sábado, 30 de outubro de 2021

Regresso por de mais tardio

 Não  só as conversas são como as cerejas, com as recordações também é um pouco assim.  

Foi num Domingo de Agosto. O sol começava a despontar, o dia ia estar quente e ir á praia era o sonho acalentado durante toda a semana.  Carro próprio era um  luxo de poucos, excepção apenas para quem o veículo era mesmo necessário por motivo profissional; mas havia a camionete da carreira.  A Empresa de camionagem Moisés Correia de Oliveira sediada na Carapinheira, assegurava a ligação diária de ida e volta entre Tentúgal e Figueira  da Foz. 
Aos Domingos havia desdobramento, era o termo usado para informar do reforço doutro autocarro que vinha logo após, já na certeza de que no primeiro não haveria lugar para toda a gente que estava na beira da estrada, nas paragens à espera. A empresa tinha dois ou três autocarros novos, maiores e barulhentos que bastava, e outros arrumados por velhice, mas aos Domingos, estes vinham também para a estrada com a palavra "Desdobramento" bem visível no vidro da frente.   Mesmo assim, não ficou para a história qualquer noticia de acidente.
E neste dia manhã cedinho as pessoas já formavam grupos na Praça da Republica enquanto esperavam. Ali estava gente de todas as idades, gente animada  todos com igual expectativa, a de viverem um dia diferente.  Cêstos no chão ao redor, bem cheios com o farnel, que o mar faz fome (assim diziam) esperando a camionete que as levaria até à Figueira para a praia, e a alguns homens para a tourada que ia haver nesse dia. 
O meu pai que ia para a pesca, e a minha mãe e eu que íamos para a praia embarcámos na primeira camionete (uma das tais mais novas) assim como as outras pessoas que ali estavam. O autocarro ficou logo lotado e o motorista seguiu o seu rumo sem parar. Ao aproximar-se das paragens diminuia a velocidade e com a mão fazia sinal aos passageiros que vinha aí o desdobramento. Só parámos para sair já na Figueira, encantadas com a rapidez da viagem. Até aqui tudo bem, na praia idem, idem;  enfim, um Domingo em beleza. O pior ainda estava para vir ao fim da tarde. 
Dirijimo-nos para o local da partida, era na Praça Velha  ainda não havia Terminal Rodoviário. Entretanto começavam a chegar os respectivos passageiros. Mas quais respectivos? Aquilo era um mar de gente que não parava de crescer. Estava já na hora de partir e a camionete  ainda não estava ali. Passou uma hora, todos pensávamos que não viria só uma, mas várias. Puro engano!  Veio só uma, e das velhas...!Algumas pessoas precipitaram-se aos empurrões e entraram. O motorista fechou logo as portas e informou pela janela, que voltava depois de ir levar aqueles passageiros, e arrancou. E ali ficou aquela multidão à espera. O tempo corria lento, já era noite fechada, a Praça mal iluminada, não se via ali ninguém da Figueira e o café ali existente já tinha fechado, os rebatos das casas e as  bordas do passeio serviram-nos de assento. Entretanto a camionete ia e voltava, o espectáculo era desolador, ninguém reparava em ninguém, era entrar à fôrça e de encontrão fôsse de que maneira fôsse, e logo a porta se fechava e de novo a camionete partia deixando para trás tanta gente ainda. E de novo  voltava, sei lá quantas vezes foi... Os ânimos começaram a exaltar-se, e a certa altura num dos momentos de mais um embarque, ouvimos alguém que gritava "anda aqui bulha, andam à pancada dentro da camionete, abra a porta quero sair daqui..." Pela janela atiraram umas ripas de madeira que havia pregadas no chão... Logo de seguida o motorista aflito deixou a camionete e foi a correr chamar a polícia que ficava sediada ali perto. E a policia veio.... mas já estava tudo calmo, o motorista retomou o volante  e a camionete lá se sumiu mais uma vez na escuridão. Ainda não foi nesta que tivemos lugar.
Não foram minutos, foram horas que ali estivemos à espera! Agora já falo de mim e dos meus, embarcámos era meia-noite, com os últimos passageiros na última camionete, já nem falávamos, nem sequer para nos lamentarmos ou recordarmos o que foi bom naquele dia, enquanto o sol brilhou. 
Mas ficou a recordação deste regresso atribulado, que passado algum tempo já nos fazia sorrir!

Água-Benta falsificada

 O Domingo de Páscoa em Montemor-o-Velho era um pouco diferente dos outros Domingos, no que refere às práticas religiosas. A Missa era celebrada mais cêdo, para que o Padre figura principal da comitiva, iniciásse a visita Pascal logo após, ganhando tempo para visitar todas as casa da Vila até à noite.

