nisto ouviu bater suavemente na janela, e também a vóz do seu Manuel, quase um susurro: - abre Maria sou eu! Ela estremeceu... seria verdade? Esperou, ouviu de novo; já não tinha dúvidas, correu a abrir e aflita murmurou - Ah, Manuel, tu fugiste, Tu fugiste da cadeia! Ai homem, tu desgraçáste-te a ti e a mim... Vá-lha-me Deus, e sem palavras desatou em pranto.
-Está calada mulher, ninguém me seguiu, quando derem pela minha falta não sabem onde eu estou, e não veem aqui, não estejas assim nessa aflição.
Ela calou-se, mas sempre aflita não conseguia ter sossego. Já via os guardas à porta, e o seu Manuel no meio deles a caminho da cadeia outra vez, e o povo a ver... aquelas horas foram um tormento.

Amanheceu, e a Maria sempre previdente disse: - ó Manuel, tu daqui a bocado voltas prá cadeia, não é? Eles não te vão castigar, o guarda é tão boa pessoa, fálas com ele, vais ver que ele não te denuncía...
- Não vou nada prá cadeia, bem me custou lá estar estes dias parado, a olhar pró sete-estrelo. Eu não roubei nada a ninguém e nem matei, portanto não volto pra lá.  Ora vamos mas é combinar:- tu logo à hora do costume, vais na mesma lá à cadeia levar-me a comida, porque pra todos os efeitos tu não sabes de nada. Ouves o que eles te vão dizer; eu fico aqui em casa à espera de ti, e das novidades que me vais trazer, e depois logo se vê o que eu hei-de fazer...

A Maria chorou que nem Madalena enquanto preparou o almoço e o arrumou na cêsta, e depois partiu rumo à cadeia, como tinha feito nos dias anteriores, mas hoje além da  tristeza, ia cheia de preocupação e receios.

Quando a Maria chegou à cadeia, com a cêsta da comida, foi informada de que o marido não estava porque tinha fugido. Então é que a Maria deu largas ao choro e aos lamentos verdadeiramente sentidos. Já não ouvia ninguém, só gritava, e agora? o que vai ser de mim? o que vai ser dele?
O guarda da cadeia deixou-a desabafar a sua mágoa, e depois amparando-a  carinhosamente, sorriu e disse com ar amigo: - não chore mais, não se aflija, vá para casa, e quando ele aparecer, porque ele vai aparecer, diga-lhe que a partir de amanhã ele já está livre. É a ordem que aqui tenho.

6 comentários:

zito azevedo disse...

As suas histórias são de uma autenticidade e fundo humanista surpreendentes...Creio que mereceriam outra audiência...Já pensou em reuní-las em livro?

Manuel disse...

Fiquei fascinado pela beleza desta estória.Podia ser verdade, pois h´
a tantos casos como este.
Tem um jeito muito especial, mantem o leitor atento e brinda muito bem com as palavras.
Os meus parabéns!

jair machado rodrigues disse...

Querida Dilita, és uma contadora de causos de uma forma deliciosa e tranquila, livre e popularmente apreciável,narra uma parábola.Descreves um lugarejo bucólico,belo - porque onde há pinheiro há beleza (sou um adorador de árvores rs). Os personagens trazem uma pureza quase verdadeira,digo quase porque é uma ficção nâo é ? Vejo o tempo todo o amor do casal, entre eles e ao que constroem,seus espaço,suas terras,tão dignas. E lá vem a injustiça,os seres maus que encontramos também na vida real,enfim...adorei, gosto de histórias e mais ainda,contadas de forma tão bela,mostrando toda beleza do simples, que esquecemos às vezes,e, de um respeito ímpar com a natureza. Fiquei feliz com a leitura que aqui fiz,e amei o gran finale. Vou ler mais histórias por aqui,obrigado.
ps. Carinho respeito e abraço.

dilita disse...

Olá Zito

Não, não tinha pensado nisso, mas no fim gosto delas. Não as acho insignificantes é verdade. Por isso quem sabe, talvez me atreva, olhe não sei. Entretanto os amigos e colegas blogueiros lêem e as suas opiniões deixam-me contente.
Abraço, e obrigada.

dilita disse...

Manuel
Fico contente por saber que gostou de mais este conto, ou estória.
Sinto prazer em escrever, e depois com as vossas opiniões tão favoráveis, é satisfação em duplicado.
Obrigada pelas boas palavras e também pelos parabéns.

dilita disse...

Olá Jair
Gostei muito do seu comentário. A forma como apreciou o local, o casal que vive feliz na sua simplicidade e bons costumes, e os outros intervenientes ricos, e desonestos; e corruptos. Foi isso exactamente que eu pretendi mostrar, e pelo que escreveu, eu consegui.

Obrigada,abraço.