domingo, 14 de agosto de 2011

Já era noite

Estavamos em Dezembro,altura em que a luminosidade do dia cede mais cedo o lugar ao escuro que antecede a noite. Não chuvia,mas também não se viam estrelas, só a iluminação pública permitia visibilidade a quem circulava a pé naquela avenida frente ao mar. Nós circulávamos de carro, não havia lugar a queixas.Tinha chegado ao fim mais um dia de trabalho e o meu marido e eu dirijiamo-nos para casa.Eu não sei já porque razão utilizámos aquela artéria,havia o caminho habitual que até era mais curto. Iamos devagar e o meu marido reparou num vulto que caminhava lento e com passo inseguro.Parou e perguntou: Quer vir Sr. Paulino? O homem acercou-se e respondeu: Mas por Deus!!!!! Quero, leva-me.Sabe onde moro? Bem,eu depois digo. Entrou no carro e lá foi repetindo o tal, "mas por Deus", que o caracterizava. Era um homem só,fazia uns trabalhitos,e como era educado e andava sempre asseado, toda a gente o estimava,apesar do seu gosto exagerado pela bebida.Quando regressava a casa alta noite cantava,elevava mesmo a voz,vinha sempre feliz. De carro depressa se chegou à azinhaga que dava acesso à casa do Paulino,e o meu marido aproximou o carro da berma e convidou-o a descer. Mas ele não quiz. Repetia, "mas por Deus", e continuava sentado, enquanto o meu marido argumentava que queria ir pra casa descançar,e insistia:"Vá lá, saia Sr.Paulino que já não é cedo".Mas ele queria lá saber!"Então Sr. Paulino, ora esta?! Eu meto-me em cada uma,"- já dizia o meu marido a meia voz -bem, tem de ser assim. Saiu do carro abriu a porta do lado dele, e puxou-lhe as pernas pra fora enquanto o aliciava com boas razões a sair do carro. Finalmente ele concordou,e lá caminhou para casa não sem antes agradecer a boleia, e repetir:"Mas por Deus!" E nós seguimos o nosso rumo algo sorridentes, convencidos de que não ia haver outra paragem. Convencidos,e errados!!! Uns metros adiante havia qualquer coisa na nossa faixa de rodagem,era um carro parado.Estavam também pessoas no passeio. Devagar aproximamo-nos,e quando o nosso carro parou sentimos algo a estilhaçar-se sob os pneus,e ouvimos também dispersos alguns insultos. Saímos do carro. À frente lá estava o carro avariado, mas isso era outra coisa, os insultos eram para nós, e agora mais intensos. Então o meu marido perguntou:"Mas o que é, homem,afinal o que é que eu tenho a ver com isto para ser assim tão mal tratado?" E o outro de imediato e com mau modo respondeu:"Então você partiu-me o triângulo e ainda está a perguntar-me o que é que fêz? Fez uma linda coisa! Não haja dúvida!"
Ainda não refeito da surpresa o meu marido como que falásse para si próprio, calmamente murmurou:"Ah,então foi isso..." O outro retorquiu:"Pois foi,foi! E agora estou sem triângulo a estas horas, e amanhã vou cedo para fora,acha bem,acha? Ora diga lá..." O meu marido respondeu:" Não, não acho,mas espere que se resolve já o assunto." E dito isto o meu marido abriu o porta-bagagem e tirou o triângulo do nosso carro,e acto continuo entregou-lho ao mesmo tempo que dizia em tom alegre:" Ora, se todas as guerras se pudessem resolver com esta facilidade,o mundo estaria melhor!" A assistência quase aplaudiu. Um dos presentes apanhou o triângulo partido e entregou-o ao meu marido,dizendo que mesmo partido ainda lhe podia vir a ser necessário... e até foi.
Aquilo acabou em sorrisos,ainda se trocaram cumprimentos e seguimos. Foi altura do meu marido desabafar em voz alta: "Depois dum dia inteiro a atender pessoas ainda me deu para trazer o Paulino alcoolisado,coitado, eu já me estava a aborrecer... depois livro-me dele e atropelo o triângulo..." Dizem que não há duas sem três, será que antes de chegar a casa ainda me envolvo noutro episódio?

(Felizmente tal não veio a suceder.)

6 comentários:

Regina Fernandes disse...

Ufa, Dilita! Ainda bem que chegaram em casa sãos e salvos! hahahaha... Seu marido é muito paciente!
Tenha uma ótima semana.
Bj

tetisq disse...

Realmente, há dias que só apetece mesmo dizer:"mas, por Deus",!*

dilita disse...

Tetisq

Tem razão!
Obrigada pela visita.
Abraço.

dilita disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
dilita disse...

Olá Regina.

Chegámos mais tarde,mas inteiros...
O meu marido gosta de ajudar,e ás vezes envolve-se demasiado,e fica sózinho. Mas não se importa,vai sempre até onde pode. No blogue dele lá estão os apelos,pedidos de ajuda para alguém que sofre... nem sempre encontram eco,o que é pena.
Grata pela visita,e pelas palavras simpáticas.
Um beijinho.

Eloah disse...

Querida que bom que gostastes da música.Fiquei em dúvida quando coloquei, pois os gostos e as preferências entre as pessoas são diferentes.Mas música é música e enfeita nossa alma.Ah! gosto de ler tuas histórias.Eu não tenho esta aptidão de contadora de história.Admiro quem a tem.Obrigada pelas palavras carinhosas no meu Blog.Sua visita sempre é um prazer. Que tenhas muita luz e flores para colorir e encantar tua alma. Bjs Eloah