As residências já tinham beneficiado de limpeza intensa para receberem o Senhor Crucificado. Era colocada verdura e rosmaninho em flôr, no chão na entrada das portas que eram abertas de par em par. Em cima da mesa na sala lá estava o Folár para o Sr. Reitor. Num prato uma laranja grande com uma moeda em cima, era a oferta dos menos ricos que eram na verdade a maior parte. Os mais remediados optávam por uma nota de alguns escudos arrumada num envelope branco, e outros (poucos) juntavam também um cartucho de amêndoas. (um cartucho de papel feito pelo merceeiro)
A comitiva Pascal integrava o Homem que levava  o Crucifixo, mais outro com uma saca de brocado de côr carmim para carregar as laranjas, mais dois acompanhantes, e o homem dos foguetes. (este raro entrava, a menos que o chamassem para  um copito de vinho doce e uma fatia de bolo, do tradicional bolo da Páscoa) E havia mais dois personagens importantes (mais novos) o rapaz da Campaínha que freneticamente a accionava e aquelas badaladas ouviam-se à distância, sendo o modo de anunciar que o Padre já vinha perto, e o rapaz da Caldeirinha, uma espécie de balde de metal amarelo (luzidio nessa ocasião) onde era colocado o aspersor e a Água-Benta proveniente da Pia Baptismal e que havia sido benzida para o efeito.
Este grupo de voluntários disponibilizava-se para ir levar o Senhor a beijar, ás famílias crentes e eram todas, que não prescindiam desta cerimónia e a aguardavam ano após ano. 
Entravam nas residências, o homem da Cruz aproximava-se e o Padre dava o Senhor a beijar, primeiro ao pai e à mãe e de seguida a todos os que ali estavam reúnidos e ajoelhados respeitosamente. Aspergia água benta sobre os presentes, sobre a casa, felicitava, repetia Aleluias... havia sorrisos, havia alegria e votos de felicidades até ao ano na despedida.
Numa destas festas da Páscoa com tudo organizado, saiu a Comitiva da Igreja para dar inicio à costumada visita Pascal e já tinham entrado em muitas casas, iam animados, longe de pensarem em algum percalço, mas aconteceu; o rapaz da Caldeirinha escorregou nas pedras da rua e caiu. A Caldeirinha rolou no chão entornando a água toda. Gerou-se natural preocupação com o rapaz, mas logo passou pois ele não se tinha magoado e estava pronto a retomar. Mas faltava a Água Benta. Prestável como são todos os miúdos, logo se ofereceu para ir à Igreja buscar a preciosa água. Concordaram em esperar ali, enquanto ele numa corrida lá ia e voltava num instante. E ele lá foi apressado, mas a certa altura achou que ir à Igreja e vir era demasiado, então olhou à volta não estivesse alguém a ver, e cauteloso acercou-se da margem da Vala que existia na Vila, pôs um joelho no chão estendeu o braço e mergulhou a Caldeirinha. Atestada com o precioso liquido, limpou-a por fora com o lenço e, em passo normal reuniu-se á comitiva que o aguardava sorridente e lhe dispensou elogios.  
E lá andou todo o dia no cumprimento da sua missão, no entanto apreensivo, porque de vez em quando o pensamento lhe trazia um terrível receio, " E SE O PADRE CONHECE A  ÁGUA????? "

(também este texto é baseado num caso verídico, passado há cem anos)


sábado, 2 de outubro de 2021

O desejo do peixe...

 Foi há muito tempo. Fim dos anos trinta.


Era verão, e na quinta do Taipal em Montemor -o-Velho era grande  a azáfama nos trabalhos do arroz. Naquela tarde, aquele rancho de raparigas e mulheres mais velhas iam voltar a entrar na marinha retomando o trabalho, depois de terem enganado o estômago com pouco mais do que uma bucha e passado pelo sono, deitadas ali perto no chão agora duro e seco.
Uma delas adiantou-se e reparou que se aproximava um trabalhador com uma vêrga na mão cheia de peixes enfiados, luzidios, frescos... Alegremente, perguntou-lhe em jeito de certeza "foi ao peixe e trás muitos vai dar-me um peixe, não vai? " Êle carrancudo replicou "você esteve a dormir a sésta não esteve? " Ela assentiu, sorrindo. " Pois, enquanto você esteve a dormir eu andei na barroca a apanhar os peixes. "E seguiu caminho a acomodar a pescaria para depois também ele ir "ferrar" ao trabalho.
A tarefa recomeçou para todo o rancho, e algumas môças cantavam ao desafio, mas daí a pouco repararam que a Alice trabalhava mas, em silêncio estava a chorar. Com preocupação acercaram-se logo para saberem o porquê, mas ela algo envergonha evitava dizer a causa daquela tristeza que não conseguia dominar. Porém, as mulheres mais velhas, sábias pelas agruras da vida logo adivinharam... quem sabe se não o sabiam por experiência própria, eram tempos de pouco dinheiro, de comida magra e pouca. O organismo humano fálho de vitaminas, nestes casos, reage e aparecem os desejos incontroláveis tão conhecidos, na gente pobre... ela esperava um bébé estava á vista este desiquilibrio nervoso. Uma delas penalizada falou-lhe baixinho, "a Alice está a chorar por causa do peixe"... não, respondeu ela. "Está, está, e logo o meu homem está preso, se não, ele ia ao peixe e eu dava-lhe." O homem dela era pescador no rio, um bom homem, mas bebia e batia-lhe, ela gritava e a guarda ia e prendia-o, e no dia seguinte libertava-o. Outra companheira indignada dirigiu-se ao bruto como ela lhe chamou e avisou-o, se acontecer algum mal à rapariga somos todas testemunhas e vamos denunciá-lo na G.N.R. O dia terminou e com as companheiras ela regressou à aldeia que ficava distante da Vila, mas ao deixar a Quinta voltou o chôro. Então a prima Nazaré ofereceu, "olha lá Alice e se tu bebesses um copito de aguardente?,,, eu pago, vamos ali à taberna da leiteira" era uma tasca quase imunda situada à beira da estrada perto de Quinhendros. Ela não aceitou, mas riu-se, o que já foi um progresso.
  

sábado, 4 de setembro de 2021

Foi há um mês, em principio de Agosto...

 Adeus Amiga,

No ano passado e neste, tenho visto partir na viagem sem regresso quase todas as minhas amigas. Agora foi a Lurdes, a Lurdes Caiado, foi há uns dias... porém, não é com a cortina de terra que cai sobre o corpo, que se me apaga da memória todo um passado longo de amizade recíproca; e por isso escrevo mesmo com atraso. Eu sou mais nova do que ela, mas cêdo as brincadeiras na rua nos aproximaram. Mais tarde na juventude todos os dias nos víamos, todos os dias falávamos. A Lourdes era empregada no Posto Sezonático e eu no Stand Oliva perto da Praça da República. Dia após dia pela hora do almoço a Lurdes aparecia, nós tínhamos sempre o que dizer. Ela já namorava o Zeca, um rapaz bonito (como ela era também) que toda a gente estimava. E naquele sábado depois de falarmos doutras coisas, ela disse para mim, "amanhã vais ao Baile, não vais?! É que eu não vou não posso ir. Mas tu vais?" respondi afirmativo. "então vê se o Zeca vai dançar e já agora com quem e depois na segunda - feira dizes-me..."
E na segunda lá aparece a Lurdes ansiosa... "E então? O Zéca dançou?
Respondi, que sim, dançou. "E foi mais do que uma vez?" - Foi várias vezes e sempre com a mesma. "A sério ?" (a Lurdes perdeu o sorriso) "e quem é ela? " - E a rir respondi-lhe, EU !
Rimos as duas abraçadas enquanto ela murmurava "contigo não faz mal."
Depois a Lurdes casou, com o Zeca, e foi viver perto de mim, nasceram os meninos uns amores de crianças... entretanto eu casei, deixei Montemor, mas assiduamente lá estavam as saudações da Lurdes para mim, nas cartas que a minha amiga Arminda me escrevia. Anos depois passei a residir na Figueira perto de Montemor e voltámos a encontrar-nos, tantas, tantas vezes... e nas procissões era de certeza e sempre. Depois da procissão recolher, e o Padre dizer que podiam levar os cravos do andor, ela acercava-se apanhava alguns e dividia - os por mim, dizendo leva este três prá tua mãe.
A ultima vez que vi a minha amiga foi na última Procissão em que eu estive e por isso, eu nunca a vi doente. Foi com grande mágoa que vi a sua fotografia actual nas redes sociais. É a realidade eu sei, ninguém a pode alterar.
Contudo, e perdoem-me a teimosia, eu quero continuar a ver a Lurdes Caiado uma linda jovem, uma linda noiva, uma linda mamã, uma linda avó, e mais tarde uma bonita senhora sempre de sorriso nos lábios e simpatia eterna. Ela foi tudo isto, incluindo os valores morais e familiares que sempre nela habitaram.
Foi uma vida linda como ela era, chegou ao fim e está em paz!
Licínio Cadima Rosa Carreiro, Mário Silva e 15 outras pessoas
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quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Já passou um ano. 25 . 8 . 2020 / 25 . 8 . 2021

 Foi há vinte cinco anos, mas é assim que eu quero recordar a minha amiga Arminda. Ela sempre esteve comigo nos maus e nos bons momentos. Este foi de alegria, a festa de casamento da minha filha. Num video que guardo, tenho a Arminda a dançar com o marido, e bem, porque ambos eram exímios na dança. E enormes no trato, na educação e na amizade que sempre me dedicaram. Hoje recordo tudo de lágrimas nos olhos. Perdi a minha maior amiga, a minha irmã mais velha como eu lhe chamava, e não é de ânimo leve que aceito esta triste realidade.


sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Os Mêdos

 As pessoas cultivavam a superstição, toda a gente tinha algo de sobrenatural para contar, que alguém tinha visto. Falavam sem evitar que as crianças ouvissem, e assim eram elas (mais tarde) o veículo transmissor desses episódios então já apontados como verdadeiros. Estamos em Montemor em anos bastante recuados.

Na Vila haviam locais especiais onde "apareciam" os mêdos, e ai de quem duvidásse de tais afirmações. Na Rua Dr. José Galvão pelas dez horas da noite (hora dos mêdos) um caixão a rastejar atravessava a rua e, sumia-se num bueiro grande que existia encostado à casa do Fidalgo José Fortunato; hoje tudo  desaparecido, casa, bueiro e fidalgo. Outro local apontado era um pôço (de água) empedrado situado numa terra do mesmo Fidalgo, na estrada que liga a Vila à Barca, já perto da antiga Ponte.
Mas não menos assustador era a baixeira do Cano, frente à Quinta do mesmo nome, a caminho do Areal e do Moinho da Mata, e é aqui o local desta história:
- Mariana era costureira e ia costurar aos dias na casa das freguesas. Ia a pé e carregava a máquina de costura à cabeça, chamada máquina de mão, porque isenta de pedal, tinha uma manivela que era acoplada à roda e acionada pela mão da costureira. Começava o dia manhã cêdo e terminava ao entardecer. Ainda comia qualquer coisa, e só depois regressava a casa. E foi no regresso dum desses dias de trabalho em casa duma família no Areal, que ela se encontrou com a comadre Júlia também de Montemor, e juntas encetaram caminho animadas pela companhia recíproca, e um tanto apressadas pois ao longe já eram visíveis as primeiras estrelas pontilhando o céu, e também porque a baixeira do Cano lhes causava receios. E nesse sentido a conversa entre elas recaiu imediatamente nas aparições estranhas. "Eu nunca vi nada, dizia a Mariana, mas acredito que alguma coisa há-de haver, ao tempo que se fala nisto, isto já vem de trás... e tenho mêdo!" 
- "Pois, pois, dizia a comadre, eu também nunca vi nada, mas já a minha avó contava aquela da Galinha preta, grande grande, maior do que uma pessoa, batia as azas fazia barulho e vento que levantava o pó do chão. Eu tenho muito mêdo não gosto de aqui passar assim mais tarde, mas ás vezes  lá tem que ser..."
- Como a noite se aproximava, o filho da costureira ignorando que a mãe teria companhia, resolveu ir ao seu encontro. Ao vê-la ao longe, acompanhada, pensou numa brincadeira. Escondeu-se atrás duma árvore e esperou, deixou-as passar e em passo ligeiro mas leve foi atrás delas, aproximou-se bastante e quase encostado fêz um valente assôpro que naquele silêncio soou bem audível. Ambas deram um grito, a Mariana deitou a mão á máquina e em simultâneo agarraram-se uma á outra, para logo se soltarem e  desatarem a correr estrada fora sem olharem para trás. O rapaz que esperava uma risada e tal não aconteceu, já estava arrependido, e corria enquanto gritava "esperem, esperem, sou eu, esperem..."  Não esperaram nada, e só quando pisaram o chão da Vila e as fôrças começavam a traí-las, é que pararam e a mêdo olharam para trás.
E ali estava a razão de tanto mêdo, uma diabrura do filho da Mariana e afilhado da Júlia. Agora incrédulas quanto à situação que não esperavam, olhavam o jovem e não sabiam se haviam de ralhar, de rir, ou de chorar, pois o rapaz, arrependido, tinha perdido o riso, e um jovem triste faz pena. Decidiram-se  pelo riso, e quem sabe se depois disto não passaram a desvalorizar este género de mêdos que desde a infância acatavam?! 
.   

quinta-feira, 25 de março de 2021

Versos lindos!

 Poema à Mãe


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Confissão...

Há uns anos,

Mudei-me para o novo quinto andar
E passei a viver cá nas alturas,
Custou-me mesmo muito a habituar;
Olhar pela janela fazia-me tonturas...
O sêr humano a tudo se habitua
E a minha pessoa não será excepção-
Já não fico perturbada ao ver a rua,
Nem ao pensar a que distância estou do chão.
Mas recordo o desânimo e o mêdo,
Que me assaltavam na noite e madrugada,
Tudo se conjugava pra meu desassossego;
Até no elevador fiquei trancada!
Aos poucos vi então tantas belezas
Que só do alto os olhos podem vêr;
Mas que saudade das casas portuguesas
Que nas aldeias ainda hão-de haver!
Sem grandes escadas, sem elevadores,
Com amigos que lá são os vizinhos;
Canteiros ás portas, muitas flores,
Pássaros trinando; e nos beirais, os ninhos.
(Dília Brandão Fernandes)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Ainda acerca das Rádios pirata...

 - Terminados os esclarecimentos sobre o desaparecimento das morcelas, o nosso amigo Santiago Pinto ainda um tanto irado pelo acontecido, encaminhou-se para o espaço fechado onde se situava o Estúdio da Rádio Montemor. O meu marido como colaborador seguiu-o de perto, e eu preparava-me para ficar na salita ao lado (levei um livro para ler) enquanto durasse aquele tempo de emissão do qual o Santiago Pinto era o produtor e que o havia baptizado de "Uma Hora há Beira do Mondego." Mas logo o ouvi dizer para eu entrar e já, porque estava a aproximar-se a hora. Fiquei contente, eu desejava tanto conhecer um estúdio radiofónico. Eles ocuparam os seus lugares e eu sentei-me na cadeira que me indicou, ao seu lado, e caladinha comecei a observar enquanto ele separava uns papeis e trocava palavras com o meu marido. Há hora certa deu inicio à transmissão e cada um deles ia apresentando o que havia préviamente programado. Aquilo era novidade para mim e eu estava a gostar, quando para surpresa minha ele me estende uma folha de papel A4 e me diz assim em jeito de ordem; "leia isso para ficar a conhecer, porque daqui a pouco vai ler esses versos para os nossos ouvintes; - vá, leia, vá treinando, que quando eu abrir o microfone tem de ler mesmo." Eu fiquei aflita, nem sabia o que dizer, e, não disse nada. Com o papel nas mãos que tremiam, li para mim em jeito de breve ensaio, as quadras da sua autoria dedicadas a Santa Ana, mãe da Virgem Maria, Santa que era venerada na sua Terra Natal. (Vila Nova da Barca) Na devida altura e obedecendo ao seu sinal, eu li para os ouvintes os bonitos e ternos versos, que me pareceram maiores do que toda a escrita do Jornal de Noticias... (passe o exagero) Ele gostou, mas eu não. E quando ouvi a gravação ainda fiquei mais desiludida e afirmava, a minha voz é baixinha, sem corpo, nada radiofónica. Uma vergonha, repetia eu sem parar. E prometi não voltar "nunca mais" ao Estúdio. Porém, nunca digas nunca... No sábado seguinte lá estava eu de novo...

domingo, 31 de janeiro de 2021

Que importa que na rua esteja a chover?! Ao escrever eu vejo o sol a brilhar, claro e lindo...

 Encontro ao Domingo

O sol acordou cedo: hoje é Domingo,
Chama-lhe o povo "o dia do Senhor,"
Confraterniza-se, neste dia lindo,
Nos lares onde ainda existe amor.
Amor, ternura, uma família unida,
Forte cadeia que importa não quebrar.
Uma das coisas boas nesta vida
É um bom repasto, no sossegado lar.
Há festa â mesa, há risos e finezas
Que se recebem e dão de modo igual:
Ali não há lugar para tristezas,
Triunfa o bem em desfavor do mal.
A vida é curta, apenas só passagem:
Pra quê vivê-la só em confusões?
Há que sentir o bom desta "miragem"
E nela só deixar boas recordações.
(Dília Brandão Fernandes)

domingo, 31 de maio de 2020

Ainda não esqueci

Foi há muito tempo...

Foi quando se instalaram as Rádios Pirata. Dum instante para o outro passou a haver um Estúdio Radiofónico em várias localidades e Montemor foi uma delas.
Durante muitos anos reinou a Emissora Nacional e de modo menos exuberante também o Rádio Clube Português, a Renascença e os Emissores do Norte Reunidos, situados respectivamente em Lisboa e no Porto. Apenas transmitiam.  Nunca qualquer voz do exterior seria considerada para ser dali transmitida.
Assim, a vinda das Piratas foi uma glória, porque dava voz a quem quisesse para lá telefonar e ser ouvida. A maior parte dos programas eram mesmo nesse sentido - faziam uma pergunta e abriam o microfone para os ouvintes que quizessem participar. E claro sucediam-se os telefonemas e ouviam-se as vozes de quem estava longe ou perto. Havia prémios para quem respondesse certo, e aquela quase brincadeira foi um êxito durante anos.
Naquela noite em casa na Figueira, eu ouvi a pergunta (qual o nome da Capital do Egito) e como sabia a resposta telefonei. E tive sorte porque ninguém mais acertou, e por isso eu ganhei o prémio que eram duas Morcelas da Beira, da Firma que tinha publicitado aquela hora de programa.
Ganhar é ganhar, fiquei contente, mas ainda mais porque seria um bom pretexto para pela primeira vez eu ir ver um Estudio Radiofónico. E assim aconteceu.
No dia seguinte à noite, o Jornalista Santiago Pinto nosso amigo, residente numa das Freguesias de Montemor, mais propriamente Vila Nova da Barca, iria deslocar-se à Rádio porque também ele tinha ali um programa a seu encargo. Havia convidado o meu marido para fazer parte, e eu como tinha as Morcelas para trazer, aproveitei a oportunidade e lá fomos os dois para Montemor pela estrada velha, que a actual ainda não existia.
Encontrámo-nos no Café e seguimos juntos. Lá chegados, primeiro fui saber das Morcelas. O nosso amigo que já sabia o local aonde eram colocados os prémios, estranhou não ver lá nada do género e foi saber. Ficou quase numa fúria - os rapazes que tinham feito aquela hora de Rádio tinham-nas comido. Ele classificou o facto como falta de respeito, e o caso chegou aos responsáveis da Rádio, mas também ao patrocinador, que até acabou por achar graça e dizer que na próxima semana me trazia as Morcelas, não duas, mas três! (mais uma para me compensar pela espera)
E assim como prometeu assim cumpriu. Ainda hoje recordo o delicioso tempero muito agradável ao paladar. E também de ficar  a saber como era um Estúdio Radiofónico. Aquele era muito singelo, pequenino, mas ouvia-se a uma boa distância, e assim foi por largo tempo até que a Lei entretanto promulgada o silênciou, como a mais alguns em iguais condições.

sábado, 11 de abril de 2020

Desculpas e Saudações Pascais!

Caras amigas e amigos, eu quero apresentar desculpas pelo atraso no envio deste meu livro. Tal facto deve-se à situação que se vive, e eu estar "em prisão domiciliária", isto de ser velha é um posto... Mas, haja esperança. Para vós amigos, conhecidos, e desconhecidos também, vão os meus desejos de que vivam a Páscoa com saúde e paz! Abraço forte!



sábado, 21 de março de 2020

Nesta altura de tantos receios, tanta incerteza e desânimo que estamos a atravessar, encontrei estes versos do grande Poeta Fernando Pessoa, e pareceram-me escritos para hoje...

Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora!

(Fernando Pessoa)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

É Carnaval, ninguém leva a mal... Será ?

Noite de Núpcias

Enquanto despia o fraque
Junto ao leito de noivado
Escapuliu-se lhe um traque
De timbre aclarinetado...

A noiva olhou-o de lado
E pôs-se, com ar basbaque,
A remirar o bordado
Das botinas de duraque...

Houve, após esse momento,
Naquela noite de gala,
Um duplo constrangimento.

E o noivo disse-lhe então:
- Ó filha, cu que não fala
é cu sem opinião...

      Augusto Gil

(Serão mesmo da sua autoria ? )

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

O que seria do mundo sem os Poetas e a beleza das suas rimas...


Transcrevemos, de Folhas Caídas,
um dos poemas mais conhecidos de Garrett )

OLHOS NEGROS

Por teus olhos negros, negros,
Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores...
E eles a dizer que não.

E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são;
Que os azúis dão muita esp'rança,
Mas fiar-me eu neles, não.

Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim...
Nunca mais dizem que não.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Morena

Não negues, confessa
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.

Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.

Eu não... mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.

Mas olha as violetas
Que, sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!

Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.

Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,
De cor de açucenas,
De muita outra cor;
Mas rosas morenas,
Só tu, linda flor.

E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei... mas seria
Morena também.

Moreno era Cristo.
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena!

Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'
// C

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Feliz Ano-Novo !

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E — ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

(Mário Quintana)

domingo, 22 de dezembro de 2019

Cristo, Bébé...


Amigas e Amigos

Que o vosso Natal seja vivido com Paz, Alegria e Esperança!
Boas Festas!
             

sábado, 14 de dezembro de 2019

Natal


Não sei porquê, mas cada vez me sinto mais triste com a festa do Natal. E chamo-lhe festa porque a recriação do nascimento de Jesus é sempre motivo de muita alegria. Também vivi essa alegria com a minha inocência de criança quando o Menino Jesus entrava pela chaminé e me deixava no borralho um qualquer presente embora modesto.Mais tarde nos tempos de juventude de modo diferente mas com a mesma ansiedade eu aguardava esta data única. Era pelo Natal que eu estreava um vestido, se necessário fôsse também um casaco e os sapatos, esses não podiam faltar. Ia à Missa como de costume mas neste dia para beijar o Menino Jesus, que o Sacerdote retirava do Presépio no fim da Missa e o chegava aos lábios de quem se aproximava do altar e se ajoelhava para proceder a esse ritual. Pelo meio da tarde havia outro Presépio para visitar, era na Capela do Hospital, obra das Irmãs de Caridade ali residentes em semiclausura e que caprichavam, quase rivalizando com o Presépio da Igreja Paroquial. Ir até ao Presépio do Hospital, para além da curiosidade e poder avaliar qual dos dois estava mais bonito, era também um passeio de muito agrado, era um dia diferente para novos e velhos. E depois da festa cristã, vinha o divertimento - à noite havia baile no Teatro. Tudo tão simples, mas cheio de significado para mim... 
Mais tarde, quando criei a minha própria família eu continuei a viver o Natal e nem sei se não seria com uma alegria ainda maior do que fora outrora. Eu fazia a Árvore de Natal para as minhas filhas, mas não me excluía e o meu entusiasmo era um facto. Nesta altura já não era o Menino Jesus que trazia os brinquedos, mas sim o Pai Natal que os deixava  sempre junto da Árvore, que para esse fim era colocada perto duma janela que eu deixava entreaberta (só até elas adormecerem) para ele entrar, visto que não tinha lareira com chaminé. As minhas filhas na sua inocência, nem por sombras duvidavam da vinda do Homem das barbas brancas, que elas só conheciam das ilustrações nas revistas e na televisão.
Actualmente é censurada esta atitude então usada com as crianças. Diz-se que eram enganadas. De facto assim era, mas viviam uma enorme alegria, alegria que nos contagiava também.
Hoje tudo é real, a fantasia voou não existe mais, e a idade da inocência também não. Mas eu tenho saudades do "meu" Natal.

 
Esqueceram-se de ti Menino Jesus
Ficáste no Presépio abandonado
As ruas resplandécem; tanta luz,
Mas de Natal pouco é o significado.

Boas Festas! Ouve-se aqui e ali.
Porém Natal cristão já não existe.
Mas o Menino Jesus inda sorri,
Embora o seu sorriso seja triste.

sábado, 30 de novembro de 2019

Verdades!

Caras amigas e amigos,
Encontrei este texto e não resisti a trazê-lo para aqui. Eu confessei o roubo à autora, escudando-me naquela máxima "quem confessa a verdade não merece castigo." Veremos...

Façam o maior esforço, possível, para estarem vigilantes.

Quem não ler fica mais pobre...

Do Mural de Lourdes dos Anjos: Quando os meninos me pediam "papel macio pró cu e roupa boa prá gente"…Um dos textos que mais me custou a escrever e por isso tem mais lágrimas do que palavras.

“Estávamos ainda no século XX, no longínquo ano de 1968, quando a vida me deu oportunidade de cumprir um dos meus sonhos: ser professora. Dei comigo numa escola masculina, ali muito pertinho do rio Douro, na primeira freguesia de Penafiel, no lugar de Rio Mau.Era tão longe, da minha rua do Bonfim, não podia vir para casa no final do dia, não tinha a minha gente, e eu era uma menina da cidade com algum mimo, muitas rosas na alma, e tinha apenas 18 anos. Nada me fazia pensar que tanta esperança e tanta alegria me trariam tanta vida e tantas lágrimas. Os meninos afinal eram homens com calos nas mãos, pés descalços e um pedaço de broa no bolso das calças remendadas.

As meninas eram mulheres de tranças feitas ao domingo de manhã antes da missa, de saias de cotim, braços cansados de dar colo aos irmãos mais novos, e de rodilha na cabeça para aguentar o peso dos alguidares de roupa para lavar no rio ou dos molhos de erva para alimentar o gado.

As mães eram mulheres sobretudo boas parideiras, gente que trabalhava de sol a sol e esperava a sorte de alguém levar uma das suas cachopas para a cidade, “servir” para casa de gente de posses. Seria menos uma malga de caldo para encher e uns tostões que chegavam pelo correio, no final de cada mês.
Os homens eram mineiros no Pejão, traziam horas de sono por cumprir, serviam-se da mulher pela madrugada, mesmo que fosse no aido das vacas enquanto os filhos dormiam (quatro em cada enxerga), cultivavam as leiras que tinham ao redor da casa, ou perto do rio e nos dias de invernia, entre um jogo de sueca e duas malgas de vinho que na venda fiavam até receberem a féria, conseguiam dar ao seu dia mais que as 24 horas que realmente ele tinha. Filhos, eram coisas de mães e quando corriam pró torto era o cinto das calças do pai que “inducava” … e a mãe também “provava da isca” para não dizer amém com eles…E os filhos faziam-se gente.

E era uma festa quando começavam a ler as letras gordas dum velho pedaço de jornal pendurado no prego da cagadeira da casa…o menino já lia.. ai que ele é tão fino… se deus quiser, vai ser um homem e ter uma profissão!

Ai como a escola e a professora eram coisas tão importantes!

A escola que ia até aos mais remotos lugares, ao encontro das crianças que afinal até nem tinham nascido crianças…eram apenas mais braços para trabalhar, mais futuro para os pais em fim de vida, mais gente para desbravar os socalcos do Douro, mais vozes para cantar em tempo de colheitas.

E os meninos ensinaram-me a ser gente, a lutar por eles, a amanhar a lampreia, a grelhar o sável nas pedras do rio aquecidas pelas brasas, a rir de pequenas coisas, a sonhar com um país diferente, a saber que ler e escrever e pensar não é coisa para ricos mas para todos, para todos.

E por lá vivi e cresci durante três anos e por lá fiz amigos e por lá semeei algumas flores que trazia na alma inquieta de jovem que julgava conseguir fazer um mundo menos desigual.

E foi o padre António Augusto Vasconcelos, de Rio Mau, Sebolido, Penafiel, que me foi casar ao mosteiro de Leça do Balio no ano de 1971 e aí me entregou um envelope com mil oitocentos e três escudos (o meu ordenado mensal) como prenda de casamento conseguida entre todos os meus alunos mais as colegas da escola mais as senhoras da Casa do Outeiro. E foi na igreja de Sebolido que batizou o meu filho, no dia 1 de janeiro de 1973.

E é deste povo que tenho saudades. O povo que lutou sem armas, que voou sem asas, que escreveu páginas de Portugal sem saber as letras do seu próprio nome.

Hoje, o povo navega na internet, sabe a marca e os preços dos carros topo de gama, sabe os nomes de quem nos saqueia a vida e suga o sangue, mas é neles que vai votando enquanto continua á espera de um milagre de Fátima, duns trocos que os velhos guardaram, do dia das eleições para ir passear e comer fora, de saber se o jogador de futebol se zangou com a gaja que tinha comprado com os seus milhões, e é claro de ver um filmezito escaldante para aquecer a sua relação que estava há tempos no congelador.

As escolas fecharam-se, os professores foram quase todos trocados por gente que vende aulas aqui, ali e acolá, os papás são todos doutores da mula russa e sabem todas as técnicas de educação mas deseducam os seus génios, os pequenos /grandes ditadores que até são seus filhinhos e o país tornou-se um fabuloso manicómio onde os finórios são felizes e os burros comem palha e esperam pelo dia do abate.

Sabem que mais?!
Ainda vejo as letras enormes escritas no quadro preto da escola masculina, ao final da tarde de sábado, por moços de doze e treze anos com estes dois pedidos que me faziam: “Professora vá devagar que a estrada é ruim, e não se esqueça de trazer na segunda-feira, papel macio pró cu e roupa boa dos seus sobrinhos prá gente”.

Esta gente foi a gente com quem me fiz gente.

Hoje, não há gente… é tudo transgénico .

O povo adormeceu à sombra do muro da eira que construiu mas os senhores do mundo, estão acordadinhos e atentos, escarrapachados nos seus solários “badalhocamente” ricos e extraordinariamente felizes porque inventaram máquinas e reinventaram novos escravos.

Dizem que já estamos no século XXI...”

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Talvez esteja à beira dos cem anos, e ainda não envelheceu...

Bonito não é? Os antigos já tinham bom gosto. Era a petróleo, hoje está e há muito já, electrificado. É uma recordação que guardo quase religiosamente.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

No Jardim

Em fim de Setembro, a calma era por de mais evidente neste Jardim frente à praia em Armação de Pêra. Esqueci as horas e prendi-me ao bailado forte e gracioso das gaivotas que em gritos estridentes cruzavam os céus. Tão rápidas não se deixaram fotografar. O cheiro a maresia aliado ao odor dos arbustos ao meu redor, proporcionava uma atmosfera deliciosa naquele fim de tarde, que dava bem estar. E para mim pensei, não é preciso muito para me sentir no Paraíso...  ----------------------------

 Não sei porque foram retiradas daqui as fotos deste texto e do seguinte. São fotos de paisagens que eu fiz em Armação de Pêra. São motivos do Jardim com suas palmeiras, e um pouco da Avenida frente à praia.
 

Um pormenor do Algarve


As palmeiras de Armação de Pêra também estão a começar a envelhecer. É pena, mas a ordem é comum a tudo o que nasce. (nascer, crescer e findar.)


segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Este Natal, ofereça Montemor...e Fantasia!


Olá amigos e amigas!

O blogue está entregue ao abandono desde Junho e agora apareço aqui a fazer publicidade ao meu livro! O que é que hão-de vocês pensar de mim? Mais: apareço, além disso, para pedir a vossa colaboração na divulgação do meu livro, já que ainda disponho de muitos exemplares. Posso adiantar que as opiniões têm sido muito mais favoráveis do que alguma vez imaginei. Por isso atrevo-me a sugerir que possa ser uma surpresa e uma boa prenda de Natal para quem goste de ler e tenha algum interesse ou ligação afectiva à vila de Montemor-o-Velho.

Agradeço-vos, pois, caso decidam ajudar no processo e dedicar alguns minutos do vosso ocupado tempo à partilha desta postagem no vosso blogue, no Facebook, no Twitter, por correio electrónico, da melhor forma que entenderem. Sei que existem potenciais leitores que talvez apreciassem ler Montemor, verdade e fantasia, mas não é fácil chegar até eles sem auxílio.



terça-feira, 18 de junho de 2019

Na Feira do Livro em Montemor-o-Velho

Pois minhas amigas e amigos, ontem dia 15 de Junho estive na Feira do Livro na minha terra Montemor-o-Velho, para autografar o meu livro Montemor Verdade e Fantasia. Estava um vento um tanto antipático, mas o calor humano e simpatia foram mais fortes.

Montemor Verdade e Fantasia (o meu filho mais novo)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Montemor, Verdade e Fantasia: sessão de autógrafos na Feira do Livro de Montemor-o-Velho



Entre 11 e 16 de Junho vai decorrer em Montemor-o-Velho mais uma edição da Feira do Livro.  No dia 15 de Junho, pelas 15:00 horas terá lugar uma sessão de autógrafos do meu livro Montemor, Verdade ou fantasia. Convido-vos a aparecerem para trocarmos impressões e também a divulgarem a minha presença no evento!

Recordo aos mais distraídos que o livro foi  lançado em Novembro passado e que surgiu depois de, durante alguns anos, ter escrito histórias sobre a minha infância e adolescência na antiga vila, neste blogue. Incitada pelos blogueiros  meus leitores, e amigos, acabei por concretizar uma ideia nunca pensada: escrever e publicar um livro. Foram muitas horas a rever e melhorar os textos que escrevera no Renda de Birras, algumas contrariedades e até desânimos, antes do livro chegar à mão dos leitores. Embora seja uma publicação que interesse sobretudo aos nascidos e crescidos em Montemor, o livro já atravessou o Atlântico e chegou a terras brasileiras.

A publicação tem sido bem  recebida pelos leitores em geral o que me tem deixado muito satisfeita. Por vezes ainda me surpreendo com aquilo que consegui fazer: um livro. E agora estarei numa Feira de Livro, e até me chamam "escritora", o que não sou, na verdade sou uma amadora da escrita. Só isto já dava uma nova história! Uma sinopse detalhada das diversas histórias pode ser linda aqui, no blogue Renda de Birras, através do qual também podem, os interessados, solicitar a compra de um exemplar.

Sinopse breve

Em Montemor, verdade e fantasia, Dília Brandão Fernandes, junta trinta e uma estórias que resgatam do esquecimento um tempo sem retorno. Através de uma escrita simples mas cativante, onde se entrelaçam realidade e ficção, a autora relata memórias de Montemor-o-Velho, onde nasceu há 81 anos.

Acontecimentos coletivos e fenómenos hoje desaparecidos, usos, costumes e modos de vida dos anos 50-60 sustentam peripécias bem humoradas ou episódios mais sombrios protagonizados pelos habitantes da vila. São as jovens lavadeiras e as suas brincadeiras impensáveis, as bordadeiras e costureiras e o seu lavor, as trabalhadoras do arroz e a sua labuta, a sorte de mulheres companheiras da jornada de homens de virtudes e defeitos, quinteiros, agricultores, soldados, padres, as suas mágoas e os seus triunfos. São as figuras da terra, o gasolineiro, o farmacêutico, os médicos, o melómano, os “doutores” e os trabalhadores do campo, as suas brigas e ajustes de contas, e ainda seus ídolos, o ciclista Alves Barbosa, ou o artista e inventor das Espigas Doces, Henrique Flórido, que conseguiu fazer história na doçaria regional com as Espigas Doces. É também a paisagem anualmente transfigurada pelas cheias do rio Mondego, a escola da disciplina “à reguada” e o recreio, sessões de cinema ao ar livre que provocavam emoções fortes nunca vistas, as feiras da fartura e da miséria humanas, os pobres que pediam esmola de porta em porta aos sábados de manhã quase um  ritual, ou ainda a banda filarmónica no olhar de uma criança, entre outros ecos ímpares de um tempo e Montemor hoje incomparáveis.

O livro, uma edição de autor, de 196 páginas, inclui também mais de duas dezenas de fotografias de Montemor antigo, a preto e branco, feitas pela autora, e um prefácio escrito por Manuel Carraco dos Reis.